Macro & Mercados

Feira de Cantão 70 anos: China quer mercado aberto, mas exportadores brasileiros precisam monitorar concorrência em manufaturados

· Redação CBI
Eletrônicos e máquinasMinério de ferro

A 140ª Feira de Cantão abriu com 32 mil expositores e apelo do premiê Li Qiang por economia global aberta. Para o Brasil, o evento sinaliza pressão competitiva em manufaturados e oportunidades em agronegócio e minérios, enquanto a China se consolida como 'supercompradora' de commodities.

O premiê chinês Li Qiang abriu nesta quarta-feira a 140ª Feira de Importação e Exportação da China, a Feira de Cantão, em Guangzhou, pedindo maior conectividade de mercado e uma economia mundial aberta. Com 32 mil expositores e quase 200 países representados entre compradores pré-registrados, o evento celebra 70 anos e US$ 1,6 trilhão em negócios acumulados. Para o empresário brasileiro, o recado é duplo: a China quer vender mais manufaturados de alto valor — de robôs de serviço a eletrônicos com IA — e comprar mais commodities e alimentos, mas exige contrapartidas de abertura e enfrenta crescente competição em setores que o Brasil tenta industrializar. A Feira de Cantão, realizada duas vezes por ano em Guangzhou desde 1957, chega à 140ª edição com números recordes: 32 mil expositores, sendo 64% usando tecnologias como internet industrial e inteligência artificial, e 26% dos produtos expostos classificados como verdes — o maior percentual da história. A primeira fase, dedicada a 'Manufatura Avançada', reúne mais de 25 mil estandes e 12 mil expositores, com foco em eletrônicos, eletrodomésticos, automação industrial, novas energias, manufatura inteligente e inteligência incorporada. São 17 zonas dedicadas a indústrias emergentes, incluindo robôs de serviço, drones e tecnologias de display. Quase 200 países e regiões estão representados entre os compradores pré-registrados, com compradores profissionais representando quase 80% do total. Empresas de países parceiros da Belt and Road mostram forte interesse, e 266 grandes redes de compras e 141 parceiros globais participam em delegações. Para o Brasil, o evento chega em um momento de balança comercial recorde com a China, mas de composição assimétrica: o país exporta principalmente soja, minério de ferro, petróleo e carne, e importa manufaturados de médio e alto valor. A oferta chinesa de bens com IA, robótica e energia verde pressiona setores brasileiros que tentam se desenvolver, como a indústria de eletrodomésticos, automação e veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a China se posiciona como 'supercompradora' — é o segundo maior importador mundial por 17 anos consecutivos, com importações superiores a 18 trilhões de yuans (cerca de US$ 2,69 trilhões) no ano passado e crescimento de 22,3% nos primeiros três trimestres deste ano. Isso abre espaço para exportadores brasileiros de alimentos, celulose, minérios e produtos agrícolas, mas também para concorrentes de outros países do Sul Global que buscam o mesmo mercado. Os dados mostram que a China tem 50 mil empresas estrangeiras estabelecidas com investimentos chineses, 90% em países do Sul Global, e estoque de investimento no exterior de US$ 3,4 trilhões. Na leitura do CBI, isso indica que a China está exportando capital produtivo para cadeias que competem diretamente com a indústria brasileira em terceiros mercados, especialmente na América Latina e África. A ênfase em 'conectividade de mercado' e 'economia mundial aberta' sinaliza que Pequim quer evitar barreiras comerciais e garantir acesso a insumos e alimentos, mas também cobra abertura de mercados para seus manufaturados. Para o Brasil, isso significa que negociações comerciais futuras — como as tratativas Mercosul-China — devem incluir demandas chinesas por redução de tarifas em setores industriais, não apenas agrícolas. A Feira de Cantão também serve como termômetro para o comércio bilateral no curto prazo. A presença de 266 grandes redes de compras e 141 parceiros globais indica que a China está disposta a fechar contratos de importação, especialmente de commodities e alimentos. Empresas brasileiras de carne, soja e mineração costumam participar ativamente do evento, e a expectativa é de renovação de contratos e novos pedidos. No entanto, a crescente participação de países como Indonésia, Paquistão e nações africanas na feira — tanto como expositores quanto como compradores — mostra que a concorrência por espaço no mercado chinês se intensifica. O que acompanhar: primeiro, a evolução das negociações entre empresas brasileiras e compradores chineses durante a feira, especialmente em carne bovina e de aves, soja e minério de ferro. Segundo, anúncios de investimentos chineses em manufatura no Brasil ou em países vizinhos que possam afetar cadeias produtivas regionais. Terceiro, a reação do governo brasileiro — via MDIC e Camex — a eventuais demandas chinesas por abertura de mercado em setores industriais, que podem surgir em negociações pós-feira.

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