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Estúdios chineses correm para digitalizar produção — fornecedores brasileiros de tecnologia e pós-produção ficam de fora
· Redação CBI
Hengdian, maior polo de estúdios da China, lidera corrida de digitalização com IA e virtual production, mas o modelo gera controvérsia por concentrar investimento em poucos players; para o Brasil, a janela de fornecer software, LED e serviços de pós-produção para essa cadeia está se fechando
Os grandes estúdios de cinema chineses estão migrando em massa para produção digital e virtual production, e Hengdian — o maior complexo de estúdios do país, no Zhejiang — é o epicentro mais controverso dessa transformação. O polo concentra investimentos em painéis LED, inteligência artificial e infraestrutura de captura em tempo real, mas o modelo levanta questionamentos sobre concentração de recursos e retorno efetivo. Para o Brasil, a conexão é indireta, mas real: fornecedores de software de pós-produção, equipamentos de LED e serviços de animação que poderiam atender essa cadeia enfrentam barreiras crescentes de entrada, enquanto produtoras brasileiras que coproduzem com a China precisam se adaptar a padrões técnicos que mudam a cada semestre.
Os estúdios de cinema chineses estão em plena transição para produção digital, e Hengdian — o maior polo de estúdios da China, localizado na província de Zhejiang — se tornou o caso mais controverso dessa corrida. O complexo, que reúne centenas de sets e empresas de produção, tem investido pesadamente em virtual production, painéis LED de grande formato e ferramentas de inteligência artificial aplicadas a roteiro, pré-visualização e pós-produção. O movimento acompanha uma tendência nacional: estúdios em Pequim, Xangai e Chengdu também digitalizam etapas de produção, mas Hengdian concentra a maior parte dos investimentos e das críticas. A controvérsia vem do modelo de governança do polo: os recursos são canalizados por meio de um consórcio de empresas estatais e privadas que define padrões técnicos e prioriza projetos internos, o que, segundo críticos no setor, dificulta a entrada de fornecedores independentes e de produtoras menores.
Por que isso chega ao Brasil: o comércio bilateral de serviços audiovisuais e equipamentos de produção ainda é pequeno, mas cresce. Produtoras brasileiras que fazem coprodução com estúdios chineses — especialmente em animação e efeitos visuais — precisam se adequar a padrões técnicos definidos em Hengdian, que mudam com frequência e nem sempre são divulgados a tempo. Fornecedores brasileiros de software de pós-produção e de equipamentos de LED têm pouca presença na cadeia chinesa, dominada por fabricantes locais e por empresas europeias com acordos de licenciamento. O impacto direto é indireto, via padronização técnica e via competição por talentos: animadores e técnicos brasileiros que trabalham para clientes chineses relatam pressão para dominar ferramentas proprietárias desenvolvidas no polo. Reguladores brasileiros, como a ANCINE, não têm jurisdição sobre o tema, mas acordos de coprodução firmados nos últimos anos podem ser afetados se os padrões técnicos chineses se tornarem obrigatórios em projetos conjuntos.
Os dados mostram que a digitalização avança em ritmo acelerado: o número de sets com virtual production na China mais que dobrou nos últimos dois anos, e Hengdian responde por parcela significativa dessa expansão. Na leitura do CBI, isso indica que a China está consolidando um padrão técnico próprio para produção audiovisual, com potencial de se tornar referência para mercados emergentes — o que reduz a janela para fornecedores brasileiros entrarem nessa cadeia. A comparação com eventos anteriores é útil: em 2021, quando o país lançou seu plano de digitalização de estúdios, havia expectativa de abertura para cooperação internacional; hoje, o modelo privilegia soluções domésticas e parcerias com empresas europeias, deixando fornecedores latino-americanos em segundo plano.
O que acompanhar: primeiro, a divulgação, prevista para o segundo semestre, do novo caderno de padrões técnicos do polo de Hengdian, que deve definir requisitos para fornecedores externos. Segundo, a evolução das negociações de coprodução entre Brasil e China no âmbito do acordo bilateral de audiovisual, cuja próxima rodada está prevista para o fim do ano. Terceiro, o desempenho das exportações brasileiras de software e serviços de animação para a China, que hoje são marginais, mas podem crescer se houver abertura para padrões internacionais.
Nota sobre a fonte
A mídia chinesa reconhece a controvérsia sobre o modelo fechado de Hengdian, mas ainda enquadra a digitalização como corrida estratégica nacional, o que pode suavizar o risco de barreiras a fornecedores externos.
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