Tecnologia
WuXi AppTec lucra 19,4 bi de yuans com terceirização de P&D — farmacêuticas brasileiras podem cortar custos de ensaios clínicos
· Redação CBI
A WuXi AppTec, maior CRDMO da China, reportou lucro líquido de 19,4 bilhões de yuans no acumulado de 2024, impulsionada por contratos de pesquisa e produção para farmacêuticas globais.
A WuXi AppTec, maior empresa chinesa de serviços terceirizados de pesquisa, desenvolvimento e produção farmacêutica (CRDMO), divulgou lucro líquido de 19,398 bilhões de yuans (cerca de USD 2,7 bilhões) nos primeiros nove meses de 2024, alta de 60,64% ano a ano. Só no terceiro trimestre, o lucro foi de 8,318 bilhões de yuans, salto de 136,67%. O número contrasta com o setor de medicamentos inovadores chinês, ainda majoritariamente deficitário. Para o Brasil, o desempenho expõe uma avenida pouco explorada por farmacêuticas e biotechs nacionais: terceirizar etapas de P&D e produção clínica na China para encurtar prazos e reduzir custos regulatórios.
A WuXi AppTec encerrou o terceiro trimestre com receita de 45,537 bilhões de yuans e carteira de pedidos de 76,74 bilhões de yuans. O modelo de negócio, batizado de CRDMO, consiste em oferecer serviços de descoberta de moléculas, síntese de compostos, estudos de metabolismo e segurança, desenvolvimento de processos e produção comercial para farmacêuticas globais. A empresa cobra por projeto ou por pesquisador alocado, sem reter os direitos comerciais do medicamento. Se o fármaco fracassa, a farmacêutica cliente perde o investimento, mas a WuXi AppTec mantém as receitas já contratadas e liquidadas. Parte do lucro do período, no entanto, veio de ganhos não recorrentes: a venda de ações da WuXi XDC em agosto gerou ganho pré-imposto estimado em 3,143 bilhões de yuans. Excluindo itens não recorrentes, o lucro líquido foi de 16,477 bilhões de yuans — ainda robusto.
O impacto para o Brasil é indireto, mas relevante para a cadeia farmacêutica. Farmacêuticas brasileiras que desenvolvem medicamentos inovadores enfrentam custos crescentes de ensaios clínicos e produção para testes. O modelo CRDMO permite terceirizar fases intensivas em capital e mão de obra especializada, mantendo o controle sobre a molécula. A ANVISA (agência reguladora brasileira) exige validação de fornecedores estrangeiros, mas contratos com CRDMOs chinesas já são aceitos em estudos multicêntricos. O movimento pode interessar a startups de biotech apoiadas pela BNDES e a laboratórios públicos como Fiocruz e Butantan, que buscam acelerar pipelines sem construir infraestrutura própria.
Os dados mostram que a WuXi AppTec atende simultaneamente centenas de clientes e projetos, diluindo o risco de fracasso de um único medicamento. Na leitura do CBI, isso indica que o modelo de terceirização de P&D ganha escala justamente quando o setor de inovação enfrenta aperto de financiamento. Para o Brasil, a questão não é copiar o modelo, mas mapear quais etapas — síntese de compostos, estudos de toxicologia, produção de lotes clínicos — podem ser contratadas na China com custo até 40% menor que em fornecedores europeus ou americanos, segundo estimativas de mercado. A dependência de um único fornecedor, porém, é risco regulatório e geopolítico que a ANVISA e o Ministério da Saúde precisam monitorar.
O que acompanhar: primeiro, a evolução da carteira de pedidos da WuXi AppTec no quarto trimestre, que sinaliza demanda global por serviços de P&D; segundo, a publicação de novas regras da ANVISA sobre validação de fornecedores asiáticos em ensaios clínicos; terceiro, o desempenho de biotechs brasileiras que já terceirizam etapas na China, caso de empresas apoiadas por fundos de venture capital locais.
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