Lula reeleito, Congresso dividido: o que muda para os negócios entre Brasil e China
Lula venceu o segundo turno com 51,78% dos votos válidos e virou a disputa, mas o PL é a maior bancada da nova Câmara, o centro tem os votos decisivos e a margem fiscal encolheu. Avaliação da CBI: a direção da política é previsível; a execução depende do Congresso, do Orçamento e do cenário externo, e é aí que exportadores, indústria e investidores dos dois lados devem olhar.
Lula venceu o segundo turno depois de terminar o primeiro quase dois pontos atrás e vai começar em 5 de janeiro de 2027 seu quarto mandato presidencial. Mas, quando se coloca lado a lado o Congresso e os governadores eleitos neste ano com o resultado do primeiro turno, de três semanas atrás, o quadro é outro: a continuidade no Palácio do Planalto não significa mais espaço político. O maior partido da nova Câmara dos Deputados é o PL, de oposição; os estados mais populosos serão governados por partidos que não o PT; e a margem fiscal é mais estreita do que há quatro anos.
A tese desta análise é que a direção da política econômica e externa nos próximos quatro anos é razoavelmente previsível, enquanto a capacidade de execução vai depender do custo de negociar com o centro, da restrição fiscal e do cenário externo. Para quem faz negócios entre o Brasil e a China — o exportador brasileiro de soja ou carne, a indústria que compete com importados chineses, a empresa chinesa que investe aqui —, isso significa avaliar setor a setor e projeto a projeto, com mais atenção ao Congresso, ao Orçamento e às regulamentações dos ministérios do que ao presidente. É uma hipótese de trabalho baseada nas evidências públicas disponíveis hoje; as próximas informações vão confirmá-la ou corrigi-la.
Como a disputa virou: primeiro as contas, depois as explicações
Pela apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 21h59 (horário de Brasília) de 25 de outubro, com 99,98% das seções totalizadas e o resultado ainda não marcado como final pelo tribunal, Lula recebeu 64,24 milhões de votos, 51,78% dos válidos; Flávio Bolsonaro, 59,82 milhões, 48,22%. A diferença é de cerca de 4,42 milhões de votos, ou 3,56 pontos percentuais. As seções ainda não totalizadas naquele momento somavam cerca de 34 mil eleitores, insuficientes para alterar o resultado; na atualização das 22h46, com 99,99% das seções, Lula tinha 51,79%. No primeiro turno, há três semanas (resultado já marcado como final pelo TSE), Flávio liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula, uma vantagem de cerca de 2,22 milhões de votos.
Entre os dois turnos, Lula ganhou 10,36 milhões de votos e Flávio, 3,71 milhões. Os 14,07 milhões de votos adicionais fecham com três fontes: os 9,32 milhões dados no primeiro turno aos outros dez candidatos (entre eles Augusto Cury, com 3,45 milhões, Renan Santos, com 2,68 milhões, e Ronaldo Caiado, com 2,61 milhões); o comparecimento 2,93 milhões maior, com a abstenção caindo de 21,08% para 19,22%; e a queda de 1,82 milhão nos votos brancos e nulos somados, de 5,98 milhões para 4,15 milhões. As três parcelas somam exatamente o ganho conjunto dos dois candidatos.
Essa conta mostra de onde vieram os votos a mais, não quem migrou para quem. Os dados de apuração são agregados por território; ler a variação de um estado como "os eleitores de tal candidato foram para Lula" é a clássica falácia ecológica. O comportamento individual só pode ser respondido por pesquisas pós-eleitorais.
Dentro desse limite, três traços são claros. Primeiro, o ganho de Lula foi nacional: nas 27 unidades da federação, ele somou mais votos novos do que Flávio no segundo turno, inclusive em Santa Catarina, no Paraná e em Mato Grosso, onde Flávio venceu com folga. Segundo, a diferença decisiva veio do Sudeste. Em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, Lula ganhou 4,79 milhões de votos e Flávio, 1,94 milhão; só em São Paulo, Lula somou 2,61 milhões a mais. Flávio ainda venceu em São Paulo com 53,85%, mas a distância entre os dois caiu de 13,7 pontos no primeiro turno (calculada sobre todos os válidos) para 7,7 pontos. Terceiro, Minas virou: no primeiro turno Lula teve 43,33% contra 48,24% de Flávio; no segundo, venceu por pouco, com 50,41%. O estado costuma ser visto como termômetro nacional, e mais uma vez acompanhou o resultado do país. O Nordeste continuou sendo a base de Lula, que passou de 63,8% para 69,4% na região.
| Região | 1º turno (Lula / Flávio) | 2º turno, Lula | Votos a mais, Lula | Votos a mais, Flávio |
|---|---|---|---|---|
| Sudeste (SP, MG, RJ, ES) | 39,7% / 51,4% | 47,2% | 4,79 mi | 1,94 mi |
| Nordeste (9 estados) | 63,8% / 30,9% | 69,4% | 2,95 mi | 0,40 mi |
| Sul (PR, RS, SC) | 31,3% / 60,1% | 37,4% | 1,33 mi | 0,87 mi |
| Centro-Oeste (GO, MT, MS, DF) | 32,6% / 56,5% | 40,0% | 0,77 mi | 0,47 mi |
| Norte (7 estados) | 44,6% / 49,2% | 50,0% | 0,47 mi | 0,01 mi |
Nota: no 1º turno, percentual sobre todos os votos válidos (inclui os demais candidatos); no 2º, percentual dos válidos na disputa entre os dois. Exclui votos no exterior. Cálculo da CBI com os arquivos de resultado por estado do TSE, posição de 25/10/2026, 21h59 (horário de Brasília).
Por trás do saldo líquido cabem várias combinações: eleitores de outros candidatos do primeiro turno que preferiram Lula, novos votantes do segundo turno mais inclinados a ele, e fluxos nos dois sentidos — entre os dois candidatos, entre voto válido e branco ou nulo, entre votar e se abster. O saldo não identifica migrações individuais nem exclui perdas de parte do eleitorado original. O que se pode afirmar é que Flávio ainda aumentou sua votação absoluta em 21 unidades da Federação (20 estados e o Distrito Federal), mas bem menos do que o adversário.
Lula vence a Presidência; o PL terá a maior bancada na Câmara
As eleições para o Congresso, realizadas junto com o primeiro turno em 4 de outubro, já estão definidas (os arquivos estaduais do TSE estão marcados como finais). Na nova Câmara, de 513 cadeiras, o PL, partido de Flávio, elegeu 121 deputados e é a maior bancada; o PT, de Lula, elegeu 70. Partidos podem formar federações, que atuam como um único bloco no Legislativo por pelo menos quatro anos: a Federação Brasil da Esperança, do PT, soma 88 cadeiras; a federação de União Brasil e PP, 87; as demais se distribuem por mais de dez partidos (tabela abaixo).
| Partido ou federação | Cadeiras na Câmara (de 513) |
|---|---|
| PL | 121 |
| Federação Brasil da Esperança (PT 70, PCdoB 11, PV 7) | 88 |
| Federação União Brasil–PP (União 46, PP 41) | 87 |
| PSD | 43 |
| Republicanos | 41 |
| MDB | 36 |
| Podemos | 27 |
| PSB | 15 |
| Federação PSOL–Rede | 15 |
| Federação PSDB–Cidadania | 11 |
| Novo | 10 |
| Outros (PDT 6, Avante 5, PRD 5, Solidariedade 2, Missão 1) | 19 |
Nota: soma da CBI a partir dos resultados de deputado federal das 27 unidades da Federação no TSE, posição de 25/10/2026. A eleição só se formaliza com a diplomação pelos tribunais regionais eleitorais; trocas de partido e rearranjos de federação podem mudar a correlação real de forças.
No Senado, estavam em disputa 54 das 81 cadeiras. Entre os 54 eleitos, o PL ficou com 19, o MDB com 7 e o PT com 6. As outras 27 cadeiras seguem com senadores eleitos em 2022, com mandato até 2031; a composição completa depende de somar esses 27, e a base do governo ainda não está formada.
Por trás dos números há uma aritmética simples. Lei ordinária exige maioria simples dos presentes; lei complementar, maioria absoluta nas duas Casas (257 deputados e 41 senadores); emenda constitucional, dois turnos de votação em cada Casa com três quintos dos votos (308 deputados e 49 senadores). Pela classificação ideológica usual (classificação da CBI, não oficial), a federação do PT mais PSB, PSOL–Rede e PDT somam cerca de 124 deputados; PL, Novo e Missão, cerca de 132. Os demais partidos somam 257 cadeiras, exatamente a maioria absoluta da Câmara, mas não votam como bloco, e sua posição precisa ser avaliada pauta a pauta. Em outras palavras, a aprovação da agenda do governo dependerá de alianças que podem variar conforme a pauta, com peso decisivo de partidos sem alinhamento fixo, como PSD, MDB, Republicanos e a federação União–PP; e o PL, como maior bancada, tem peso na definição de pauta, na distribuição das comissões e na eleição do presidente da Câmara. A eleição das Mesas das duas Casas, em fevereiro de 2027, será o primeiro indicador observável de poder do novo mandato.
Nos estados, o mapa também não pende para um lado só. Entre os 27 governadores, o PT venceu na Bahia, no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte. São Paulo (Tarcísio de Freitas, do Republicanos, reeleito no primeiro turno com 62,65%), Minas Gerais (Republicanos), Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina (os quatro com o PL) — estados de grande peso econômico e populacional — serão governados por outros partidos. Por legenda, o PL tem 6 governos estaduais; o PSD, 5 (incluindo o Amazonas, cujo segundo turno, já totalizado e marcado como final pelo TSE, elegeu Omar Aziz); PP, PT e Republicanos, 4 cada. Os governos estaduais controlam incentivos de ICMS (que serão extintos gradualmente na transição da reforma tributária), licenciamento ambiental e aprovações de infraestrutura local — com frequência, um peso mais direto sobre projetos de investimento estrangeiro do que o da esfera federal.
Por isso, a reeleição de Lula é, antes de tudo, continuidade do Executivo: política externa, ministérios e estatais devem manter a orientação atual. Tudo o que depende de lei — Orçamento, regulamentação tributária, reformas regulatórias — terá de ser negociado item a item num Congresso em que o centro tem os votos decisivos e a oposição tem a maior bancada. Para as empresas, a pergunta útil não é "o que o presidente quer fazer", e sim "o que não precisa do Congresso e o que o Congresso vai mudar".
Juros em queda, mas um Orçamento com pouca folga para o novo mandato
O pano de fundo macroeconômico cabe em alguns números oficiais. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic de 14,00% para 13,75% em 16 de setembro, o quinto corte do atual ciclo; a próxima reunião é em 3 e 4 de novembro (BCB, série 432). O IPCA subiu 0,82% em setembro e acumula 4,58% em 12 meses, um pouco acima do teto de 4,5% (meta de 3%, com tolerância de 1,5 ponto; desde 2025 vale a meta contínua, e só há descumprimento após seis meses seguidos fora do intervalo) (IBGE). O mercado está mais pessimista: no Focus de 16 de outubro, a mediana para o IPCA de 2026 era 5,22% e, para 2027, 4,32%; a Selic esperada para o fim de cada ano, 13,25% e 12,00%; e o crescimento do PIB em 2027, apenas 1,32% (BCB, Focus).
A restrição de verdade é fiscal. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,87% do PIB em agosto de 2026, o nível mais alto desde março de 2021 (BCB, série 13762); nos 12 meses até agosto, o setor público consolidado (incluindo governos regionais e estatais) teve déficit primário de 0,62% do PIB (BCB, série 5793). Pelo arcabouço fiscal de 2023, a LDO de 2026 fixou o centro da meta de resultado primário do governo central em superávit de 0,25% do PIB. O relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado de 20 de agosto aponta que tanto a IFI quanto o governo projetam um déficit primário efetivo do governo central de cerca de 0,4% do PIB em 2026, e que o cumprimento formal da meta depende das deduções legais e da banda de tolerância (IFI, RAF nº 115); vale notar que a meta do governo central e o dado consolidado do setor público têm bases diferentes. O projeto de Orçamento de 2027, enviado ao Congresso em 31 de agosto, fixa a meta em 0,5% do PIB, segundo a imprensa, enquanto o próprio governo projeta um superávit efetivo bem menor, com a diferença novamente coberta por deduções previstas nas regras.
Todas as promessas de gasto da campanha terão de caber nesse quadro; o que envolver despesa obrigatória, nova autorização orçamentária ou mudança de lei passa pelo Congresso, salvo ajustes administrativos dentro de autorizações já existentes. A reforma do consumo segue o calendário já fixado: 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS; em 2027 a CBS federal passa a ser cobrada no lugar de PIS/Cofins; o ICMS e o ISS começam a ser extintos gradualmente a partir de 2029. Esse calendário está em emenda constitucional e lei complementar e não muda com a eleição, mas a alíquota da CBS e vários pontos de regulamentação ainda estão em definição, com efeito direto sobre carga tributária e preços.
Segundo a Bloomberg Línea, em reportagem das 21h32 de 25 de outubro, depois de definido o resultado o dólar futuro negociado em Chicago subiu cerca de 10%, para cerca de R$ 5,52, e o ETF de ações brasileiras listado em Tóquio abriu em queda de 13% (reportagem); a PTAX de venda de 23 de outubro, divulgada pelo Banco Central, foi de R$ 5,0377. A liquidez noturna é limitada; os preços após a abertura do mercado local na segunda-feira serão referência melhor.
Entre China e Estados Unidos: não é escolher um lado, são duas contas separadas
A estrutura das relações econômicas externas do Brasil não mudou com a eleição: a China é o maior destino das exportações brasileiras, e os Estados Unidos são fonte relevante de investimento e mercado para produtos industriais. Pelo Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025 o Brasil exportou US$ 99,94 bilhões para a China e importou US$ 70,92 bilhões; para os EUA, exportou US$ 37,68 bilhões e importou US$ 45,14 bilhões. De janeiro a setembro de 2026, as exportações para a China somaram US$ 84,68 bilhões, alta de 12,0% sobre os US$ 75,58 bilhões do mesmo período do ano anterior; para os EUA, US$ 27,46 bilhões, queda de 6,5% sobre US$ 29,37 bilhões. Com a China, o Brasil tem superávit amplo; com os EUA, déficit.
A queda das vendas aos EUA coincide com a mudança tarifária americana, mas não pode ser atribuída só a ela. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA decidiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza a cobrança de tarifas, e as sobretaxas aplicadas ao Brasil com base nessa lei perderam efeito (análise do DLA Piper). Em seguida, Washington passou a usar a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974: em 15 de julho, o Representante Comercial dos EUA (USTR) anunciou tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, em uma investigação que trata de comércio digital e pagamentos eletrônicos, acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual e desmatamento ilegal (comunicado do USTR). A medida não tem relação direta com quem venceu a eleição. Nossa inferência é que a postura negociadora brasileira tende a seguir a linha atual: não escalar o confronto, mas também não ceder facilmente nos temas apontados, como pagamentos digitais e etanol.
Com a China, também prevalece a continuidade. O Brasil não aderiu formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota; na visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, a Brasília, em novembro de 2024, os dois governos falaram em articular programas brasileiros como a Nova Indústria Brasil com a iniciativa chinesa (Jornal de Brasília). Lula visitou a China em maio de 2025 e assinou um conjunto de documentos de cooperação em energia, agricultura e infraestrutura. A linha do governo atual é fazer contas separadas com cada potência: com a China, ampliar exportações agrícolas e minerais e atrair investimento em energia renovável e infraestrutura, usando ao mesmo tempo a defesa comercial para proteger a indústria nacional; com os EUA, buscar a redução de tarifas.
A relação com a China também tem atritos, e a maioria independe de quem ocupa o Planalto. A China aplica cotas por país à carne bovina importada, com sobretaxa sobre o volume excedente; em entrevista coletiva em 6 de outubro, um dirigente da Secretaria de Comércio Exterior disse que as exportações de carne bovina para a China em setembro caíram 93,5% em relação ao mesmo mês de 2025, porque a cota se esgotou e o excedente passou a pagar sobretaxa (a reportagem não informa se a comparação é em valor ou em volume; DGABC). Na outra direção, o Brasil aplicou neste ano direitos antidumping sobre aços laminados a frio e revestidos da China; a tarifa de importação de carros elétricos, segundo a imprensa, chegou a 35% em julho; e a Lei nº 15.506/2026, em vigor desde setembro, submete a análise a aquisição, por pessoa jurídica estrangeira, de participação relevante em empresas de minerais críticos, ainda sem regulamentação. Essas medidas são conduzidas pelo Executivo, por comitês técnicos e pelo Congresso, e continuam em vigor; a eleição não as altera diretamente, e eventuais mudanças dependem de seus próprios ritos legais.
O que acompanhar nos dois sentidos: data centers, saúde e comércio
Data centers e energia: a lei existe; a barreira está na regulamentação e na rede. Interessa tanto aos operadores que querem instalar data centers no Brasil quanto aos fornecedores chineses de servidores e equipamentos de rede. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) foi criado por medida provisória, que perdeu a validade sem ser convertida em lei; o Congresso o aprovou depois como projeto de lei, sancionado por Lula em 15 de setembro de 2026 como Lei nº 15.504/2026 (texto da lei). A lei está em vigor, mas o benefício depende de regulamentação e de habilitação pela Receita Federal. As condições são detalhadas: ao menos 10% do fornecimento efetivo de processamento, armazenagem e tratamento de dados destinado ao mercado interno (ou, alternativamente, investimento adicional em P&D equivalente a 10% do valor das compras com benefício); toda a energia proveniente de contratos ou geração própria de fontes renováveis ou de baixa emissão; eficiência hídrica (WUE) de até 0,05 litro por quilowatt-hora; investimento em P&D local de 2% do valor dos equipamentos adquiridos com o benefício; e redução de 20% nas contrapartidas de mercado interno e de P&D para projetos no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste. O que falta é a regulamentação: a lei remete várias vezes a "regulamento", e o processo de habilitação, os indicadores de sustentabilidade e a forma de investir em P&D dependem de ato do Executivo. Há ainda um prazo fácil de perder: pelo art. 11-J, a suspensão de PIS/Cofins (inclusive na importação) e de IPI na compra de equipamentos vale só até 31 de dezembro de 2026, enquanto a suspensão do imposto de importação vale por cinco anos, mas só para componentes e equipamentos sem produção nacional equivalente e incluídos em lista do Poder Executivo (art. 11-C, § 6º) — ou seja, não alcança automaticamente todo servidor importado. Para quem planeja trazer servidores e equipamentos de rede ao Brasil neste ano ou no próximo, a data da regulamentação define se dá para aproveitar essa janela. A outra restrição é a rede elétrica: segundo declaração pública do ministro de Minas e Energia em junho, os pedidos de conexão de data centers somavam cerca de 38 gigawatts (pedidos, não carga contratada); na primeira rodada de acesso à transmissão deste ano, 7 projetos pediram 451 megawatts e só 3, em São Paulo, obtiveram 228 megawatts (segundo o portal setorial eixos). Nossa avaliação: a reeleição pode favorecer a continuidade do Redata, mas o ritmo será ditado pela regulamentação e pela fila de conexão, não pela eleição.
Saúde: medidas para acelerar a análise regulatória; a política industrial depende do Congresso e do Orçamento. Em novembro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a RDC nº 997/2025, com medidas temporárias e excepcionais para reduzir a fila de registro e alterações pós-registro de medicamentos e produtos biológicos e de anuência de pesquisas clínicas, incluindo maior uso de avaliações de autoridades reguladoras estrangeiras, priorização por risco e análise conjunta (segundo análise do escritório Mattos Filho). É uma política já em vigor, e pedidos que se enquadrem no procedimento de confiança regulatória podem andar mais rápido — mas aprovação em outro mercado não atende automaticamente aos requisitos, e o efeito real dependerá dos dados de fila que a Anvisa divulgar; não conseguimos verificar os números mais recentes. Já os principais instrumentos de produção local e transferência de tecnologia — as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) e a estratégia do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) — são eixo da política industrial do governo atual, e a reeleição tende a mantê-los; se isso vai virar contratos de compra depende do orçamento federal da saúde e das alterações do Congresso. Para laboratórios brasileiros que avaliam parcerias com fabricantes chineses de insumos ou biológicos, e para empresas chinesas que buscam registro aqui, o ponto é o mesmo: não encontramos novo acordo intergovernamental Brasil–China em saúde assinado em 2025–2026, e não convém ler o resultado eleitoral como estímulo direto a essa cooperação.
Comércio bilateral: cotas, defesa comercial e, de novo, os EUA. Do lado exportador, o essencial das vendas agrícolas e minerais à China é definido por demanda, preço e política chinesa, com pouca relação com a eleição. Soja, minério de ferro e petróleo somam cerca de três quartos das exportações brasileiras para a China (segundo o CEBC, o Conselho Empresarial Brasil-China); para o pecuarista e o frigorífico, a variável mais concreta é a cota chinesa de carne bovina. Do lado importador, para a indústria brasileira que compete com produtos chineses e para os exportadores chineses que vendem ao Brasil, as variáveis mais diretas são a defesa comercial e a política tarifária: de um lado, os direitos antidumping, como os aplicados ao aço; de outro, a escalada do imposto de importação sobre veículos elétricos. Ambas passam pelo Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior e por outros órgãos técnicos, conforme seus ritos; as medidas atuais seguem em vigor.
Próximos marcos
Se a tese desta análise estiver certa — direção mantida, execução dependente do Congresso e do caixa —, os próximos meses vão trazer evidências para confirmá-la ou corrigi-la:
- Totalização final e diplomação. O TSE ainda não marcou o resultado do segundo turno como final; pelo calendário eleitoral, a diplomação dos eleitos deve ocorrer até 18 de dezembro (o presidente pelo TSE, os parlamentares pelos tribunais regionais). Eventuais contestações formais da apuração, e a reação a elas, vão definir a temperatura política da transição.
- Ministério, especialmente a Fazenda. O nome do ministro da Fazenda e suas primeiras declarações serão o primeiro sinal para o mercado sobre a trajetória fiscal de 2027.
- Tramitação do Orçamento de 2027. O projeto deve ser votado até o fim do ano; o tamanho das mudanças do Congresso em despesas, emendas parlamentares e meta de primário medirá diretamente o custo de negociação entre governo e centro.
- Eleição das Mesas da Câmara e do Senado, em fevereiro de 2027. Quem vencer, e com quais apoios, definirá a pauta legislativa dos dois anos seguintes.
- Copom de 3 e 4 de novembro e o câmbio após a abertura de segunda-feira. Se o humor do mercado depois da eleição vai persistir aparecerá primeiro no dólar e na curva de juros.
- Regulamentação do Redata, dados de fila da Anvisa e negociação da Seção 301. Correspondem a três tipos de incerteza em três frentes — data centers, saúde e comércio: lei aprovada mas sem regulamento, política em vigor ainda sem efeito medido, e variável externa.
A CBI vai acompanhar esses pontos na cobertura das eleições de 2026.
Nota sobre dados: resultados eleitorais dos arquivos oficiais do TSE (presidente, 2º turno; presidente, 1º turno; resultados estaduais e do Congresso publicados por estado no portal de resultados do TSE); 2º turno na posição de 25/10/2026, 21h59 (horário de Brasília), com 99,98% das seções totalizadas, e atualização das 22h46 (99,99%); somas regionais, variações de votos e totais de cadeiras calculados pela CBI. Dados de comércio do Comex Stat, até setembro de 2026. Esta matéria foi produzida pela Redação CBI a partir de fontes públicas; dados e citações trazem suas referências.
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