Macro & Mercados
Advogados chineses adotam IA em massa — escritórios brasileiros que atuam com China ficam para trás
· Clara Lin
Veículos elétricos e baterias
Pesquisa da LexisNexis mostra que 99% dos profissionais do direito na China continental já usam IA no trabalho, com 45% recorrendo apenas a ferramentas genéricas. Para escritórios e departamentos jurídicos brasileiros que assessoram operações com a China, a defasagem tecnológica vira risco compet...
Praticamente todos os profissionais do direito da China continental usam inteligência artificial no trabalho, segundo pesquisa da LexisNexis divulgada em 10 de setembro. Dos 411 entrevistados, 406 afirmaram recorrer a ferramentas de IA — 45% usam apenas IA de uso geral, 48% combinam IA genérica e jurídica especializada, e 6% usam exclusivamente IA jurídica. A taxa saltou de 66% em 2024 para 88% em 2025 e atingiu 99% em 2026. Para escritórios brasileiros que assessoram contratos, arbitragens e operações regulatórias com contrapartes chinesas, a adoção quase total do outro lado da mesa muda a assimetria de informação e velocidade de resposta.
A LexisNexis, empresa de banco de dados jurídicos, divulgou em 10 de setembro um relatório baseado em entrevistas com 411 profissionais do direito da China continental. O dado central: 99% dos entrevistados usam ferramentas de IA de uso geral ou de IA jurídica especializada no trabalho. Apenas 45% recorrem exclusivamente a IA genérica, enquanto 48% combinam IA de uso geral com IA jurídica especializada e 6% usam somente ferramentas jurídicas dedicadas. A pesquisa anual da empresa mostra uma escalada rápida: em 2024, 66% dos profissionais usavam IA; em 2025, o índice subiu para 88% — alta de 20 pontos percentuais em um ano —, com advogados e estagiários atingindo 93% e profissionais de departamentos jurídicos corporativos, conformidade e gestão de riscos chegando a 86%. Em 2026, a tecnologia se tornou praticamente universal entre juristas chineses.
O impacto para o Brasil é indireto, mas relevante para quem opera na cadeia jurídica Brasil-China. Escritórios brasileiros que assessoram contratos de importação e exportação, joint ventures, arbitragens na CIETAC (Comissão de Arbitragem Econômica e Comercial Internacional da China) ou processos regulatórios com contrapartes chinesas passam a competir com uma contraparte que produz minutas, revisa cláusulas e analisa jurisprudência em velocidade muito superior. Departamentos jurídicos de empresas brasileiras com operações na China — nos setores de mineração, agronegócio, energia e manufatura — enfrentam a mesma pressão. O regulador brasileiro que sente o efeito é indireto: a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ainda não regulamentou o uso de IA na advocacia, enquanto a contraparte chinesa já opera em escala.
Os dados mostram que a adoção chinesa de IA jurídica é massiva e crescente, com quase metade dos usuários combinando ferramentas genéricas e especializadas. Na leitura do CBI, isso indica que a assimetria tecnológica entre escritórios brasileiros e chineses tende a se ampliar nos próximos 12 a 18 meses, especialmente em due diligence, contratos bilíngues e análise de risco regulatório. A comparação com 2024 e 2025 mostra que a curva de adoção chinesa não desacelerou — pelo contrário, acelerou. Para o leitor brasileiro, o risco não é imediato, mas é estrutural: quem não incorporar IA jurídica perde competitividade em custo e prazo nas operações com a China.
O que acompanhar: primeiro, se a OAB ou o Conselho Federal publicam até o fim de 2026 alguma diretriz sobre uso de IA na advocacia, o que pode criar um marco regulatório local. Segundo, se escritórios brasileiros com prática China anunciam parcerias com fornecedores de IA jurídica ou treinamentos internos — movimento que sinalizaria reação à defasagem. Terceiro, a evolução da taxa de adoção chinesa na próxima pesquisa da LexisNexis, prevista para 2027, que indicará se o patamar de 99% se mantém ou se a diferenciação migra para a qualidade do uso.
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