Tecnologia
Estatal chinesa absorve pedido de R$ 5,8 bi em armazenamento — fornecedores brasileiros de lítio e integradores ficam de fora
· Redação CBI
Veículos elétricos e baterias
A State Power Investment Corporation (SPIC) fechou dois acordos internos de 5,79 bilhões de yuans para sistemas e células de armazenamento de energia, sinalizando que estatais chinesas estão verticalizando compras para fugir da guerra de preços — o que reduz espaço para fornecedores externos
A estatal chinesa State Power Investment Corporation (SPIC) concretizou em 16 de outubro dois acordos encadeados dentro do próprio grupo: a China Power, listada controlada pela SPIC, assinou contrato-quadro de serviços de sistemas de armazenamento de energia com a controladora, enquanto sua subsidiária Xinyuan Zhichu fechou acordo de aquisição de células com a Guoning Technology, joint venture da SPIC com a CATL. O valor total chega a 5,792 bilhões de yuans (cerca de USD 800 milhões) até o fim de 2028. Para o Brasil, o movimento importa porque sinaliza que a maior demanda chinesa por armazenamento está sendo capturada internamente por estatais, reduzindo a janela para exportadores brasileiros de lítio, grafita e integradores que tentam vender para o mercado chinês.
A State Power Investment Corporation (SPIC), uma das cinco maiores geradoras estatais da China, assinou em 16 de outubro dois acordos com partes relacionadas que, na prática, colocam comprador, vendedor e canal de fornecimento de células dentro do mesmo grupo empresarial. A China Power, subsidiária listada da SPIC, firmou com a controladora um acordo-quadro de serviços de sistemas de armazenamento de energia. No mesmo dia, a Xinyuan Zhichu, plataforma subsidiária da China Power, assinou acordo-quadro de aquisição de células com a Guoning Technology, joint venture formada pela SPIC e pela CATL, maior fabricante mundial de baterias. Os dois contratos valem até o fim de 2028, com limite combinado de 5,792 bilhões de yuans, equivalente a cerca de USD 800 milhões. Superficialmente, são transações com partes relacionadas comuns em estatais chinesas. A estrutura, porém, revela uma resposta coordenada à queda dos preços de sistemas de armazenamento, que recuaram 80% em três anos. Em setembro, o preço médio de adjudicação de sistemas de duas horas ficou em 0,653 yuan/Wh, queda de 4,1% mês a mês, segundo a Aliança de Tecnologia da Indústria de Armazenamento de Energia de Zhongguancun. Para sistemas de quatro horas, o valor caiu a 0,529 yuan/Wh, recuo de 7,4%. Na compra centralizada da China National Nuclear Corporation para 2026-2028, houve propostas abaixo de 0,5 yuan/Wh — patamar em que células, BMS, PCS, controle térmico, combate a incêndio e gabinete precisam estar incluídos. Cerca de um terço dos integradores licita abaixo do custo, e a margem bruta global das empresas chinesas de armazenamento caiu de 25% em 2023 para menos de 5% em 2025. Em 15 de outubro, o vice-ministro da Indústria e Tecnologia da Informação, Xiong Jijun, declarou que a indústria entrou em nova fase e que é preciso prevenir resolutamente a competição involutiva.
O impacto para o Brasil é indireto, mas relevante para quem opera na cadeia de minerais críticos e de integração de sistemas. O país é fornecedor relevante de lítio, grafita e níquel para baterias, e empresas brasileiras de integração de sistemas de armazenamento vinham tentando se posicionar como fornecedoras ou parceiras de projetos chineses. Quando uma estatal do porte da SPIC internaliza a compra de células e de serviços, o espaço para fornecedores externos — inclusive brasileiros — encolhe naquele lote específico. O movimento também sinaliza que a demanda chinesa por armazenamento, embora crescente em volume (50,7 GWh adjudicados em EPC em setembro, alta de 18,9% mês a mês), está sendo capturada por estruturas verticalizadas, o que pode pressionar exportadores brasileiros de lítio e grafita a renegociar contratos com tradings e joint ventures, em vez de vender diretamente a estatais. Reguladores brasileiros como a ANEEL, que conduz leilões de armazenamento no Brasil, e o BNDES, que financia projetos de baterias, devem acompanhar se o modelo chinês de absorção interna se replica em outros grupos estatais e reduz a disponibilidade de equipamentos chineses no mercado internacional — ou, ao contrário, se a sobrecapacidade chinesa empurra excedente para exportação a preços ainda mais baixos, o que beneficiaria integradores brasileiros na compra de células.
Os dados mostram que a guerra de preços no armazenamento chinês é estrutural: a margem bruta caiu de 25% para menos de 5% em dois anos, e quase um terço dos integradores licita abaixo do custo. Na leitura do CBI, o acordo da SPIC não é um caso isolado, mas um protótipo: estatais chinesas estão usando o próprio balanço para absorver a cadeia e proteger margens, o que tende a se espalhar para outras geradoras estatais nos próximos trimestres. Para o Brasil, isso cria dois cenários simultâneos: menos acesso direto a compradores estatais chineses para minerais e sistemas, mas maior disponibilidade de células e equipamentos chineses no mercado global a preços deprimidos, o que pode baratear projetos de armazenamento no Brasil — desde que a ANEEL e o BNDES calibrem leilões e financiamentos para capturar essa janela. A comparação com o setor solar chinês é inevitável: lá, a verticalização estatal também precedeu uma onda de exportação de excedentes a preços agressivos, que beneficiou importadores brasileiros, mas estrangulou produtores locais.
O que acompanhar: primeiro, se outras estatais chinesas (China Huaneng, China Datang, China Huadian) anunciarem acordos internos semelhantes até o fim de 2025, o que confirmaria a tendência de verticalização. Segundo, a publicação de editais da ANEEL para leilões de armazenamento em 2026, que definirão se o Brasil conseguirá atrair fornecedores chineses com excedente ou se ficará dependente de estruturas de joint venture. Terceiro, os preços de células de lítio no mercado spot chinês (índice da plataforma SMM) nos próximos dois trimestres, que indicarão se a absorção interna da SPIC reduz a oferta exportável ou se o excedente continua fluindo para o mercado global.
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