Fotovoltaicas chinesas reduzem perdas, mas excesso de oferta mantém módulos baratos — janela de oportunidade e risco para importadores brasileiros
As principais fabricantes chinesas de módulos fotovoltaicos reduziram perdas no terceiro trimestre de 2026 — JinkoSolar cortou o prejuízo em cerca de 71,3% e Aiko Solar voltou ao lucro —, mas o excesso de oferta estrutural persiste e segue pressionando para baixo os preços FOB que abastecem o mercado brasileiro de geração distribuída e projetos centralizados. Para importadores e integradores, a janela de custos favoráveis deve se estender por mais alguns trimestres, mas exige proteção contra volatilidade cambial e risco regulatório. Recomenda-se travar contratos de médio prazo, diversificar fornecedores e monitorar de perto eventual investigação antidumping.
Até 31 de outubro de 2026, as principais fabricantes chinesas de equipamentos fotovoltaicos haviam divulgado seus balanços do terceiro trimestre, e o quadro é de estabilização desigual. A TCL Zhonghuan (002129.SZ) registrou prejuízo de 1,352 bilhão de yuans no trimestre, redução de 11,86% ante igual período de 2025. A JinkoSolar (688223.SH) teve perda líquida de 290 milhões de yuans, queda de aproximadamente 71,3% na comparação anual. A Aiko Solar (600732.SH) reverteu o resultado negativo e lucrou 45 milhões de yuans, contra prejuízo de 295 milhões de yuans um ano antes. A LONGi Green Energy (601012.SH) apresentou perda de 1,029 bilhão de yuans, 41,66% menor do que no segundo trimestre, com fluxo de caixa operacional trimestral positivo, embora o prejuízo tenha crescido cerca de 23,4% na comparação anual. O setor completa quase três anos em ciclo de baixa, e o desequilíbrio entre oferta e demanda continua dominante: as reduções de perdas refletem cortes de custo, ajuste de mix de produtos e contribuição de negócios de armazenamento, mas as empresas de silício e polissilício a montante ainda acumulam prejuízos crescentes. Em outras palavras, o pior da crise de margens pode ter passado para algumas líderes de módulos, mas não para toda a cadeia.
Para o Brasil, o canal de transmissão é direto e mensurável. O país é um dos maiores mercados de geração distribuída solar do mundo, e toda a cadeia de importação — distribuidores, integradores, engenharia de projetos e o consumidor final residencial e comercial — depende do preço FOB chinês cotado em yuans e dólares. Enquanto o excesso de oferta global persistir, a tendência é de módulos internacionalmente baratos, o que favorece a margem de distribuidores e integradores brasileiros, mas comprime a competitividade da produção local e pressiona a decisão de compra em projetos centralizados, que dependem de leilões e de financiamento do BNDES. A ANEEL e o Ministério de Minas e Energia acompanham o efeito sobre a curva de preços da energia e sobre a viabilidade de novos projetos, enquanto a Receita Federal monitora classificação fiscal e regras de ex-tarifário que incidem sobre equipamentos fotovoltaicos importados. A solar é hoje uma das linhas de importação chinesa que mais crescem no Brasil, ao lado de veículos elétricos, eletrônicos e componentes de infraestrutura, dentro de uma pauta dominada por soja, minério de ferro, carne e petróleo no sentido inverso. O que está em jogo para os importadores não é apenas o preço do módulo, mas a previsibilidade de uma cadeia inteira que sustenta empregos na integração, no projeto e na instalação.
Os dados indicam que a redução de perdas é real e mensurável, especialmente em JinkoSolar e Aiko Solar, e que cortes de capex e desaceleração de expansão de capacidade começam a aparecer nos resultados. Mas os dados também mostram que o desequilíbrio entre oferta e demanda segue estrutural, resultado de anos de expansão acelerada de capacidade na China, e que o ajuste de oferta ainda não se completou. Na avaliação do CBI, a comparação com o ciclo de 2012-2013 é instrutiva: naquele episódio, a consolidação do setor levou de 18 a 24 meses após o primeiro sinal de redução de perdas para que a oferta efetivamente se ajustasse. Se o padrão se repetir, a janela de preços favoráveis para o comprador brasileiro deve se estender por mais alguns trimestres, mas com dois riscos embutidos. O primeiro é a volatilidade cambial: uma apreciação do yuan ou do dólar frente ao real pode anular parte do ganho de preço FOB. O segundo é regulatório: eventuais medidas antidumping ou de salvaguarda, no Brasil ou em outros mercados, podem alterar abruptamente o custo de importação. Vale distinguir com clareza: é fato que os balanços do terceiro trimestre mostram perdas menores; é avaliação do CBI que isso não sinaliza o fim do ciclo nem garante estabilidade de preços no médio prazo. O excesso de oferta estrutural deve manter os módulos baratos por mais alguns trimestres, mesmo que as empresas individuais melhorem margens via corte de custos. A consolidação, quando vier, deve reduzir o número de fornecedores relevantes e concentrar poder de barganha nas mãos de poucas líderes chinesas — o que, no médio prazo, pode reverter parte do benefício de preço hoje observado.
Quem deve prestar atenção: primeiro, importadores e distribuidores de módulos fotovoltaicos que compram FOB de JinkoSolar, LONGi, Trina, JA Solar e TCL Zhonghuan — precisam decidir se travam contratos de médio prazo agora ou se especulam com a queda adicional de preços, considerando o risco de reversão cambial. Segundo, integradores e EPCistas de geração distribuída residencial e comercial, que formam preço ao consumidor final e têm na queda do módulo uma margem temporária que pode se comprimir quando a oferta se ajustar. Terceiro, desenvolvedores de projetos centralizados que dependem de leilões A-4 e A-6 e de financiamento do BNDES — para eles, o preço baixo do módulo melhora o retorno, mas a incerteza regulatória e a eventual antidumping são riscos de custo. Quarto, fabricantes locais de módulos e montadoras, incluindo operações na Zona Franca de Manaus e novos entrantes, que sofrem com a concorrência de preço chinês e precisam de política industrial ou nichos de diferenciação para sobreviver. Quinto, equipes de comércio exterior e compliance fiscal de tradings e importadores, responsáveis por classificação NCM, ex-tarifário e eventuais investigações de defesa comercial, que precisam antecipar mudanças regulatórias antes que elas afetem o custo de importação.
Nos próximos meses, cinco pontos merecem monitoramento. O primeiro é a divulgação dos balanços anuais de 2026, em março de 2027, para confirmar se a redução de perdas se sustenta em todas as líderes e se as empresas de polissilício a montante começam a estabilizar. O segundo são as decisões do órgão antitruste chinês (SAMR) e do MOFCOM sobre consolidação e cortes de capacidade, que podem acelerar o ajuste de oferta e, no limite, encurtar a janela de preços baixos. O terceiro é a política chinesa de rebate de exportação de módulos e eventuais ajustes de alíquota de IVA sobre exportações, que alteram diretamente o preço FOB. O quarto são os movimentos regulatórios brasileiros: revisão de regras da geração distribuída pela ANEEL, atualização da lista de ex-tarifário pela Camex e pela Receita Federal e eventual abertura de investigação antidumping contra módulos chineses. O quinto é o preço do polissilício e a taxa de câmbio BRL/CNY, indicadores antecedentes que sinalizam, respectivamente, o ritmo do ajuste de oferta e o custo efetivo da importação para o comprador brasileiro.
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