Análise em Profundidade

Eleição 2026 no Brasil: o que Lula e Flávio dizem sobre investimento chinês, que em 2025 foi o maior em oito anos

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Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, empresas chinesas investiram US$ 6,1 bilhões no Brasil em 2025, o maior valor desde 2017. Os dois candidatos falaram de cooperação tecnológica com parceiros estrangeiros e citaram parceiros diferentes ao tratar de minerais críticos; o texto também resume as regras de tarifa e cota para elétricos já anunciadas.

O segundo turno da eleição presidencial brasileira será em 25 de outubro. Para empresas chinesas que constroem fábricas, compram ativos ou tocam projetos no Brasil, uma pergunta prática é se o resultado pode afetar o investimento chinês no país. Primeiro, onde esse capital chegou no ano passado; depois, o que os dois candidatos disseram.

Os números de 2025

O relatório anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), divulgado em 7 de maio, informa que os investimentos chineses no Brasil somaram US$ 6,1 bilhões em 2025, alta de 45% sobre 2024 e o maior valor desde 2017. Foram 52 projetos, 33% a mais que no ano anterior, um recorde. Segundo o relatório, com dados combinados do CEBC e do China Global Investment Tracker, do American Enterprise Institute, o Brasil foi o país que mais atraiu investimentos chineses no mundo em 2025, com 10,9% do valor.

O mesmo relatório registra o que não saiu do papel: outros 7 anúncios, com potencial de US$ 2,76 bilhões, não se materializaram no ano, e a taxa de efetivação do valor anunciado ficou em 54%, 13 pontos percentuais abaixo de 2024. Por setor, eletricidade liderou, com 29,5%; a mineração recebeu US$ 1,76 bilhão, mais que o triplo de 2024, e 29% do total; o setor automotivo, ao menos US$ 965 milhões (o CEBC observa que alguns valores não foram revelados). A Poder360 citou no mesmo dia Túlio Cariello, diretor de Conteúdo do CEBC: os investimentos em mineração foram "principalmente de níquel, cobre e ouro". São dados do ano de 2025: mostram onde o capital chinês se concentrou, não permitem projetar se 2026 terá mais ou menos.

Os dois falaram de cooperação tecnológica com parceiros estrangeiros

Flávio Bolsonaro disse em comício em Natal (RN), em 21 de setembro, segundo a CNN Brasil: "Minha relação vai ser sempre pragmática economicamente. Vamos fazer o que for melhor para a nação brasileira, diferente do atual governo, que declara guerra aos Estados Unidos e lambe bota da China. O Brasil é muito maior que isso. A gente não tem que escolher um lado". Na mesma ocasião, afirmou: "Temos que andar junto com todas as nações que sejam desenvolvimentistas, que queiram investir no Brasil, transferir tecnologia para o Brasil".

Lula falou do tema em entrevista ao Flow Podcast na noite de 1º de outubro. Segundo o portal Vermelho (de linha editorial de esquerda), em 2 de outubro, ele disse: "A China pode ser parceira nossa, trazendo tecnologia para nós, como os Estados Unidos também. Eu não tenho cerceamento aos Estados Unidos". No mesmo trecho: "Você acha que a gente vai ficar dependendo do chinês para fazer baterias elétricas? Vamos fazer chips aqui, celular aqui".

Nessas falas, os dois mencionam cooperação tecnológica com parceiros estrangeiros e citam China e Estados Unidos. Os contextos são diferentes: em Natal, Flávio falava de atrair investimentos e criticava a postura do governo atual em relação aos dois países; no Flow, Lula falava de processamento no país e de produzir baterias, chips e celulares no Brasil.

Minerais críticos: os parceiros citados em cada fala

Segundo a Gazeta do Povo (de linha editorial de direita), em 11 de outubro, Flávio afirmou após se reunir com Donald Trump na Casa Branca, em maio, que pretende oferecer aos americanos uma parceria de longo prazo para investimentos e processamento desses recursos no Brasil: "Sob meu governo, haverá parceria estratégica de longo prazo nesse setor, com investimento protegido e reindustrialização compartilhada entre os dois países". No Flow, em 1º de outubro, Lula disse que China e Estados Unidos podem ser parceiros tecnológicos e que "a gente não vai deixar mais exportar nossos minérios, a gente quer transformar aqui no Brasil".

As duas falas mencionam processar minerais no Brasil; os parceiros citados e a formulação são diferentes — nessa ocasião Flávio citou os Estados Unidos, e Lula, China e Estados Unidos. Essas falas não mostram que Flávio exclua cooperação com a China: em Natal, ao falar de investimento e tecnologia, ele também citou o país.

Os Estados Unidos já fizeram pedidos na área de mineração. Segundo reportagem da CNN Brasil de 21 de setembro, o USTR pediu, em documento enviado ao Itamaraty em 9 de janeiro de 2026 para negociar o tarifaço, que o governo revisasse a venda das minas de níquel da Anglo American em Goiás, Mato Grosso e Pará à chinesa MMG, negócio fechado por US$ 500 milhões em 2025, e que o Brasil não permitisse transferências de controle de jazidas para "non-market economies" — segundo a reportagem, uma forma de se referir à China — sem prévio conhecimento de Washington. A reportagem diz que "não houve negociação efetiva sobre os dois assuntos".

Na reportagem da CNN, comércio e investimento podem ser afetados de formas diferentes

A mesma reportagem da CNN Brasil, do blog de Daniel Rittner, relata que fontes em Pequim não veem risco de que uma postura mais pró-EUA, eventualmente hostil à China, afete de forma significativa o comércio bilateral. Em seguida, a reportagem diz que o cenário para os investimentos "é menos claro"; segundo esses interlocutores, avanços recentes em várias frentes dependem de bom relacionamento político-diplomático e ficariam em risco com rusgas e sensação de instabilidade para empresários chineses. Entre os exemplos citados estão a fábrica da BYD em Camaçari (BA), a unidade que a GWM pretende inaugurar em Aracruz (ES), a fábrica da CRRC em Araraquara (SP), o data center da ByteDance no complexo do Pecém (CE) e a constelação de pequenos satélites da SpaceSail.

O economista Marcos Valle, da Universidade Positivo, ouvido pela Gazeta do Povo, avalia que a dependência comercial em relação à China funcionaria como um dos principais freios a uma mudança mais radical na área comercial num eventual governo Flávio; ele cita contratos estatais de longo prazo, financiamento de infraestrutura e projetos de cooperação tecnológica e espacial com Pequim como áreas que poderiam ser afetadas.

Regras de tarifa e cota já anunciadas

Para montadoras chinesas já instaladas, uma regra está em vigor agora. Segundo a Agência Brasil, em 23 de junho, o Gecex manteve o cronograma de alta do imposto de importação de eletrificados: semidesmontados (SKD) passaram a recolher 35% a partir de julho de 2026; desmontados (CKD) seguem com 14% até o fim de 2026 e passam a 35% em janeiro de 2027. O comitê também renovou, por seis meses a partir de 1º de julho, uma cota de alíquota zero de US$ 463 milhões para CKD e SKD; veículos montados ficam fora da cota. A Anfavea recebeu a decisão com "grande preocupação".

A decisão foi tomada em junho, antes do primeiro turno. Se um novo governo vai mudá-la, os dois candidatos não disseram nas falas citadas neste texto.

O que se sabe e o que não se sabe antes do voto

Sabe-se que o investimento chinês em 2025 foi o maior desde 2017, concentrado em eletricidade, mineração e setor automotivo; que, nas falas citadas, os dois candidatos mencionam cooperação tecnológica com parceiros estrangeiros; que, em minerais críticos, Flávio citou em maio uma parceria de longo prazo com os EUA, e Lula disse em 1º de outubro que China e EUA podem ser parceiros; e que as regras de tarifa e cota anunciadas em junho estão em vigor. Apenas com o material deste texto, não é possível dizer se, com qualquer um dos dois eleito, os projetos chineses aumentarão ou diminuirão: as fontes citadas pela CNN Brasil e o economista ouvido pela Gazeta do Povo apontam fatores e áreas que podem afetar o investimento, não conclusões.

Segundo a programação divulgada pela Band, os dois candidatos participam hoje (18 de outubro), às 20h (horário de Brasília), de debate na emissora. Se falarem de investimento e China, atualizaremos este texto.

Fontes

  • CEBC, "Investimentos Chineses no Brasil 2025", 07/05/2026 (PDF publicado pela Poder360): https://static.poder360.com.br/2026/05/Investimentos-Chineses-no-Brasil-2025-CEBC-7mai2026.pdf
  • Poder360, "Investimento chinês no Brasil cresce 45% em 2025 e vai a US$ 6,1 bi", 07/05/2026: https://www.poder360.com.br/poder-china/investimento-chines-no-brasil-vai-a-us-61-bi-e-cresce-45-em-2025/
  • CNN Brasil, "Relação com a China vai ser sempre pragmática economicamente, diz Flávio", 21/09/2026: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/relacao-com-a-china-vai-ser-sempre-pragmatica-economicamente-diz-flavio/
  • CNN Brasil (blog de Daniel Rittner), "China põe vitória de Flávio no radar e monitora suas 'falas e práticas'", 21/09/2026: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/daniel-rittner/eleicoes/china-poe-vitoria-de-flavio-no-radar-e-monitora-suas-falas-e-praticas/
  • Vermelho (esquerda), "Lula defende processamento de terras raras no Brasil", 02/10/2026: https://vermelho.org.br/2026/10/02/lula-defende-processamento-de-terras-raras-no-brasil/
  • Gazeta do Povo (direita), "O que uma eventual vitória de Flávio significaria para China, EUA e o Mercosul", 11/10/2026: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/o-que-uma-eventual-vitoria-de-flavio-significaria-para-china-eua-e-o-mercosul/
  • Agência Brasil, "Governo mantém elevação de tarifas a carro elétrico e renova cota zero", 23/06/2026: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-06/governo-mantem-elevacao-de-tarifas-carro-eletrico-e-renova-cota-zero
  • Band, "Debate entre Flávio e Lula acontece neste domingo (18); saiba como assistir": https://www.band.com.br/politica/eleicoes/debate-entre-flavio-e-lula-acontece-neste-domingo-18-saiba-como-assistir

Nota de verificação

As citações foram conferidas nas páginas originais. As falas de Lula no Flow citadas aqui vêm da reportagem do Vermelho e não foram comparadas com o áudio do vídeo; a fala de Flávio de maio sobre minerais críticos é reproduzida pela Gazeta do Povo. Os dados do CEBC foram conferidos no sumário executivo e no corpo do relatório.

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