BRICS em Nova Délhi: Xi Jinping pressiona por desdolarização — exportadores brasileiros redesenham hedge cambial
· Clara Lin
Soja e oleaginosasVeículos elétricos e bateriasInfraestrutura e construção
Xi Jinping participou da 18ª Cúpula do BRICS em Nova Délhi e defendeu maior uso de moedas locais no comércio entre os membros, sinalizando avanço na agenda de desdolarização que afeta diretamente a formação de preços e o hedge cambial de exportadores brasileiros de soja, minério e carne.
Por que isso importa
Discurso de Xi Jinping no BRICS em 12/09 sinaliza ampliação da liquidação em yuan para compras chinesas de soja, minério de ferro e carne. Esses setores concentram mais de 30% das exportações brasileiras e superávit de USD 50 bi com a China em 2023. COFCO e Vale já testam contratos em RMB, mas BCB e Receita Federal ainda não ampliaram swap/declaração, deixando risco cambial para tradings e cooperativas como Coamo.
O que fazer
Acesse o ComexStat para monitorar volumes de soja, minério e carne exportados à China e isolar contratos com cláusula em RMB; Consulte o Banco Central sobre limites do swap em yuan e regras de declaração cambial; Peça ao seu despachante aduaneiro, junto à Receita Federal, orientação sobre faturamento em RMB e NCM em contratos de longo prazo.
Janela de tempo
Comunicado final da cúpula previsto para 13 de setembro; contratos da safra 2024/25 podem sinalizar volume relevante no 2º semestre.
O presidente chinês Xi Jinping participou nesta quinta-feira (12), em Nova Délhi, da primeira sessão da 18ª Reunião de Líderes do BRICS, onde defendeu publicamente a ampliação do uso de moedas locais nas transações comerciais entre os países do bloco. Para o empresário brasileiro que exporta para a China — principal destino de soja, minério de ferro, carne bovina e celulose —, o discurso não é retórica diplomática: sinaliza a aceleração de um mecanismo de liquidação em yuan que já opera em escala piloto e que pode alterar a forma como contratos, câmbio e risco de crédito são estruturados nos próximos ciclos de safra.
Xi Jinping discursou na tarde de 12 de setembro, horário local, durante a primeira fase da 18ª Reunião de Líderes do BRICS, realizada em Nova Délhi. Segundo a agência Xinhua, o presidente chinês defendeu a ampliação do uso de moedas locais nas transações comerciais entre os membros do bloco, além de reforçar a cooperação em infraestrutura, cadeias de suprimento e governança global. A cúpula reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com a participação ampliada de países convidados.
O impacto para o Brasil não é abstrato. A China absorve mais de 30% das exportações brasileiras, com destaque para soja em grão, minério de ferro, petróleo, carne bovina e celulose. Qualquer movimento coordenado do BRICS em direção à liquidação em moedas locais toca diretamente o mecanismo de formação de preço e de hedge cambial usado por tradings como Cargill, Bunge, ADM e por cooperativas como Coamo e Lar. O Banco Central do Brasil já mantém linhas de swap em yuan com o PBoC desde 2013, mas o volume efetivamente liquidado em RMB ainda é marginal frente ao dólar. Um avanço na agenda do BRICS pressionaria o BCB a ampliar essas linhas e a Receita Federal a revisar procedimentos de declaração de operações em moeda chinesa.
Os dados mostram que o comércio Brasil-China ultrapassou USD 150 bilhões em 2023, com superávit brasileiro superior a USD 50 bilhões. Na leitura do CBI, o discurso de Xi em Nova Délhi não cria obrigação imediata, mas sinaliza direção política: a China quer reduzir exposição ao dólar em suas compras de commodities e usar o yuan como moeda de faturamento. Isso já ocorre de forma pontual em contratos de soja com a COFCO e em operações de minério com a Vale, mas ainda depende de conversibilidade e de linhas de crédito em RMB. Se a cúpula produzir um mecanismo multilateral de compensação — algo que vem sendo discutido desde 2023 —, o custo de transação em dólar para exportadores brasileiros pode cair, mas o risco cambial migra para o yuan, exigindo novas estruturas de hedge que poucas empresas médias brasileiras dominam.
Vale comparar com a cúpula de Joanesburgo, em 2023, quando o tema da desdolarização ganhou força retórica mas não produziu mecanismo operacional. Desta vez, a Índia como anfitriã tem interesse próprio em reduzir dependência do dólar para compras de petróleo russo, o que pode destravar acordos bilaterais de liquidação. Para o exportador brasileiro, o sinal prático é que contratos de longo prazo com compradores chineses podem passar a incluir cláusulas de opção de moeda, algo que já aparece em minutas de tradings asiáticas.
O que acompanhar: primeiro, o comunicado final da cúpula, previsto para 13 de setembro, para ver se há menção a um mecanismo de pagamento multilateral ou apenas a linguagem genérica de cooperação monetária. Segundo, a posição do Banco Central do Brasil sobre ampliação do swap em yuan e eventual revisão de regras de declaração cambial. Terceiro, movimentos da COFCO e de tradings chinesas em contratos de soja da safra 2024/25 que testem liquidação em RMB — se houver volume relevante, o mercado de câmbio brasileiro sente no segundo semestre.
Nota sobre a fonte
Fonte chinesa tende a enquadrar a desdolarização como cooperação benéfica, minimizando custos de transição e riscos cambiais para exportadores brasileiros.