Eleição no Brasil: farelo de soja recua após vitória de Lula; compra chinesa de soja americana, tarifas e safra ficam no radar
No primeiro pregão após a reeleição de Lula, o farelo de soja FOB Paranaguá teve a maior queda diária desde 16 de abril, e as reportagens citadas ligam os preços à desvalorização do real. Quanto às compras chinesas, os materiais apontam o compromisso com a soja americana, a tarifa de 13% contra 3% e as projeções da próxima safra brasileira.
No primeiro pregão depois da vitória de Lula na eleição presidencial de 25 de outubro, a Platts fixou o farelo de soja FOB Paranaguá para embarque em dezembro em US$ 384,92 por tonelada, queda de US$ 14,22 sobre o dia anterior e a maior em um único dia desde 16 de abril. O título da Bloomberg daquele dia ligou a queda de soja, café e açúcar ao efeito da eleição sobre a moeda.
A explicação direta dada pelas reportagens citadas para os preços daquele dia é a desvalorização do real, o que não basta para ler o movimento como novo julgamento do mercado sobre o comércio agrícola entre Brasil e China. Quanto ao volume que a China comprará de cada origem, os materiais citados apontam três fatores a acompanhar: o compromisso de compra de soja americana, anterior à votação, a diferença de tarifas na China e as projeções da próxima safra brasileira.
Os preços daquele dia passaram pelo câmbio
Segundo o relato da Platts reproduzido pela IndexBox em 29 de outubro, a incerteza sobre a direção da política fiscal fez o dólar subir mais de 10% frente ao real nas negociações de 26 de outubro, e os futuros de Chicago caíram quase 2%; o título da InfoMoney naquele dia registrou alta de 8,2%, a R$ 5,40; os números diferem, e os materiais citados não explicam o horário ou o critério de cada um. A reportagem liga as variações à desvalorização do real: o preço FOB do farelo em dólar caiu, enquanto, segundo um participante do mercado, o preço da soja no interior subiu 5 reais por saca e os produtores venderam cerca de 800 mil toneladas no dia 26, volume comparável ao negociado em toda a semana anterior.
Fontes citadas na reportagem disseram que o programa brasileiro de exportação de farelo provavelmente não mudará de forma significativa. São preços e negócios de um único dia, relatados por fontes do setor: mostram que o resultado eleitoral afetou cotações e ritmo de vendas pelo câmbio, mas não que a estrutura de compras da China tenha mudado.
Encomendas chinesas: mais soja americana nos meses próximos, lacunas em dezembro e janeiro
A soja brasileira depende muito da China. Segundo reportagem da Xinhua publicada pelo Brasil 247, relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostra que, de janeiro a setembro, as vendas de soja ao país somaram US$ 30 bilhões, alta de 3,6%, e representaram 35,4% das exportações brasileiras para o mercado chinês, que recebeu 70% dos embarques do grão. São dados de estrutura; não indicam a tendência dos próximos meses.
As encomendas de curto prazo apontam em outra direção. Segundo reportagem do Portal do Agronegócio (reproduzida pela Datamar em 23 de outubro), a consultoria Biond Agro calcula que, nos embarques de outubro já contratados pela China, os Estados Unidos têm cerca de 6,40 milhões de toneladas e o Brasil, 3,30 milhões; em novembro, 2,90 milhões e 2,11 milhões. A reportagem explica que a oferta da nova safra americana é maior nesses meses. Nos contratos já firmados para os meses seguintes, a soja brasileira soma cerca de 2,11 milhões em fevereiro, 6,73 milhões em março e 5,48 milhões em abril, meses em que, segundo a reportagem, a oferta da nova safra do Brasil será maior.
Para a analista Isabella Pliego, da Biond Agro, dezembro e o início de 2027 serão cruciais para definir como a demanda chinesa se dividirá entre Brasil e Estados Unidos. Pelas estimativas da consultoria, 40% da necessidade de dezembro e 17% da de janeiro estão cobertas por contratos.
Compromisso de compra e diferença de tarifas apontam em direções diferentes
Há ainda um compromisso anual anterior à votação. Um informe da Casa Branca de novembro de 2025 afirma que a China comprará ao menos 25 milhões de toneladas de soja americana em cada um dos anos de 2026, 2027 e 2028. Pelos números da Biond Agro na reportagem de 23 de outubro, cerca de 13,73 milhões de toneladas estavam contratadas para 2026, a aproximadamente 11,3 milhões do compromisso anual. Segundo a mesma reportagem, até 23 de outubro, após o encontro entre os líderes de EUA e China, não haviam sido anunciados volumes adicionais nem mudanças nas condições comerciais para a soja americana.
A diferença de tarifas favorece o Brasil. A UkrAgroConsult informou em 1º de outubro que a soja americana paga tarifa total de 13% na China, e a brasileira, 3%, e que a soja ficou fora do acordo para reduzir tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em produtos de cada lado. O mesmo texto aponta que, com a oferta da safra velha mais apertada e a disputa entre esmagadoras e exportadores, o efeito é limitado no fim da temporada atual. A Biond Agro lembra que os compradores comparam essa diferença junto com preços, disponibilidade e prazos de embarque. Qual fator pesará mais no início do ano que vem é algo que o material disponível não responde.
O terceiro fator são as projeções da próxima safra brasileira. A Rio Times, em 25 de outubro, lista: 184 milhões de toneladas para 2026/27 segundo o escritório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) em Brasília, acima dos 180,5 milhões da safra anterior; 181,6 milhões segundo a Conab; e 186 milhões na previsão mundial do USDA de outubro. A previsão da CERA, da S&P Global Energy, citada pela UkrAgroConsult em 1º de outubro, é de 177 milhões, abaixo dos 188 milhões que atribui à safra anterior; o mesmo texto diz que, se a safra brasileira continuar grande, a necessidade chinesa de compras adicionais de soja americana pode ficar limitada. Essas projeções têm datas diferentes e divergem sobre a base e a direção, e não formam um intervalo de mesmo critério.
Os materiais citados não registram novas medidas pós-eleitorais para a soja vendida à China
Isso não significa que a eleição não tenha efeito sobre esse comércio. Sobre os efeitos futuros, os materiais citados trazem principalmente projeções de pesquisadores e leituras do governo. O pesquisador Marcelo Fernandes de Oliveira, da Unesp, avaliou à SpaceMoney, em 28 de outubro, que a continuidade de Lula favorece Pequim ao manter o Brasil como fornecedor relevante de alimentos e concorrente dos EUA no mercado da China; para ele, se Trump preservar uma maioria aliada após as eleições legislativas de 3 de novembro, pode ampliar tarifas para buscar alinhamento em terras raras e outras matérias-primas agrícolas. O Poder360 relatou em 27 de outubro que o Planalto não vê tema com divergência insuperável com os EUA, mas que o limite é a China, e que o governo diz que não abandonará Brics, Índia, China nem Europa por pressão norte-americana.
Nada disso é uma política para a soja. Os pontos a acompanhar são a cobertura das encomendas para dezembro e janeiro e as projeções da nova safra brasileira; as eleições legislativas americanas são a condição do cenário tarifário descrito por Oliveira.
Nota de verificação
Os números de preços, encomendas e safra vêm de estatísticas de instituições relatadas nas reportagens listadas; não obtivemos os relatórios originais da Platts e da Biond Agro. Não foi possível ler a íntegra da reportagem da Bloomberg, e usamos apenas o título. As citações em inglês foram traduzidas por esta redação.
Fontes
- IndexBox (relato da Platts), «Preços do farelo de soja brasileiro caem fortemente após reeleição de Lula», 2026-10-29, https://indexbox.io/pt-br/blog/brazilian-soybean-meal-fob-prices-post-sharpest-one-day-fall-since-mid-april-after-lulas-reelection
- Bloomberg, «Soybeans, Coffee, Sugar Slump as Brazil's Election Hits Currency», 2026-10-26, https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-10-26/soybeans-hit-2-month-low-as-lula-s-win-lifts-china-trade-outlook
- InfoMoney, «Dólar hoje dispara 8,2%, aos R$ 5,40, com reação à reeleição de Lula», 2026-10-26, https://www.infomoney.com.br/mercados/dolar-hoje-abertura-fechamento-comercial-turismo-26102026-2/
- Xinhua (publicado pelo Brasil 247, sobre relatório do CEBC), «Comércio Brasil-China atinge recorde de US$ 143 bilhões entre janeiro e setembro de 2026», 2026-10-20, https://www.brasil247.com/xinhua/comercio-brasil-china-atinge-recorde-de-us-143-bilhoes-entre-janeiro-e-setembro-de-2026/
- Datamar News (reproduz Portal do Agronegócio), «China Holds Off on New Soybean Purchases as Brazil and U.S. Compete for Year-End Demand», 2026-10-23, https://datamarnews.com/noticias/china-holds-off-on-new-soybean-purchases-as-brazil-and-u-s-compete-for-year-end-demand/
- The White House, «Fact Sheet: President Donald J. Trump Strikes Deal on Economic and Trade Relations with China», 2025-11-01, https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/11/fact-sheet-president-donald-j-trump-strikes-deal-on-economic-and-trade-relations-with-china/
- UkrAgroConsult, «China's continued tariffs on US soybeans could strengthen Brazil's position», 2026-10-01, https://ukragroconsult.com/en/news/chinas-continued-tariffs-on-us-soybeans-could-strengthen-brazils-position/
- Rio Times, «Brazil Soy Crop Seen at Record 184M Tons», 2026-10-25, https://www.riotimesonline.com/brazil-soybean-crop-forecast-184-million-tons-2026/
- SpaceMoney, «Política externa: Lula, EUA e China no novo mandato», 2026-10-28, https://www.spacemoney.com.br/economia/exterior/lula-politica-externa-eua-china-argentina
- Poder360, «Lula retoma viagens internacionais e deve ver Trump no G20», 2026-10-27, https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-retoma-viagens-internacionais-e-deve-ver-trump-no-g20/
Achou útil?
Compartilhe com quem precisa entender o mercado chinês
Ajude mais empresas brasileiras a entender a China e fechar negócios
China Brazil Insight · Entenda a China. Feche negócios.
Receba o briefing diário
3-5 destaques por dia, direto no e-mail. Gratuito.