Eleição no Brasil: 20 empresas de carne bovina vão à CIIE, em Xangai, em busca de negócios para 2027
Depois da reeleição de Lula, a CIIE, que começa em 5 de novembro em Xangai, é uma das agendas comerciais com a China já marcadas: segundo o Comex do Brasil, a participação brasileira tem projeção de US$ 280 milhões em negócios, e a ABIEC leva 20 empresas em busca de oportunidades para 2027. A cota de 2026 acabou e o excedente paga 67%, medida anterior à votação.
Na próxima quinta-feira, 5 de novembro, começa em Xangai a 9ª China International Import Expo (CIIE). Depois da reeleição de Lula em 25 de outubro, é uma das atividades comerciais do Brasil com a China que já têm data marcada: a missão organizada pela ApexBrasil reúne 36 empresas e cooperativas, com projeção de US$ 280 milhões em negócios; a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) leva 20 empresas de carne bovina ao espaço da agência, com um objetivo declarado: relacionamento com importadores e oportunidades comerciais para 2027.
A ABIEC diz que, após os impactos das salvaguardas neste ano, a indústria iniciou um novo ciclo de negociações para abastecer o mercado chinês em 2027. A salvaguarda já vigorava antes da votação. Os materiais disponíveis apontam a participação das empresas de carne para essas negociações de 2027; só com eles, não é possível atribuir ao resultado eleitoral mudanças nessas agendas comerciais.
Cota de 2026 esgotada e carga de 67% sobre o excedente
A salvaguarda chinesa para a carne bovina, estabelecida pelo Comunicado nº 87 de 2025 do Ministério do Comércio da China, vigora desde 1º de janeiro de 2026, por três anos, e não é exclusiva ao Brasil. A cota brasileira de 2026 é de 1,106 milhão de toneladas. A CNN Brasil informou em 29 de setembro que a China confirmou o preenchimento da cota naquele dia e que, pelas regras do comunicado, a cobrança adicional passou a valer em 2 de outubro (a Agência Brasil cita 1º de outubro). A sobretaxa de 55% incide apenas sobre o excedente e, somada à tarifa de importação de 12%, chega a 67%.
Os efeitos começaram antes do esgotamento oficial: segundo a ABIEC, nos últimos meses os frigoríficos reduziram as vendas para a China (Agência Brasil). Segundo dados da Safras & Mercado citados pelo CompreRural em 19 de outubro, em setembro a China recebeu cerca de 10,9 mil toneladas de carne bovina in natura do Brasil, e os Estados Unidos, cerca de 44,4 mil toneladas. Nos primeiros 11 dias úteis de outubro, a média diária de exportação subiu cerca de 5,5% sobre setembro, mas a consultoria segue apontando o esgotamento da cota chinesa como principal limitação. A ABIEC estima que as exportações totais de carne bovina do Brasil em 2026 recuem cerca de 10% em relação a 2025, num cenário que também inclui restrições da União Europeia (Agência Brasil, 1º de outubro). A mesma reportagem informa que a China autorizou, em 29 de setembro, mais duas unidades brasileiras a exportar; a reportagem não informa ampliação da cota associada a essas duas novas habilitações.
O estande em Xangai olha para 2027
O comunicado da ABIEC, de 28 de outubro, informa que a feira ocorre em meio às negociações para o abastecimento do mercado chinês em 2027. O presidente da entidade, Roberto Perosa, afirma que a indústria «já iniciou um novo ciclo de negociações, com embarques destinados ao abastecimento do mercado chinês a partir de janeiro de 2027», e chama o evento de «termômetro importante para avaliar o ritmo dos negócios, a demanda dos importadores e as perspectivas para os próximos meses». Segundo o CompreRural, a Safras & Mercado avalia que uma retomada mais significativa das vendas à China deverá ocorrer apenas no último bimestre, e isso depende das condições comerciais e da demanda dos importadores chineses.
O volume de 2027 dentro da cota também é limitado. A cota brasileira sobe para 1,128 milhão de toneladas, mas representantes do setor estimam que o limite possa ser alcançado em março ou abril (Agência Brasil). Para comparação, a mesma reportagem registra cerca de 1,6 milhão de toneladas enviadas à China em 2025; é um dado de embarque do lado brasileiro, que pode não coincidir com o critério de cálculo da cota, e serve apenas para dar a ordem de grandeza.
Como usar a cota passa, assim, a ser uma questão entre o setor e o governo brasileiro. A Agência Brasil informou em 1º de outubro que a ABIEC discute antecipar produção e embarques, para usar a nova cota logo no início de sua vigência, e que voltou a discutir com o governo uma divisão da cota de 2027 entre os frigoríficos, para distribuir os embarques ao longo do ano e evitar que poucas empresas concentrem o volume. Os materiais citados não informam o andamento da proposta, que é anterior à votação, nem quem decidirá e quando.
US$ 280 milhões são uma projeção de negócios
Os US$ 280 milhões mencionados na reportagem são uma projeção de negócios. O Comex do Brasil, em 30 de outubro, não informa o período coberto, e o valor não pode ser tomado como contratos assinados. A ABIEC informa que, na edição de 2025, as empresas brasileiras participantes registraram US$ 48,26 milhões em negócios durante o evento, além de uma projeção de US$ 1,15 bilhão para os 12 meses seguintes. Os dois conjuntos têm alcances diferentes, e não está claro se as 20 empresas de carne fazem parte das 36 da missão; por isso não podem ser somados nem indicam se este ano será maior ou menor.
A delegação não se resume à carne. As reportagens citam a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a Aurora Coop, a UNICAFES, além de vinhos, mel, cachaça e açaí; a rede asiática Luckin Coffee apresentará grãos brasileiros no espaço do Brasil. As mesmas reportagens registram a nona participação consecutiva do país e citam o embaixador em Pequim, Marcos Galvão, e o cônsul-geral em Xangai, Augusto Pestana; pelo Ministério da Agricultura, está prevista a participação de representantes da pasta.
O que a feira não responde
Os materiais disponíveis não excluem um efeito da eleição sobre esse comércio. A nota da chancelaria chinesa de 27 de outubro informa que o presidente Xi Jinping enviou mensagem de felicitações a Lula pela reeleição; é um gesto político, e a nota não trata da cota de carne. Os materiais sobre a feira e o setor citados neste texto também não registram novo pedido brasileiro sobre a cota depois da votação nem ajuste por parte da China. O prazo de três anos da salvaguarda e a cota de 2027 são arranjos divulgados antes do pleito.
Depois do encerramento, vale observar três pontos: se a ApexBrasil divulgará resultados e com qual critério; se a ABIEC informará o andamento das negociações ou pedidos para 2027; e se o governo brasileiro decidirá sobre a divisão da cota.
Nota de verificação
As projeções, o número de participantes e os negócios do ano passado vêm das reportagens sobre a missão da ApexBrasil e do comunicado da ABIEC; não obtivemos dados por empresa. A reportagem do Brasil 247 da mesma data usa formulação semelhante; não a contamos como verificação independente adicional. As duas fontes divergem sobre a data inicial da sobretaxa; adotamos 2 de outubro, citado pela CNN Brasil com base nas regras do comunicado. Os números da Safras & Mercado foram citados pelo CompreRural; não obtivemos o relatório original.
Fontes
- ABIEC, «ABIEC leva 20 empresas à CIIE 2026 e reforça presença da carne bovina brasileira na China», 2026-10-28, https://abiec.com.br/abiec-leva-20-empresas-a-ciie-2026-e-reforca-presenca-da-carne-bovina-brasileira-na-china/
- Comex do Brasil, «CIIE 2026: na vitrine global da China, Brasil busca negócios que podem chegar a US$ 280 milhões», 2026-10-30, https://comexdobrasil.com/ciie-2026-na-vitrine-global-da-china-brasil-busca-negocios-que-podem-chegar-a-us-280-milhoes/
- Brasil 247, «Brasil projeta US$ 280 milhões em negócios na maior feira de importações da China», 2026-10-30, https://brasil247.com/economia/brasil-projeta-us-280-milhoes-em-negocios-na-maior-feira-de-importacoes-da-china
- CNN Brasil, «China confirma que Brasil atingiu 100% da cota de carne bovina», 2026-09-29, https://www.cnnbrasil.com.br/agro/china-confirma-que-brasil-atingiu-100-da-cota-de-carne-bovina/
- Agência Brasil, «Carne brasileira passa a pagar tarifa de 67% para entrar na China», 2026-10-01, https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-10/carne-brasileira-vai-pagar-tarifa-de-67-para-entrar-na-china
- CompreRural (citando Safras & Mercado), «Exportações de carne bovina reagem em outubro, mas China ainda trava recuperação dos embarques», 2026-10-19, https://www.comprerural.com/exportacoes-de-carne-bovina-reagem-em-outubro-mas-china-ainda-trava-recuperacao-dos-embarques/
- Ministério das Relações Exteriores da China, nota sobre a mensagem de felicitações a Lula, 2026-10-27, https://www.fmprc.gov.cn/wjdt_674879/gjldrhd_674881/202610/t20261027_12047807.shtml
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