Análise em Profundidade

Lula reeleito, Congresso dividido: o que muda para os negócios entre Brasil e China

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Lula venceu o segundo turno com 51,78% dos votos válidos e virou a disputa, mas o PL é a maior bancada da nova Câmara, o centro tem os votos decisivos e a margem fiscal encolheu. Avaliação da CBI: a direção da política é previsível; a execução depende do Congresso, do Orçamento e do cenário externo, e é aí que exportadores, indústria e investidores dos dois lados devem olhar.

Lula venceu o segundo turno depois de terminar o primeiro quase dois pontos atrás e vai começar em 5 de janeiro de 2027 seu quarto mandato presidencial. Mas, quando se coloca lado a lado o Congresso e os governadores eleitos neste ano com o resultado do primeiro turno, de três semanas atrás, o quadro é outro: a continuidade no Palácio do Planalto não significa mais espaço político. O maior partido da nova Câmara dos Deputados é o PL, de oposição; os estados mais populosos serão governados por partidos que não o PT; e a margem fiscal é mais estreita do que há quatro anos.

A tese desta análise é que a direção da política econômica e externa nos próximos quatro anos é razoavelmente previsível, enquanto a capacidade de execução vai depender do custo de negociar com o centro, da restrição fiscal e do cenário externo. Para quem faz negócios entre o Brasil e a China — o exportador brasileiro de soja ou carne, a indústria que compete com importados chineses, a empresa chinesa que investe aqui —, isso significa avaliar setor a setor e projeto a projeto, com mais atenção ao Congresso, ao Orçamento e às regulamentações dos ministérios do que ao presidente. É uma hipótese de trabalho baseada nas evidências públicas disponíveis hoje; as próximas informações vão confirmá-la ou corrigi-la.

Como a disputa virou: primeiro as contas, depois as explicações

Pela apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 21h59 (horário de Brasília) de 25 de outubro, com 99,98% das seções totalizadas e o resultado ainda não marcado como final pelo tribunal, Lula recebeu 64,24 milhões de votos, 51,78% dos válidos; Flávio Bolsonaro, 59,82 milhões, 48,22%. A diferença é de cerca de 4,42 milhões de votos, ou 3,56 pontos percentuais. As seções ainda não totalizadas naquele momento somavam cerca de 34 mil eleitores, insuficientes para alterar o resultado; na atualização das 22h46, com 99,99% das seções, Lula tinha 51,79%. No primeiro turno, há três semanas (resultado já marcado como final pelo TSE), Flávio liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula, uma vantagem de cerca de 2,22 milhões de votos.

Entre os dois turnos, Lula ganhou 10,36 milhões de votos e Flávio, 3,71 milhões. Os 14,07 milhões de votos adicionais fecham com três fontes: os 9,32 milhões dados no primeiro turno aos outros dez candidatos (entre eles Augusto Cury, com 3,45 milhões, Renan Santos, com 2,68 milhões, e Ronaldo Caiado, com 2,61 milhões); o comparecimento 2,93 milhões maior, com a abstenção caindo de 21,08% para 19,22%; e a queda de 1,82 milhão nos votos brancos e nulos somados, de 5,98 milhões para 4,15 milhões. As três parcelas somam exatamente o ganho conjunto dos dois candidatos.

Essa conta mostra de onde vieram os votos a mais, não quem migrou para quem. Os dados de apuração são agregados por território; ler a variação de um estado como "os eleitores de tal candidato foram para Lula" é a clássica falácia ecológica. O comportamento individual só pode ser respondido por pesquisas pós-eleitorais.

Dentro desse limite, três traços são claros. Primeiro, o ganho de Lula foi nacional: nas 27 unidades da federação, ele somou mais votos novos do que Flávio no segundo turno, inclusive em Santa Catarina, no Paraná e em Mato Grosso, onde Flávio venceu com folga. Segundo, a diferença decisiva veio do Sudeste. Em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, Lula ganhou 4,79 milhões de votos e Flávio, 1,94 milhão; só em São Paulo, Lula somou 2,61 milhões a mais. Flávio ainda venceu em São Paulo com 53,85%, mas a distância entre os dois caiu de 13,7 pontos no primeiro turno (calculada sobre todos os válidos) para 7,7 pontos. Terceiro, Minas virou: no primeiro turno Lula teve 43,33% contra 48,24% de Flávio; no segundo, venceu por pouco, com 50,41%. O estado costuma ser visto como termômetro nacional, e mais uma vez acompanhou o resultado do país. O Nordeste continuou sendo a base de Lula, que passou de 63,8% para 69,4% na região.

Região1º turno (Lula / Flávio)2º turno, LulaVotos a mais, LulaVotos a mais, Flávio
Sudeste (SP, MG, RJ, ES)39,7% / 51,4%47,2%4,79 mi1,94 mi
Nordeste (9 estados)63,8% / 30,9%69,4%2,95 mi0,40 mi
Sul (PR, RS, SC)31,3% / 60,1%37,4%1,33 mi0,87 mi
Centro-Oeste (GO, MT, MS, DF)32,6% / 56,5%40,0%0,77 mi0,47 mi
Norte (7 estados)44,6% / 49,2%50,0%0,47 mi0,01 mi

Nota: no 1º turno, percentual sobre todos os votos válidos (inclui os demais candidatos); no 2º, percentual dos válidos na disputa entre os dois. Exclui votos no exterior. Cálculo da CBI com os arquivos de resultado por estado do TSE, posição de 25/10/2026, 21h59 (horário de Brasília).

Por trás do saldo líquido cabem várias combinações: eleitores de outros candidatos do primeiro turno que preferiram Lula, novos votantes do segundo turno mais inclinados a ele, e fluxos nos dois sentidos — entre os dois candidatos, entre voto válido e branco ou nulo, entre votar e se abster. O saldo não identifica migrações individuais nem exclui perdas de parte do eleitorado original. O que se pode afirmar é que Flávio ainda aumentou sua votação absoluta em 21 unidades da Federação (20 estados e o Distrito Federal), mas bem menos do que o adversário.

Lula vence a Presidência; o PL terá a maior bancada na Câmara

As eleições para o Congresso, realizadas junto com o primeiro turno em 4 de outubro, já estão definidas (os arquivos estaduais do TSE estão marcados como finais). Na nova Câmara, de 513 cadeiras, o PL, partido de Flávio, elegeu 121 deputados e é a maior bancada; o PT, de Lula, elegeu 70. Partidos podem formar federações, que atuam como um único bloco no Legislativo por pelo menos quatro anos: a Federação Brasil da Esperança, do PT, soma 88 cadeiras; a federação de União Brasil e PP, 87; as demais se distribuem por mais de dez partidos (tabela abaixo).

Partido ou federaçãoCadeiras na Câmara (de 513)
PL121
Federação Brasil da Esperança (PT 70, PCdoB 11, PV 7)88
Federação União Brasil–PP (União 46, PP 41)87
PSD43
Republicanos41
MDB36
Podemos27
PSB15
Federação PSOL–Rede15
Federação PSDB–Cidadania11
Novo10
Outros (PDT 6, Avante 5, PRD 5, Solidariedade 2, Missão 1)19

Nota: soma da CBI a partir dos resultados de deputado federal das 27 unidades da Federação no TSE, posição de 25/10/2026. A eleição só se formaliza com a diplomação pelos tribunais regionais eleitorais; trocas de partido e rearranjos de federação podem mudar a correlação real de forças.

No Senado, estavam em disputa 54 das 81 cadeiras. Entre os 54 eleitos, o PL ficou com 19, o MDB com 7 e o PT com 6. As outras 27 cadeiras seguem com senadores eleitos em 2022, com mandato até 2031; a composição completa depende de somar esses 27, e a base do governo ainda não está formada.

Por trás dos números há uma aritmética simples. Lei ordinária exige maioria simples dos presentes; lei complementar, maioria absoluta nas duas Casas (257 deputados e 41 senadores); emenda constitucional, dois turnos de votação em cada Casa com três quintos dos votos (308 deputados e 49 senadores). Pela classificação ideológica usual (classificação da CBI, não oficial), a federação do PT mais PSB, PSOL–Rede e PDT somam cerca de 124 deputados; PL, Novo e Missão, cerca de 132. Os demais partidos somam 257 cadeiras, exatamente a maioria absoluta da Câmara, mas não votam como bloco, e sua posição precisa ser avaliada pauta a pauta. Em outras palavras, a aprovação da agenda do governo dependerá de alianças que podem variar conforme a pauta, com peso decisivo de partidos sem alinhamento fixo, como PSD, MDB, Republicanos e a federação União–PP; e o PL, como maior bancada, tem peso na definição de pauta, na distribuição das comissões e na eleição do presidente da Câmara. A eleição das Mesas das duas Casas, em fevereiro de 2027, será o primeiro indicador observável de poder do novo mandato.

Nos estados, o mapa também não pende para um lado só. Entre os 27 governadores, o PT venceu na Bahia, no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte. São Paulo (Tarcísio de Freitas, do Republicanos, reeleito no primeiro turno com 62,65%), Minas Gerais (Republicanos), Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina (os quatro com o PL) — estados de grande peso econômico e populacional — serão governados por outros partidos. Por legenda, o PL tem 6 governos estaduais; o PSD, 5 (incluindo o Amazonas, cujo segundo turno, já totalizado e marcado como final pelo TSE, elegeu Omar Aziz); PP, PT e Republicanos, 4 cada. Os governos estaduais controlam incentivos de ICMS (que serão extintos gradualmente na transição da reforma tributária), licenciamento ambiental e aprovações de infraestrutura local — com frequência, um peso mais direto sobre projetos de investimento estrangeiro do que o da esfera federal.

Por isso, a reeleição de Lula é, antes de tudo, continuidade do Executivo: política externa, ministérios e estatais devem manter a orientação atual. Tudo o que depende de lei — Orçamento, regulamentação tributária, reformas regulatórias — terá de ser negociado item a item num Congresso em que o centro tem os votos decisivos e a oposição tem a maior bancada. Para as empresas, a pergunta útil não é "o que o presidente quer fazer", e sim "o que não precisa do Congresso e o que o Congresso vai mudar".

Juros em queda, mas um Orçamento com pouca folga para o novo mandato

O pano de fundo macroeconômico cabe em alguns números oficiais. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic de 14,00% para 13,75% em 16 de setembro, o quinto corte do atual ciclo; a próxima reunião é em 3 e 4 de novembro (BCB, série 432). O IPCA subiu 0,82% em setembro e acumula 4,58% em 12 meses, um pouco acima do teto de 4,5% (meta de 3%, com tolerância de 1,5 ponto; desde 2025 vale a meta contínua, e só há descumprimento após seis meses seguidos fora do intervalo) (IBGE). O mercado está mais pessimista: no Focus de 16 de outubro, a mediana para o IPCA de 2026 era 5,22% e, para 2027, 4,32%; a Selic esperada para o fim de cada ano, 13,25% e 12,00%; e o crescimento do PIB em 2027, apenas 1,32% (BCB, Focus).

A restrição de verdade é fiscal. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,87% do PIB em agosto de 2026, o nível mais alto desde março de 2021 (BCB, série 13762); nos 12 meses até agosto, o setor público consolidado (incluindo governos regionais e estatais) teve déficit primário de 0,62% do PIB (BCB, série 5793). Pelo arcabouço fiscal de 2023, a LDO de 2026 fixou o centro da meta de resultado primário do governo central em superávit de 0,25% do PIB. O relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado de 20 de agosto aponta que tanto a IFI quanto o governo projetam um déficit primário efetivo do governo central de cerca de 0,4% do PIB em 2026, e que o cumprimento formal da meta depende das deduções legais e da banda de tolerância (IFI, RAF nº 115); vale notar que a meta do governo central e o dado consolidado do setor público têm bases diferentes. O projeto de Orçamento de 2027, enviado ao Congresso em 31 de agosto, fixa a meta em 0,5% do PIB, segundo a imprensa, enquanto o próprio governo projeta um superávit efetivo bem menor, com a diferença novamente coberta por deduções previstas nas regras.

Todas as promessas de gasto da campanha terão de caber nesse quadro; o que envolver despesa obrigatória, nova autorização orçamentária ou mudança de lei passa pelo Congresso, salvo ajustes administrativos dentro de autorizações já existentes. A reforma do consumo segue o calendário já fixado: 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS; em 2027 a CBS federal passa a ser cobrada no lugar de PIS/Cofins; o ICMS e o ISS começam a ser extintos gradualmente a partir de 2029. Esse calendário está em emenda constitucional e lei complementar e não muda com a eleição, mas a alíquota da CBS e vários pontos de regulamentação ainda estão em definição, com efeito direto sobre carga tributária e preços.

Segundo a Bloomberg Línea, em reportagem das 21h32 de 25 de outubro, depois de definido o resultado o dólar futuro negociado em Chicago subiu cerca de 10%, para cerca de R$ 5,52, e o ETF de ações brasileiras listado em Tóquio abriu em queda de 13% (reportagem); a PTAX de venda de 23 de outubro, divulgada pelo Banco Central, foi de R$ 5,0377. A liquidez noturna é limitada; os preços após a abertura do mercado local na segunda-feira serão referência melhor.

Entre China e Estados Unidos: não é escolher um lado, são duas contas separadas

A estrutura das relações econômicas externas do Brasil não mudou com a eleição: a China é o maior destino das exportações brasileiras, e os Estados Unidos são fonte relevante de investimento e mercado para produtos industriais. Pelo Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025 o Brasil exportou US$ 99,94 bilhões para a China e importou US$ 70,92 bilhões; para os EUA, exportou US$ 37,68 bilhões e importou US$ 45,14 bilhões. De janeiro a setembro de 2026, as exportações para a China somaram US$ 84,68 bilhões, alta de 12,0% sobre os US$ 75,58 bilhões do mesmo período do ano anterior; para os EUA, US$ 27,46 bilhões, queda de 6,5% sobre US$ 29,37 bilhões. Com a China, o Brasil tem superávit amplo; com os EUA, déficit.

A queda das vendas aos EUA coincide com a mudança tarifária americana, mas não pode ser atribuída só a ela. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA decidiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza a cobrança de tarifas, e as sobretaxas aplicadas ao Brasil com base nessa lei perderam efeito (análise do DLA Piper). Em seguida, Washington passou a usar a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974: em 15 de julho, o Representante Comercial dos EUA (USTR) anunciou tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, em uma investigação que trata de comércio digital e pagamentos eletrônicos, acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual e desmatamento ilegal (comunicado do USTR). A medida não tem relação direta com quem venceu a eleição. Nossa inferência é que a postura negociadora brasileira tende a seguir a linha atual: não escalar o confronto, mas também não ceder facilmente nos temas apontados, como pagamentos digitais e etanol.

Com a China, também prevalece a continuidade. O Brasil não aderiu formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota; na visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, a Brasília, em novembro de 2024, os dois governos falaram em articular programas brasileiros como a Nova Indústria Brasil com a iniciativa chinesa (Jornal de Brasília). Lula visitou a China em maio de 2025 e assinou um conjunto de documentos de cooperação em energia, agricultura e infraestrutura. A linha do governo atual é fazer contas separadas com cada potência: com a China, ampliar exportações agrícolas e minerais e atrair investimento em energia renovável e infraestrutura, usando ao mesmo tempo a defesa comercial para proteger a indústria nacional; com os EUA, buscar a redução de tarifas.

A relação com a China também tem atritos, e a maioria independe de quem ocupa o Planalto. A China aplica cotas por país à carne bovina importada, com sobretaxa sobre o volume excedente; em entrevista coletiva em 6 de outubro, um dirigente da Secretaria de Comércio Exterior disse que as exportações de carne bovina para a China em setembro caíram 93,5% em relação ao mesmo mês de 2025, porque a cota se esgotou e o excedente passou a pagar sobretaxa (a reportagem não informa se a comparação é em valor ou em volume; DGABC). Na outra direção, o Brasil aplicou neste ano direitos antidumping sobre aços laminados a frio e revestidos da China; a tarifa de importação de carros elétricos, segundo a imprensa, chegou a 35% em julho; e a Lei nº 15.506/2026, em vigor desde setembro, submete a análise a aquisição, por pessoa jurídica estrangeira, de participação relevante em empresas de minerais críticos, ainda sem regulamentação. Essas medidas são conduzidas pelo Executivo, por comitês técnicos e pelo Congresso, e continuam em vigor; a eleição não as altera diretamente, e eventuais mudanças dependem de seus próprios ritos legais.

O que acompanhar nos dois sentidos: data centers, saúde e comércio

Data centers e energia: a lei existe; a barreira está na regulamentação e na rede. Interessa tanto aos operadores que querem instalar data centers no Brasil quanto aos fornecedores chineses de servidores e equipamentos de rede. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) foi criado por medida provisória, que perdeu a validade sem ser convertida em lei; o Congresso o aprovou depois como projeto de lei, sancionado por Lula em 15 de setembro de 2026 como Lei nº 15.504/2026 (texto da lei). A lei está em vigor, mas o benefício depende de regulamentação e de habilitação pela Receita Federal. As condições são detalhadas: ao menos 10% do fornecimento efetivo de processamento, armazenagem e tratamento de dados destinado ao mercado interno (ou, alternativamente, investimento adicional em P&D equivalente a 10% do valor das compras com benefício); toda a energia proveniente de contratos ou geração própria de fontes renováveis ou de baixa emissão; eficiência hídrica (WUE) de até 0,05 litro por quilowatt-hora; investimento em P&D local de 2% do valor dos equipamentos adquiridos com o benefício; e redução de 20% nas contrapartidas de mercado interno e de P&D para projetos no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste. O que falta é a regulamentação: a lei remete várias vezes a "regulamento", e o processo de habilitação, os indicadores de sustentabilidade e a forma de investir em P&D dependem de ato do Executivo. Há ainda um prazo fácil de perder: pelo art. 11-J, a suspensão de PIS/Cofins (inclusive na importação) e de IPI na compra de equipamentos vale só até 31 de dezembro de 2026, enquanto a suspensão do imposto de importação vale por cinco anos, mas só para componentes e equipamentos sem produção nacional equivalente e incluídos em lista do Poder Executivo (art. 11-C, § 6º) — ou seja, não alcança automaticamente todo servidor importado. Para quem planeja trazer servidores e equipamentos de rede ao Brasil neste ano ou no próximo, a data da regulamentação define se dá para aproveitar essa janela. A outra restrição é a rede elétrica: segundo declaração pública do ministro de Minas e Energia em junho, os pedidos de conexão de data centers somavam cerca de 38 gigawatts (pedidos, não carga contratada); na primeira rodada de acesso à transmissão deste ano, 7 projetos pediram 451 megawatts e só 3, em São Paulo, obtiveram 228 megawatts (segundo o portal setorial eixos). Nossa avaliação: a reeleição pode favorecer a continuidade do Redata, mas o ritmo será ditado pela regulamentação e pela fila de conexão, não pela eleição.

Saúde: medidas para acelerar a análise regulatória; a política industrial depende do Congresso e do Orçamento. Em novembro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a RDC nº 997/2025, com medidas temporárias e excepcionais para reduzir a fila de registro e alterações pós-registro de medicamentos e produtos biológicos e de anuência de pesquisas clínicas, incluindo maior uso de avaliações de autoridades reguladoras estrangeiras, priorização por risco e análise conjunta (segundo análise do escritório Mattos Filho). É uma política já em vigor, e pedidos que se enquadrem no procedimento de confiança regulatória podem andar mais rápido — mas aprovação em outro mercado não atende automaticamente aos requisitos, e o efeito real dependerá dos dados de fila que a Anvisa divulgar; não conseguimos verificar os números mais recentes. Já os principais instrumentos de produção local e transferência de tecnologia — as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) e a estratégia do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) — são eixo da política industrial do governo atual, e a reeleição tende a mantê-los; se isso vai virar contratos de compra depende do orçamento federal da saúde e das alterações do Congresso. Para laboratórios brasileiros que avaliam parcerias com fabricantes chineses de insumos ou biológicos, e para empresas chinesas que buscam registro aqui, o ponto é o mesmo: não encontramos novo acordo intergovernamental Brasil–China em saúde assinado em 2025–2026, e não convém ler o resultado eleitoral como estímulo direto a essa cooperação.

Comércio bilateral: cotas, defesa comercial e, de novo, os EUA. Do lado exportador, o essencial das vendas agrícolas e minerais à China é definido por demanda, preço e política chinesa, com pouca relação com a eleição. Soja, minério de ferro e petróleo somam cerca de três quartos das exportações brasileiras para a China (segundo o CEBC, o Conselho Empresarial Brasil-China); para o pecuarista e o frigorífico, a variável mais concreta é a cota chinesa de carne bovina. Do lado importador, para a indústria brasileira que compete com produtos chineses e para os exportadores chineses que vendem ao Brasil, as variáveis mais diretas são a defesa comercial e a política tarifária: de um lado, os direitos antidumping, como os aplicados ao aço; de outro, a escalada do imposto de importação sobre veículos elétricos. Ambas passam pelo Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior e por outros órgãos técnicos, conforme seus ritos; as medidas atuais seguem em vigor.

Próximos marcos

Se a tese desta análise estiver certa — direção mantida, execução dependente do Congresso e do caixa —, os próximos meses vão trazer evidências para confirmá-la ou corrigi-la:

  • Totalização final e diplomação. O TSE ainda não marcou o resultado do segundo turno como final; pelo calendário eleitoral, a diplomação dos eleitos deve ocorrer até 18 de dezembro (o presidente pelo TSE, os parlamentares pelos tribunais regionais). Eventuais contestações formais da apuração, e a reação a elas, vão definir a temperatura política da transição.
  • Ministério, especialmente a Fazenda. O nome do ministro da Fazenda e suas primeiras declarações serão o primeiro sinal para o mercado sobre a trajetória fiscal de 2027.
  • Tramitação do Orçamento de 2027. O projeto deve ser votado até o fim do ano; o tamanho das mudanças do Congresso em despesas, emendas parlamentares e meta de primário medirá diretamente o custo de negociação entre governo e centro.
  • Eleição das Mesas da Câmara e do Senado, em fevereiro de 2027. Quem vencer, e com quais apoios, definirá a pauta legislativa dos dois anos seguintes.
  • Copom de 3 e 4 de novembro e o câmbio após a abertura de segunda-feira. Se o humor do mercado depois da eleição vai persistir aparecerá primeiro no dólar e na curva de juros.
  • Regulamentação do Redata, dados de fila da Anvisa e negociação da Seção 301. Correspondem a três tipos de incerteza em três frentes — data centers, saúde e comércio: lei aprovada mas sem regulamento, política em vigor ainda sem efeito medido, e variável externa.

A CBI vai acompanhar esses pontos na cobertura das eleições de 2026.

Nota sobre dados: resultados eleitorais dos arquivos oficiais do TSE (presidente, 2º turno; presidente, 1º turno; resultados estaduais e do Congresso publicados por estado no portal de resultados do TSE); 2º turno na posição de 25/10/2026, 21h59 (horário de Brasília), com 99,98% das seções totalizadas, e atualização das 22h46 (99,99%); somas regionais, variações de votos e totais de cadeiras calculados pela CBI. Dados de comércio do Comex Stat, até setembro de 2026. Esta matéria foi produzida pela Redação CBI a partir de fontes públicas; dados e citações trazem suas referências.

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