Macro & Mercados
Li Qiang pede cooperação em cadeias globais — fornecedores brasileiros de insumos veem janela na Feira de Cantão
· Redação CBI
Carne e proteínasSoja e oleaginosasMinério de ferro
O primeiro-ministro Li Qiang usou a abertura da Feira de Cantão para sinalizar que a China quer empresas estrangeiras produzindo localmente e integradas às cadeias industriais chinesas, o que abre espaço para exportadores brasileiros de insumos, alimentos e minerais estratégicos renegociarem
O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, reuniu-se nesta quarta-feira com cerca de 70 representantes de compradores e expositores estrangeiros em Guangzhou, na abertura da 136ª Feira de Cantão, e pediu que empresas chinesas e estrangeiras aprofundem a cooperação em cadeias industriais e de suprimentos. Li prometeu ampliar o acesso ao mercado chinês, reforçar a proteção à propriedade intelectual de estrangeiros e acelerar a construção de novas redes de energia, poder computacional e comunicação. Para o Brasil, o recado interessa diretamente a exportadores de minérios, proteína animal, celulose e insumos agrícolas que já vendem para a China e agora são convidados a ir além da venda spot — integrando-se a cadeias produtivas chinesas em setores como veículos elétricos, baterias e infraestrutura digital.
O primeiro-ministro Li Qiang participou nesta quarta-feira de um simpósio com representantes de compradores e expositores estrangeiros na Feira de Cantão, em Guangzhou, província de Guangdong. Cerca de 70 executivos de quase 30 países e regiões ouviram de Li que a China continuará a otimizar o ambiente de investimento para estrangeiros, ampliar o acesso ao mercado e apoiar empresas internacionais na produção local. A feira, que se estende de 15 de outubro a 4 de novembro, é a maior plataforma de comércio integrado do país e funciona como termômetro do comércio exterior chinês. Li também pediu que a feira amplie sua pegada digital, verde e humanística, sinalizando prioridades setoriais para os próximos ciclos de compras chinesas.
O impacto para o Brasil passa por três canais concretos. Primeiro, o agronegócio: soja, carne bovina, frango, milho e celulose respondem pela maior fatia da pauta exportadora brasileira para a China, e qualquer sinal de que Pequim quer fornecedores estrangeiros mais integrados à sua indústria — não apenas como vendedores de commodity — interessa a tradings como Amaggi, Cargill Brasil, Minerva, Marfrig e JBS, além de cooperativas do Paraná e Mato Grosso. Segundo, mineração e transição energética: o discurso de Li sobre novas redes de energia e poder computacional aponta para demanda crescente por cobre, lítio, nióbio e terras raras, áreas em que Vale, CBMM e projetos de lítio em Minas Gerais e no Vale do Jequitinhonha já negociam contratos de longo prazo com compradores chineses. Terceiro, o setor de bens de capital e autopeças: fabricantes como WEG, Randon e fornecedores da cadeia automotiva instalados no ABC paulista e em Camaçari podem se beneficiar se a China realmente abrir espaço para produção local de estrangeiros, mas também enfrentam risco de substituição por fornecedores chineses verticalizados.
Os dados mostram que a Feira de Cantão, em mais de 70 anos, se consolidou como principal porta de entrada de compradores globais na China e que o governo chinês vem prometendo, desde 2023, maior abertura para investimento estrangeiro — promessas que nem sempre se traduziram em mudanças regulatórias rápidas. Na leitura do CBI, o discurso de Li tem peso moderado: é sinal de que Pequim quer manter o fluxo de insumos e tecnologia estrangeiros em um momento de reestruturação das cadeias globais, mas não indica mudança imediata em tarifas, cotas ou exigências sanitárias que afetam diretamente o exportador brasileiro. A menção a 'cadeias abertas e inclusivas' é retórica recorrente e deve ser lida com cautela — o que importa é se virá acompanhada de medidas concretas de facilitação para produtos brasileiros, como acordos fitossanitários com o MAPA ou ampliação de cotas de importação.
Para o empresário brasileiro que decide na segunda-feira, três pontos merecem monitoramento. Primeiro, a agenda bilateral: verificar se o simpósio de Guangzhou gera desdobramentos em reuniões da COSBAN (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação) ou em visitas técnicas do MAPA e da ApexBrasil à China ainda em 2024. Segundo, a publicação de decretos ou catálogos do MOFCOM (comércio exterior chinês) e da NDRC (planejamento econômico) detalhando setores prioritários para investimento estrangeiro — especialmente energia, veículos elétricos e semicondutores, onde empresas brasileiras podem se posicionar como fornecedoras. Terceiro, o comportamento das tradings e dos frigoríficos brasileiros nas próximas semanas: se houver aumento de contratos de longo prazo com compradores chineses, é sinal de que o discurso de Li está se convertendo em demanda real; se ficar apenas no plano retórico, o exportador brasileiro deve manter estratégia de diversificação de mercados.
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