Macro & Mercados

China zera tarifas para 20 países africanos — exportadores brasileiros perdem competitividade em commodities

· Redação CBI
Minério de ferro

A partir de 1º de maio de 2026, a China elimina tarifas de importação para 20 países africanos não-PMD, abrindo vantagem competitiva em produtos agrícolas e minerais que competem diretamente com a pauta exportadora brasileira.

A Comissão de Tarifas Aduaneiras do Conselho de Estado chinês anunciou que, de 1º de maio de 2026 a 30 de abril de 2028, 20 países africanos que mantêm relações diplomáticas com Pequim e não são classificados como Países Menos Desenvolvidos (PMD) terão tarifa zero para exportações à China. A medida, publicada em 28 de abril, abrange a lista completa de produtos por item tarifário em anexo. Para o Brasil, o movimento acende alerta: vários desses países competem diretamente com a pauta brasileira de commodities — soja, minério de ferro, café, algodão e cacau — e passam a operar com custo de entrada zero no mercado chinês, enquanto exportadores brasileiros seguem pagando tarifas que variam de 3% a 15% dependendo do produto. A decisão foi formalizada pelo Aviso nº 5 de 2026 da Comissão de Tarifas Aduaneiras do Conselho de Estado, com base na Lei de Tarifas Aduaneiras da República Popular da China. O texto estabelece que a isenção vale por dois anos, de 1º de maio de 2026 a 30 de abril de 2028, e cobre 20 países africanos que mantêm relações diplomáticas com Pequim e que não se enquadram na categoria de Países Menos Desenvolvidos — ou seja, economias com capacidade produtiva e logística já estabelecidas, como África do Sul, Egito, Nigéria, Quênia, Gana e Marrocos, entre outros. A lista completa de países e a tabela de tarifas por item tarifário constam dos anexos do aviso, que não foram detalhados no comunicado principal. O impacto chega ao Brasil por via indireta, mas concreta: os 20 países contemplados incluem produtores de commodities que concorrem diretamente com a pauta exportadora brasileira para a China. A África do Sul, por exemplo, é fornecedora relevante de minério de ferro e carvão; Gana e Costa do Marfim produzem cacau; o Egito exporta algodão e frutas cítricas; o Quênia fornece chá e café. Com tarifa zero, esses países passam a ter vantagem de preço sobre o Brasil no mercado chinês. O setor exportador brasileiro — especialmente soja, minério de ferro, café, algodão e cacau — precisa monitorar a evolução das importações chinesas desses fornecedores africanos. Do lado regulatório brasileiro, a CAMEX (Câmara de Comércio Exterior) e o Ministério da Agricultura (MAPA) podem ser chamados a avaliar medidas compensatórias ou a reforçar negociações bilaterais com Pequim para equalizar condições de acesso. Os dados mostram que a China é o maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo bilateral superior a USD 150 bilhões anuais, e que commodities representam mais de 80% das exportações brasileiras para o mercado chinês. Na leitura do CBI, a medida não é um ataque direto ao Brasil, mas sim parte da estratégia chinesa de diversificação de fornecedores e aprofundamento de laços com o Sul Global. Pequim já havia zerado tarifas para PMDs africanos em 2023 e agora amplia o benefício para economias intermediárias do continente. O movimento sinaliza que a China está disposta a usar sua política tarifária como instrumento geopolítico, e o Brasil — que já enfrenta concorrência crescente de fornecedores africanos em soja e minério — precisa reagir com diplomacia comercial e, possivelmente, buscar acordos de acesso preferencial que ainda não existem. O que acompanhar: primeiro, a publicação dos anexos com a lista completa dos 20 países e os itens tarifários específicos, que deve ocorrer nos próximos dias e revelará se produtos como soja, minério de ferro e café estão incluídos. Segundo, a reação da CAMEX e do Itamaraty, que podem sinalizar abertura de negociações com Pequim para revisão de tarifas sobre produtos brasileiros. Terceiro, os dados de importação chinesa de commodities africanas nos meses de maio a julho de 2026, que indicarão se há desvio de comércio em curso e qual o impacto real sobre os preços recebidos pelos exportadores brasileiros.

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