Macro & Mercados
Longsheng assume 100% da DyStar por US$ 702 mi — lição de governança para multinacionais brasileiras na China
· Redação CBI
Após quase uma década de litígio entre a chinesa Zhejiang Longsheng e a indiana Kiri Industries, a DyStar — grupo químico têxtil com operações globais — passa a ser 100% controlada pela chinesa por cerca de US$ 702 milhões, encerrando um dos casos mais emblemáticos de disputa societária em ativos
A Zhejiang Longsheng Group, gigante química chinesa listada em Xangai, concluiu em 30 de dezembro de 2025 a compra da totalidade da DyStar Global Holdings, sediada em Singapura, ao pagar aproximadamente US$ 702 milhões para encerrar uma disputa societária de cerca de dez anos com a indiana Kiri Industries. A operação envolveu o pagamento de US$ 427 milhões para recomprar 20% das ações detidas pela Kiri e outros US$ 276 milhões por 17,57% adicionais, transferindo o controle integral da DyStar — grupo químico transnacional com fábricas, marcas, propriedade intelectual e carteira de clientes globais — para três subsidiárias integrais da Longsheng. Para o empresário brasileiro que opera na cadeia têxtil e química com a China, o caso é um alerta: a internacionalização chinesa amadureceu, e a governança de ativos já adquiridos virou o novo campo de disputa.
A DyStar não é uma holding financeira vazia. Trata-se de um grupo químico transnacional com plantas produtivas em múltiplos países, portfólio de marcas reconhecidas no setor têxtil, propriedade intelectual relevante e uma rede de clientes que abastece indústrias de tingimento e acabamento em todo o mundo. A Zhejiang Longsheng, por sua vez, é uma das maiores químicas da China, com ações negociadas na Bolsa de Xangai (código 600352), e vinha tentando consolidar o controle sobre a DyStar desde meados da década passada, quando a parceria com a Kiri Industries azedou. O litígio, que se arrastou por tribunais em Singapura e na Índia, envolvia desde questionamentos sobre avaliação de ativos até acusações mútuas de má gestão e descumprimento de acordos societários. O desfecho de dezembro de 2025 — com a saída completa da Kiri mediante pagamento em dinheiro — encerra o capítulo jurídico, mas abre outro: o de como a Longsheng vai governar sozinha um ativo com operações em jurisdições tão distintas.
Por que isso chega ao Brasil? A DyStar fornece corantes, pigmentos e insumos químicos para a indústria têxtil global, e o Brasil é um dos maiores produtores têxteis do Ocidente, com polos relevantes em Santa Catarina, São Paulo e Ceará. Empresas brasileiras do setor de tinturaria e acabamento compram insumos da DyStar ou de seus concorrentes diretos, e qualquer mudança na estratégia comercial do grupo — seja aumento de preços, reestruturação de distribuidores ou redirecionamento de prioridades geográficas — pode repercutir na cadeia produtiva nacional. Além disso, o caso serve de espelho para multinacionais brasileiras que adquirem ativos na China ou em joint ventures com sócios chineses: a disputa Longsheng-Kiri mostra que o risco não está apenas no fechamento do negócio, mas na convivência societária de longo prazo sob sistemas jurídicos diferentes. O impacto direto para o Brasil é indireto, via cadeia de suprimentos químicos e via aprendizado de governança para empresas brasileiras com operações na Ásia.
Os dados mostram que a transação totalizou cerca de US$ 702 milhões, divididos em duas parcelas: US$ 427 milhões pagos pela própria DyStar para recomprar 20% detidos pela Kiri, e US$ 276 milhões desembolsados por outra subsidiária integral da Longsheng para adquirir os 17,57% restantes. Após a operação, a Longsheng detém indiretamente 100% do capital da DyStar por meio de três subsidiárias integrais. Na leitura do CBI, esse arranjo — usar a própria subsidiária para recomprar parte das ações e outra veículo para adquirir o restante — indica uma estrutura desenhada para otimizar tratamento fiscal e jurídico em Singapura, jurisdição escolhida justamente por sua previsibilidade contratual. O caso também reforça uma tendência observada desde 2023: empresas chinesas que compraram ativos no exterior na década passada estão agora enfrentando a fase difícil da integração, e muitas optam por comprar a participação de sócios minoritários para eliminar conflitos. Para o empresário brasileiro, a lição é clara: ao formar joint ventures com sócios chineses, é preciso desenhar desde o início mecanismos de saída, avaliação de ativos e foro de resolução de disputas — porque o litígio, quando chega, pode durar uma década e custar centenas de milhões de dólares.
O que acompanhar: primeiro, se a Longsheng promoverá mudanças na política comercial da DyStar para a América Latina, especialmente em preços e condições de distribuição para o mercado brasileiro. Segundo, se o desfecho do caso incentivará outras empresas chinesas a comprar participações minoritárias de sócios estrangeiros em joint ventures, o que pode abrir oportunidades de venda para empresas brasileiras que hoje são minoritárias em parcerias com chineses. Terceiro, se a Kiri Industries, agora com caixa de aproximadamente US$ 702 milhões, anunciará reinvestimentos em novos mercados — inclusive o brasileiro — no setor químico ou têxtil.
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