StepFun contrata ex-Feishu para Agent OS — sinal de que IA chinesa ainda busca modelo de negócio para hardware
· Clara Lin
Eletrônicos e máquinasVeículos elétricos e baterias
A StepFun, startup chinesa de grandes modelos de IA que lançou celular próprio em julho, estaria contratando o ex-vice-presidente de produto do Feishu, Shi Kaiwen, para liderar seu sistema operacional de agentes — movimento que expõe a dificuldade do setor em transformar capacidade técnica em pro...
Por que isso importa
O movimento da StepFun em Agent OS e hardware com IA embarcada afeta o setor de Eletrônicos e máquinas e Tecnologia e plataformas: seus modelos já estão em cerca de 60% das principais marcas chinesas de celulares, com mais de 42 milhões de unidades pré-instaladas até o fim de 2025. Fabricantes brasileiros como Positivo e Multilaser e o Polo de Manaus podem ser pressionados a licenciar sistemas operacionais com agentes de IA, enquanto TOTVS e Sankhya monitoram o empacotamento B2B. A contratação de Shi Kaiwen (ex-Feishu) ainda não confirmada sinaliza que o gargalo chinês é produto, não capital.
O que fazer
Consulte o ComexStat para mapear importações de componentes eletrônicos e celulares da China sob NCMs relevantes e avaliar dependência de sistemas operacionais chineses; Verifique na ANATEL os requisitos de homologação para dispositivos conectados com IA embarcada antes de licenciar soluções como Step AOS; Use linhas do BNDES/FINAME para avaliar financiamento de automação e software embarcado em fabricantes do Polo de Manaus.
Janela de tempo
Não há prazo regulatório imediato; a confirmação da contratação pode sair a qualquer momento e a listagem em Hong Kong e o desempenho do STEPX Neo devem ser acompanhados nos próximos trimestres.
A StepFun, uma das principais startups chinesas de grandes modelos de IA, estaria contratando Shi Kaiwen, ex-vice-presidente de produto do Feishu (ferramenta de colaboração da ByteDance), como sócio responsável pela direção do Agent OS, segundo reportagem do Huxiu citando fontes independentes. A notícia foi publicada em 15 de setembro e apagada pouco depois, sem confirmação oficial da empresa. O movimento ocorre meses após a StepFun lançar seu próprio celular, o STEPX Neo, e um sistema operacional de agentes, o Step AOS — apostando que o futuro da IA está nos terminais, não apenas nos modelos. Para o mercado brasileiro, o caso interessa diretamente a fabricantes de eletrônicos, montadoras e empresas de software que avaliam integrar agentes de IA em dispositivos físicos: a StepFun mostra que ter modelo, hardware e capital não basta — falta produto que o usuário final queira usar.
A StepFun concluiu em janeiro deste ano uma rodada de financiamento B+ superior a 5 bilhões de yuans (cerca de USD 700 milhões), reformou-se como sociedade anônima em abril e, em maio, avançou com planos de listagem em Hong Kong após desmontar sua estrutura red-chip e captar quase USD 2,5 bilhões adicionais. Em julho, o presidente do conselho Yin Qi — que assumiu o cargo em janeiro, com o fundador Jiang Daxin permanecendo como CEO — colocou na mesa a estratégia de terminais: a marca STEPX, o sistema operacional de agentes Step AOS, o agente pessoal Amoo e o celular STEPX Neo. O ciclo fechado modelo-sistema-agente-hardware parecia desenhado. Dois meses depois, porém, a empresa ainda contrata gente para fazer o Agent OS — e é aí que reside o ponto central do caso Shi Kaiwen.
O impacto para o Brasil é indireto, mas relevante para quem opera na cadeia de eletrônicos e tecnologia. Fabricantes brasileiros de dispositivos — de POS de pagamento a eletrodomésticos conectados — observam com atenção o modelo chinês de IA embarcada, já que a StepFun fornece modelos para cerca de 60% das principais marcas de celulares chinesas, com mais de 42 milhões de unidades pré-instaladas até o fim de 2025. Empresas como Positivo, Multilaser e fabricantes do Polo de Manaus que licenciam sistemas operacionais chineses podem se beneficiar ou ser pressionadas por essa onda. Além disso, o mercado de software B2B brasileiro, representado por empresas como TOTVS e Sankhya, acompanha como startups chinesas empacotam agentes de IA em produtos utilizáveis — exatamente o que Shi Kaiwen fez no Feishu com a tabela multidimensional, que chegou a ultrapassar 10 milhões de usuários ativos mensais.
Os dados mostram que a StepFun montou uma equipe de hardware com mais de 500 pessoas, liderada por Ni Jiayue, ex-vice-presidente da Huawei Terminal China e ex-presidente da Honor China, e atraiu para seu capital investidores industriais como Huaqin, Longqi, OmniVision e ZTE, cobrindo ODM, componentes e cadeia de terminais. Na leitura do CBI, isso indica que o gargalo da StepFun não é capacidade industrial nem capital — é produto. A empresa fez apostas em aplicativos de consumo, como o Yuewen (depois renomeado StepFun AI) e o produto de role-playing Maopao Ya, mas recuou no investimento em larga escala no fim de 2024 e incorporou a equipe ao StepFun AI. Em junho de 2026, o StepFun AI ocupava a 33ª posição no ranking de apps domésticos de IA de terceiros, com cerca de 506 mil usuários ativos mensais — número modesto para uma empresa de modelos de base com o porte da StepFun. O contraste com o B2B é evidente: seus números mais robustos vêm de licenciamento de modelos para fabricantes de celulares, não de produto próprio.
A trajetória de Shi Kaiwen reforça essa leitura. Ele não é especialista em treinar grandes modelos nem em cadeia de suprimentos, mas passou anos empacotando tecnologias complexas — banco de dados, colaboração, permissões, fluxos de trabalho e IA — em produtos que usuários comuns conseguem adotar. O Feishu chegou a definir sua tabela multidimensional como "Work OS", e essa experiência é exatamente o que falta à StepFun para transformar seu Agent OS em algo que o consumidor final queira usar. Se a contratação se confirmar, será menos sobre "trazer alguém que entende de terminais" e mais sobre "trazer alguém que entende de produto" — uma distinção que fabricantes brasileiros que investem em IA embarcada deveriam internalizar.
O que acompanhar: primeiro, a confirmação oficial da contratação pela StepFun ou pelo próprio Shi Kaiwen, que pode sair a qualquer momento; segundo, o desempenho de vendas do STEPX Neo nos próximos trimestres, que indicará se a aposta em hardware próprio se sustenta; terceiro, o andamento do processo de listagem em Hong Kong, cujo prospecto pode revelar a real composição de receita da empresa — e o quanto ela depende de licenciamento B2B versus produto próprio. Para o mercado brasileiro de tecnologia, o caso serve como alerta: capacidade técnica e capital não substituem produto que o cliente queira comprar.
Nota sobre a fonte
A 36氪 tende a retratar movimentos de IA chinesa com otimismo institucional, minimizando incertezas sobre modelo de negócio e atrasos de produto; os números de licenciamento B2B ajudam a calibrar o hype.