Regulação Financeira

Presidente do ICBC alerta que yuan digital não substitui confiança institucional — bancos brasileiros com operações na China devem revisar compliance

· Redação CBI
Infraestrutura e construção

Liu Jun, presidente do ICBC, afirmou que a tecnologia por trás das moedas digitais reforça mas não substitui o crédito institucional, sinalizando que a expansão do e-CNY manterá exigências regulatórias rígidas para instituições estrangeiras, incluindo bancos brasileiros que operam ou pretendem

O presidente do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), Liu Jun, declarou em 21 de outubro que a tecnologia digital pode reforçar a confiança monetária, mas não substituí-la, durante o primeiro Encontro Anual do Renminbi Digital, no âmbito do Fórum Financeiro de 2026. Liu argumentou que a essência da moeda não está no algoritmo, mas em como o crédito é sustentado, honrado e como responsabilidades são implementadas. A fala ocorre em um momento de expansão global de stablecoins, criptoativos e moedas digitais de bancos centrais, e sinaliza que a China manterá uma abordagem institucional conservadora para o e-CNY, com implicações diretas para bancos e fintechs brasileiros que operam ou pretendem operar com o yuan digital em transações comerciais e de investimento. Liu Jun, presidente do ICBC — o maior banco comercial da China em ativos —, afirmou em 21 de outubro que a moeda digital está migrando de um objeto físico visível para dados invisíveis, e de uma liquidação em múltiplas etapas dependente de contas e intermediários para a conclusão simultânea de pagamento e liquidação. Segundo ele, reduzir custos de transação e ampliar o raio de transação é o que toda substituição de forma monetária faz. No entanto, Liu foi enfático: os atributos da moeda não mudaram. A moeda continua sendo um equivalente geral, com as funções básicas de meio de troca, reserva de valor e unidade de conta. Como meio de troca, precisa ser universalmente aceita e disponível a qualquer momento; como reserva de valor, seu poder de compra deve ser previsível; como unidade de conta, deve ser um padrão de valor unificado e estável para que preços, contratos e créditos possam ser comparados e mensurados. Liu também destacou que, do ponto de vista da conexão física, o que a moeda digital muda são os serviços e a entrega; o que não muda é a origem. A mensagem central é que a tecnologia digital, embora traga uma transmutação do mecanismo de confiança — com dados, algoritmos e programabilidade participando da geração e transmissão do crédito —, só pode reforçar a confiança institucional, não substituí-la. Por que isso chega ao Brasil: o e-CNY (yuan digital) é a principal infraestrutura de pagamento transfronteiriço que a China vem testando em acordos comerciais, incluindo com países do BRICS. Bancos brasileiros com operações na China — como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil, que mantêm escritórios ou parcerias para financiar comércio bilateral —, além de fintechs de câmbio e tesourarias de exportadores que liquidam em renminbi, precisam acompanhar como o ICBC e o Banco Popular da China (PBOC, banco central chinês) vão integrar o e-CNY às exigências de compliance, KYC e prevenção à lavagem de dinheiro. O Banco Central do Brasil (BCB) ainda não firmou acordo operacional para o e-CNY, mas o tema está na agenda de cooperação financeira dos BRICS. O impacto direto é indireto, via custo de liquidação e exigências de conformidade para instituições brasileiras que operam com contrapartes chinesas. Os dados mostram que a China é o maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo bilateral superior a USD 150 bilhões anuais, e que uma parcela crescente desse comércio já é liquidada em renminbi. Na leitura do CBI, a fala de Liu Jun indica que Pequim não pretende abrir atalhos regulatórios para o e-CNY: a moeda digital será tratada como extensão do sistema financeiro tradicional, com as mesmas exigências de crédito, responsabilidade e prestação de contas. Isso é relevante porque, em 2024 e 2025, o PBOC ampliou testes do e-CNY em pagamentos transfronteiriços com Hong Kong, Emirados Árabes e países do Sudeste Asiático, mas manteve controles rígidos sobre capital. Para o leitor brasileiro, a implicação é que a adoção do yuan digital em transações comerciais não eliminará a necessidade de intermediários financeiros nem reduzirá a complexidade de compliance — ao contrário, poderá adicionar camadas de verificação tecnológica. O que acompanhar: primeiro, a publicação de diretrizes do PBOC sobre interoperabilidade do e-CNY com sistemas de pagamento estrangeiros, prevista para o primeiro semestre de 2026; segundo, a posição do Banco Central do Brasil sobre acordos de liquidação em moedas digitais no âmbito dos BRICS, que deve ser discutida na próxima reunião técnica do bloco; terceiro, os comunicados do ICBC sobre parcerias com bancos brasileiros para corredores de pagamento em renminbi digital, que podem sinalizar o ritmo de adoção prática.

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