Nuvemshop reforça investimento em logística e abre CD no Rio
Alejandro Vázquez, cofundador e presidente da Nuvemshop (Foto: Divulgação)
Enquanto Shopee , Mercado Livre e Amazon se engalfinham na briga dos marketplaces – trazendo como vendedores, inclusive, antigos desafetos do varejo local – um outro nome vem correndo por fora com uma proposta diferente: oferecer muitos dos benefícios que as plataformas têm, mas trabalhando a construção de marca e canais próprios do vendedor. Com sua proposta de direto ao consumidor (ou D2C), a argentina Nuvemshop soma 180 mil lojas cadastradas e quer processar 10% do e-commerce no Brasil em 10 anos.
E um dos principais motores de crescimento é o investimento em logística . A companhia, inclusive, acaba de inaugurar seu quarto centro de distribuição no Brasil, no estado do Rio de Janeiro. A unidade opera em modelo cross-dock e é a segunda a entrar em operação em 2026, depois de Blumenau, em Santa Catarina, no primeiro semestre. Com ela, a malha própria passa a cobrir Rio, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina.
A Nuvemshop não revela o tamanho do investimento, mas a estrutura foi desenhada para processar 145,2 mil pacotes por mês, o equivalente a R$ 37,6 milhões em mercadorias, em um modelo de capacidade modular que cresce conforme o volume. A expectativa da empresa é reduzir em pelo menos 20% o custo de frete dos lojistas e cortar até cinco dias no prazo de entrega, dependendo da região de destino. A estimativa é que a redução de cada dia no prazo de envio pode aumentar a taxa de conversão do e-commerce em até 3%. A operação roda sob a marca Nuvem Envio , construída a partir da Mandaê , que foi comprada em outubro de 2021 depois da captação de R$ 2,6 bilhões .
“Potencializar o D2C é dar uma experiência muito fácil de compra, sem fricção, que inclui entrega rápida, entrega barata, E que o que você promete aconteça. Se você fala que vai chegar em até 4 horas, que chegue. Porque custo e tempo impactam na conversão. E a confiança na entrega impacta na recompra.”, disse Alejandro Vázquez, cofundador e presidente da Nuvemshop , em entrevista ao Startups .
Por que o Rio agora?
A escolha do estado tem duas justificativas principais.
O Rio é hoje o quarto maior mercado em faturamento de pequenas e médias empresas dentro da Nuvemshop , com crescimento de 33% na comparação anual. Mais de 66% dos itens comprados por consumidores fluminenses na plataforma são produzidos em estados onde a companhia já tem operação logística – São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina –, o que permite ligar os polos numa malha integrada em vez de operar unidades isoladas.
“O Rio é um mercado muito pulsante, rico em marcas que exportam para diversos estados no Brasil”, disse Thammer Manzoni, diretor de Nuvem Envio no Brasil, em comunicado. “O timing é estratégico: o mercado demanda, as marcas pedem, e nós estamos respondendo.”
Logística como prioridade
A razão do investimento está na tese que organiza toda a estratégia da empresa: fortalecer a venda direta ao consumidor, o D2C, das marcas que usam a plataforma. Alejandro cita o exemplo de uma garrafa de água. O produto é o mesmo e tem o mesmo preço em qualquer canal de venda. Se no marketplace a entrega chegar amanhã e no e-commerce da marca, na semana que vem, a opção é natural.
Com os investimentos em logística, o plano é equilibrar as propostas de valor e fazer com que a logística não seja tida apenas como uma operação de back-office, mas sim como estratégia de diferenciação. “Quem consegue vender direto para o consumidor tem um relacionamento direto com o cliente, constrói um relacionamento de longo prazo, pode definir as regras de negócio. Não tem um intermediário que pode mudar as regras e matar o negócio. E, em geral, conseguem ter melhor margem”, pontuou Alejandro.
Nesse sentido, além do investimento em estrutura própria, a Nuvemshop fechou uma parceria com o iFood para usar a malha de entregadores do aplicativo para entregas no mesmo dia. Os números divulgados: média de duas horas, metade dos pedidos em pouco mais de uma hora e quase nove em cada dez em até quatro horas. “Hoje à noite tem que vestir uma camisa nova? Agora você pode receber em questão de horas”, disse Vázquez. “Isso originalmente era só dos marketplaces”, completou.
Do ponto de vista de negócios, a logística é vista como um bom gerador de receitas. Mas um negócio de margens baixas. Alejandro admite que a operação não tem planos de se tornar um centro de lucro para a Nuvemshop. “Logística tem uma contribuição em receita, mas não é onde a gente ganha dinheiro, porque tudo que a gente consegue tornar mais eficiente, reduzir custo, a gente traduz em redução de custo para o nosso cliente”, explicou.
Meli, Shopee e o meu CD é maior que o seu
O movimento da Nuvemshop chega num momento em que dois dos maiores marketplaces do país estão em outro patamar de investimento em centros de distribuição próprios.
O Mercado Livre anunciou em março R$ 57 bilhões de investimento no Brasil em 2026 – 50% mais que os R$ 38 bilhões de 2025 –, com a maior parte destinada à expansão da malha logística. A companhia opera 42 centros de distribuição no modelo de fulfillment e planeja abrir outros 14, crescimento de 50% nesse tipo de instalação. O Meli também comprou ativos logísticos da Loggi em São Paulo e no Rio.
A Shopee saiu de 16 para 26 centros de distribuição no Brasil entre o fim de 2025 e meados de 2026, alta superior a 60%. São 21 unidades de cross-docking e cinco de fulfillment. Das quatro abertas no primeiro semestre, uma está na região metropolitana do Rio e outra em Minas Gerais – os mesmos estados onde a Nuvemshop está se instalando.
Questionado sobre como competir com essa escala, Alejandro não tentou equiparar os números. “Não precisamos investir do mesmo jeito”, respondeu. “A gente se alavanca muito na malha logística, assim como no caso do iFood. Tem outros tantos parceiros onde nos alavancamos justamente para não ter que fazer esse deploy de capital tão agressivo”, disse. E emendou: “No final das contas, o que importa não é quem tem o CD maior. É quem entrega mais rápido, mais barato e com confiança”, cravou.
Segundo ele, a Nuvemshop trabalha com mais de 30 transportadoras e escolhe a escolhe a que faz mais sentido para cada rota. Essa fragmentação, que normalmente é tratada como uma barreira, segundo ele, acaba sendo uma vantagem. “Nos Estados Unidos é muito simples. Quatro fornecedores entregam tudo. Aqui são centenas, literalmente. “Mesmo grandes marcas que estão pensando em ter cinco, seis, sete fornecedores, é um caos operacional”, disse. “E nunca vão conseguir negociar do mesmo jeito que a gente negocia, pelo tamanho que a gente já tem hoje”, avaliou.
Outras alavancas de crescimento
A logística é uma frente importante, mas é uma das três vertentes de crescimento da Nuvemshop , que nos últimos anos deixou de ser apenas uma empresa de SaaS que ajuda pequenas empresas a venderem na internet.
A segunda vertente é o negócio de fintech. O Nuvem Pago , meio de pagamento próprio criado em 2021, já responde por uma parcela relevante da receita e passou a oferecer crédito. Para atrair os lojistas, a proposta é que quem usa o serviço deixa de pagar o custo por venda da plataforma. Segundo Alejandro, isso torna o take rate total “dois, três pontos” mais eficiente do que contratar fornecedores separados, com impacto direto na última linha do vendedor.
Mas o diferencial que ele destaca em pagamentos não é preço, é conversão. A Nuvemshop registrou mais de 30 milhões de consumidores que compraram em alguma loja cliente nos últimos 12 meses. Como a plataforma é única, ela permite reconhecer um cliente que já comprou em uma marca e oferecer checkout em um clique e outra, como fazem os marketplaces.
A terceira frente é a inteligência artificial . Com investimento concentrado nos últimos dois anos, os objetivos são basicamente dois: vender mais e operar com mais eficiência. Do lado de vendas, o Nuvem Chat é um agente que atua no WhatsApp e no Instagram – aposta ancorada em um dado que Vázquez diz ainda achar surpreendente: 70% das vendas online no Brasil e na América Latina envolvem algum tipo de interação entre marca e consumidor. Do lado da eficiência, o Lumi permite que o lojista mude layout, crie promoções e peça recomendações de estoque por prompt. A visão declarada é sair do copiloto para o “piloto automático”.
A companhia também mantém conectores homologados com Anthropic e OpenAI, para que o lojista administre a loja de dentro do Claude ou do ChatGPT, e trabalha com OpenAI, Anthropic, Google e Meta na adaptação de catálogos para o comércio agêntico.
A virada para as grandes marcas
A Nuvemshop nasceu em 2011, na Argentina, vendendo para pequenos negócios. Há quatro anos, o foco mudou. “O foco nos últimos quatro anos, e vai continuar sendo, é no Nuvemshop Next , que é para grandes marcas e marcas em expansão”, disse Alejandro.
Os volumes transacionados por esse segmento justificam a mudança de rota. “Nossos maiores clientes vendem acima de um bi. Temos clientes que fazem 30 mil pedidos em apenas um dia. Numa data especial, vendem R$ 10 milhões em apenas uma hora”, conta o fundador. A empresa mantém um plano gratuito e diz que atender pequenos continua fazendo parte de sua missão. Mas o foco de desenvolvimento de produto, investimentos e posicionamento da marca está no mid-market enterprise.
Hoje a Nuvemshop tem mais de 180 mil marcas na plataforma, das quais mais de 100 mil no Brasil, movimentando mais de R$ 15 bilhões em GMV por ano. A receita vem crescendo acima de 70% ao ano e desde 2020, já avançou 21 vezes – contra duas vezes de plataformas públicas comparáveis e quatro vezes de uma americana, segundo Alejandro. A companhia opera no México, Argentina, Colômbia e Chile, mas trata o Brasil como mercado prioritário.
A companhia não abre dados de faturamento, mas de acordo com o fundador, este ano vão ultrapassar a receita de um concorrente de capital aberto. Perguntado, ele não quis dizer qual.
Em sua trajetória de subir na escala de clientes, a Nuvemshop tem entrado no território que é ocupado pela VTEX . A companhia brasileira listada na NYSE teve receita de US$ 240,5 milhões em 2025.
Para onde a empresa está mirando
A ambição declarada é processar 10% de todo o e-commerce brasileiro nos próximos dez anos e chegar a um milhão de marcas na plataforma. A referência para essas projeções é a operação na Argentina, onde a Nuvemshop já processa 10% do e-commerce e a plataforma de 60% das lojas virtuais do país.
Sobre levantar mais capital para financiar seus planos de expansão, Alejandro disse não ter necessidade nem pressa. “Enxergamos fazer eventualmente um IPO, sem dúvidas, mas não é um objetivo de curto prazo. A gente está super bem capitalizado com os US$ 600 milhões que captamos em 2021”, completou.
O espaço para crescer, no argumento dele, está no tamanho do que ainda não é digital: apenas cerca de 15% do varejo brasileiro passa pelo e-commerce, e muitas marcas sequer têm canal próprio de venda online.
Sobre uma concorrência com plataformas que facilitam o desenvolvimento de software com ajuda de IA, Alejandro disse não temer uma substituição de sistemas. “Se a gente tivesse ficado onde estávamos há seis, sete anos atrás, onde éramos só plataforma de e-commerce, hoje eu estaria muito preocupado.”
Ele contou que já vê clientes usando vibe coding para construir integrações e aplicativos em torno da plataforma – programas de afiliados sob medida, por exemplo –, não para substituí-la. “Pagamentos, fraude, a inteligência de performance para o Brasil, os dados de 30 milhões de consumidores. Ninguém vai resolver isso sozinho”, avaliou.