Eleição no Brasil: Lula fala das tarifas dos EUA e do comércio com a China; o que mostram os dados oficiais
Em entrevista à TV Globo em 15 de outubro, Lula disse que o Brasil perdeu 9% na relação comercial com os EUA e cresceu 20% com a China, e que quer seguir negociando as tarifas, sem descartar a Lei da Reciprocidade. O trecho citado não esclarece o período nem o indicador utilizado. Os dados do MDIC para a corrente de comércio de janeiro a setembro mostram queda de 6,8% com os EUA e alta de 11,1% com a China: mesma direção, variações diferentes. Em setembro, as exportações para a China caíram 7,6% na comparação anual, mas a corrente de comércio com o país ainda cresceu. As sobretaxas americanas vigoram desde julho, e o Brasil abriu em agosto o processo de reciprocidade.
A dez dias do segundo turno da eleição presidencial de 25 de outubro, Lula foi entrevistado pela TV Globo na noite de 15 de outubro e falou sobre as tarifas que os Estados Unidos aplicam a produtos brasileiros. Disse que houve queda nas relações comerciais com os EUA e aumento com a China e outros mercados, e que quer continuar negociando, sem descartar a Lei da Reciprocidade. Os dados oficiais da corrente de comércio de janeiro a setembro mostram queda com os EUA e alta com a China, mas variações diferentes das citadas por Lula; o trecho da entrevista não esclarece o período nem o indicador utilizado.
Segundo o SBT News, na mesma noite, Lula disse: "Quem deve estar preocupado com a gente são os EUA, porque eu não fiz a Lei da Reciprocidade, não quero fazer. Eu quero continuar negociando, mas, se for necessário fazer, nós vamos fazer. E eu acho que eles vão ter problemas conosco, porque nós temos coisas de que eles precisam mais do que coisas de que eu preciso deles." Segundo o texto coincidente do BP Money e da Tribuna do Sertão, ele citou números na mesma entrevista: "Embora a gente tenha perdido 9% na relação comercial com os Estados Unidos, nós crescemos 20% com a China, crescemos 15% com a Indonésia, 16% com a Alemanha, 13% com o Vietnã." O BP Money observou que, nesse trecho, os percentuais não vieram acompanhados de uma definição do período de comparação. A Reuters também registrou que Lula usou como argumento a queda no comércio com os EUA e a ampliação com a China e a União Europeia, e que disse acreditar em um acordo sobre as tarifas. Nesse trecho, Lula não distingue a abertura do processo previsto na lei da adoção de contramedidas.
A nota da balança comercial de setembro, divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em 6 de outubro, mostra que, de janeiro a setembro, em comparação com igual período de 2025, a corrente de comércio (soma de exportações e importações) com os Estados Unidos diminuiu 6,8%, para US$ 59,26 bilhões, com queda de 6,5% nas exportações; com a China, a corrente de comércio aumentou 11,1%, para US$ 143,30 bilhões, e as exportações cresceram 12,0%, para US$ 84,68 bilhões. Como a "relação comercial" citada por Lula não tem período nem indicador definidos, esses dados não permitem recalcular os percentuais dele; servem como referência: mesma direção, variações diferentes. No resumo da checagem publicada na mesma noite, a Aos Fatos afirma que Lula acertou ao dizer que houve queda nas relações comerciais com os EUA e aumento nas com a China, mas errou os percentuais de variação, e que citou dados imprecisos sobre Indonésia, Alemanha e Vietnã.
Nas exportações, setembro apresentou sinais diferentes dos resultados acumulados. Segundo a mesma nota, na comparação com setembro de 2025, as exportações para a China caíram 7,6%, para US$ 7,89 bilhões, mas, com o aumento das importações brasileiras provenientes da China, a corrente de comércio com o país ainda cresceu 0,9% na comparação anual; as exportações para os EUA subiram 31,9%, para US$ 3,52 bilhões, e a corrente de comércio com os americanos aumentou 13,5%. De acordo com reportagem do DGABC de 6 de outubro, o diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior, Herlon Brandão, disse que a queda das exportações à China foi influenciada pela redução das vendas de carne bovina, soja, minério de ferro e milho; os embarques de carne bovina à China diminuíram 93,5%, e ele associou o resultado ao atingimento de uma cota que passa a impor sobretaxa ao produto. Trata-se da salvaguarda chinesa sobre importações de carne bovina: desde 2026 há cotas por país, válidas para todas as origens, e o volume acima da cota fica sujeito a uma sobretaxa de 55%, além da tarifa vigente; segundo aviso do órgão chinês de defesa comercial de 30 de setembro, a cota do Brasil foi preenchida em 29 de setembro, com a sobretaxa a partir de 1º de outubro. Como a cota se esgotou no fim do mês e a sobretaxa começou em outubro, o material disponível não basta para explicar como esse calendário afetou as exportações de setembro inteiro. Brandão disse ainda: "Esse volume, para os Estados Unidos, ajuda a mitigar essa queda, mas o tamanho do mercado não é suficiente para absorver todo esse volume que caiu mais de 90% para a China." A medida foi definida e começou a ser aplicada antes desta votação.
As tarifas americanas também são uma medida em vigor. Segundo o Congresso em Foco de 14 de agosto, os Estados Unidos impuseram em 22 de julho uma tarifa adicional de 25% a determinados produtos brasileiros, após investigação do USTR com base na Seção 301; segundo o Poder360, outra tarifa, de 12,5%, passou a valer em julho, também a partir da Seção 301, e o SBT News relata que ela foi justificada por uma suposta permissividade ao trabalho análogo à escravidão. Pelo cálculo do MDIC com base no comércio de 2024, as medidas atingem, isolada ou conjuntamente, cerca de 23,1% das exportações brasileiras para os EUA; em 16,5% delas, as sobretaxas se acumulam e chegam a 37,5%. Em 13 de agosto, o governo abriu a análise do caso sob a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei nº 15.122/2025), no Comitê-Executivo de Gestão da Camex, e notificou Washington pedindo consultas diplomáticas; a nota do Planalto informou que a análise seguirá os ritos do decreto, e o Congresso em Foco registrou que a abertura do processo não significa a adoção imediata de retaliações. Sobre as tarifas, Flávio Bolsonaro disse, depois de se reunir com Donald Trump em Washington em 26 de maio (CNN Brasil): "Sobre o tema das tarifas, deixei claro que, sob o meu governo, não haverá necessidade de retaliação comercial contra o Brasil. Faremos um acordo comercial e de investimento histórico, bom para os dois países." As falas dos dois envolvem negociação; Lula mantém a possibilidade de medidas de reciprocidade se necessário. Essas declarações sobre negociações, acordos e medidas possíveis não equivalem a acordo fechado nem a decisão de aplicação. Segundo a Tribuna do Sertão, a entrevista de Flávio à TV Globo está prevista para 16 de outubro.
Esses dados não permitem concluir que o crescimento do comércio com a China decorra das tarifas americanas. Tampouco permitem determinar a variação anual das exportações para a China ou prever decisões sobre tarifas e contramedidas após a eleição. Para empresas do comércio Brasil-China, vale acompanhar o andamento do processo de reciprocidade, a evolução das exportações de carne bovina à China depois do preenchimento da cota e se os dois candidatos detalham suas propostas sobre o tema antes da votação.
Fontes
- SBT News, "Quem deve estar preocupado conosco é os EUA", diz Lula, 15/10/2026, https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/quem-deve-estar-preocupado-conosco-e-os-eua-diz-lula
- BP Money, Lula diz que EUA devem se preocupar com Brasil e cita avanço comercial da China, 15/10/2026, https://bpmoney.com.br/economia/lula-diz-que-eua-devem-se-preocupar-com-brasil-e-cita-avanco-comercial-da-china/
- Tribuna do Sertão, São os EUA que deveriam estar preocupados com o Brasil, diz Lula, 15/10/2026, https://tribunadosertao.com.br/geral/2026/10/15/998445-sao-os-eua-que-deveriam-estar-preocupados-com-o-brasil-diz-lula
- Reuters (via InfoMoney), Lula diz acreditar em acordo com EUA sobre tarifas, mas não descarta reciprocidade, 15/10/2026, https://www.infomoney.com.br/politica/lula-diz-acreditar-em-acordo-com-eua-sobre-tarifas-mas-nao-descarta-reciprocidade/
- Aos Fatos, Checamos a entrevista de Lula à TV Globo, 15/10/2026, https://www.aosfatos.org/noticias/checamos-lula-globo-segundo-turno/
- MDIC, Balança Comercial Mensal – Dados Consolidados (setembro de 2026), 06/10/2026, https://balanca.mdic.gov.br/balanca/publicacoes_dados_consolidados/nota.html ; nota à imprensa na Agência Gov, https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202610/mdic-divulga-balanca-comercial-de-setembro-de-2026
- DGABC, Exportações à UE e EUA avançam em setembro; China e Argentina recuam, 06/10/2026, https://www.dgabc.com.br/Noticia/4351285/exportacoes-a-ue-e-eua-avancam-em-setembro-china-e-argentina-recuam
- Ministério do Comércio da China, Anúncio nº 87 de 2025 (salvaguarda sobre importações de carne bovina), https://www.mofcom.gov.cn/zwgk/zcfb/art/2025/art_d6a23dcbc58642d880a21b4cd6aafb91.html ; aviso de execução nº 9 do Escritório de Recursos de Defesa Comercial, 30/09/2026, https://trb.mofcom.gov.cn/myjjdc/art/2026/art_50ba0b70b644489fa828f03dd72c15ab.html
- Poder360, Lula diz que tarifa de trabalho escravo dos EUA é um ataque à China, 14/08/2026, https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-diz-que-tarifa-de-trabalho-escravo-dos-eua-e-um-ataque-a-china/
- Congresso em Foco, Brasil abre processo de reciprocidade contra tarifas dos EUA, 14/08/2026, https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/121267/brasil-abre-processo-de-reciprocidade-contra-tarifas-dos-eua
- CNN Brasil, Tarifas, facções e terras raras: os temas que Flávio teria falado com Trump, 26/05/2026, https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tarifas-faccoes-e-terras-raras-os-temas-que-flavio-teria-falado-com-trump/
Nota de verificação
As citações seguem o texto publicado pelas reportagens listadas; a CBI ainda não as comparou com o áudio da entrevista na TV Globo. O trecho de Lula com os percentuais segue o texto coincidente do BP Money e da Tribuna do Sertão. A parte da Aos Fatos se baseia apenas no resumo da checagem; a CBI não teve acesso ao detalhamento item a item. Os dados comerciais vêm da nota consolidada do MDIC.
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