Enamed pressiona faculdades de Medicina e impulsiona reorganização do mercado de ensino
A implementação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e a atualização das diretrizes curriculares de Medicina estão provocando mudanças no mercado de educação médica brasileiro. Diante da possibilidade de sanções por baixo desempenho e de novas exigências para a formação dos estudantes, instituições de ensino têm buscado parcerias, tecnologias e mudanças nos modelos acadêmicos para melhorar seus resultados.
Os movimentos já aparecem no mercado. A Inspirali, grupo de educação médica da Ânima Educação, anunciou uma parceria de 20 anos com o Einstein Hospital Israelita para aprimorar o ensino em 15 faculdades de Medicina. Outra movimentação envolve a Yduqs e a Afya, que anunciaram uma fusão em setembro, em um cenário de maior pressão regulatória e de avaliação da qualidade dos cursos.
As mudanças ocorrem em meio ao debate sobre a expansão das vagas de Medicina no Brasil. No último dia 10 de outubro, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou a continuidade da abertura de cursos por decisões judiciais que desconsideram critérios do Ministério da Educação (MEC) e o entendimento firmado pela Corte em 2024. Segundo dados do Enamed 2025 citados pelo ministro, apenas 30,8% dos 13 cursos nessa situação avaliados pelo exame alcançaram desempenho satisfatório.
Além da avaliação, as faculdades precisam se adaptar às diretrizes curriculares atualizadas em 2025, que reforçam a formação baseada em competências, a integração entre teoria e prática e o compromisso com o Sistema Único de Saúde (SUS).
“Não é uma adequação só ao exame, são coisas que estão diretamente conectadas. Tivemos em 2025 a aprovação da nova diretriz curricular de Medicina, que é uma diretriz mais baseada em competências, com maior integração entre prática e teoria, cuidado centrado na pessoa, atuação em diferentes níveis de atenção e compromisso com o SUS”, explica Juliano Griebeler, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup).
A Medida Provisória nº 1.370, de 2026, que estabelece novas regras para o Enamed, ainda aguarda sanção presidencial. O texto prevê avaliações no segundo, quarto e sexto anos da graduação e vincula a concessão do registro profissional ao desempenho satisfatório, conforme as regras de aplicação previstas na medida. O exame também passa a integrar o processo de revalidação de diplomas médicos obtidos no exterior. Até o momento, o Enamed já teve duas edições, a última realizada em 13 de setembro.
Parcerias e como o setor o setor está se organizando
Dos grandes movimentos já anunciados, o mais recente foi o da Inspirali e do Einstein. Serão 15 faculdades envolvidas no acordo que contarão com revisão de conteúdos, aprimoramento dos métodos de ensino e preparação dos estudantes para a prática profissional. A parceria tem prazo de 20 anos, com possível renovação, e deve surtir efeitos nos resultados do Enamed.
No caso da fusão entre Yduqs e Afya, que juntas possuem cerca de 5,9 mil vagas anuais de medicina, estimativas do mercado apontam que cerca de 15% das vagas de medicina da Yduqs e 6% da Afya podem ser afetadas pelo Enamed, devido a resultados insatisfatórios. Isso pode impedir a abertura de novas turmas por período determinado pelo MEC ou reduzir o número de vagas.
“Tanto as instituições quanto os alunos estão mais cientes do Enamed, da sua importância tanto a carreira dos estudantes quanto para avaliação do ensino e da aprendizagem. Por isso, há mais atenção também para entender o que essa nova prova está cobrando dos alunos para garantir que eles estão aptos a exercer a profissão ”, observa Juliano, da Anup.
Edgar Jacobs, advogado e consultor em Direito Educacional, explica ainda que há no mercado empresas como a PreparaEdu, que oferece soluções de acompanhamento da aprendizagem. Através de avaliações, a plataforma oferece, com base em dados e apoio de inteligência artificial, mudanças na grade curricular e nos conteúdos trabalhados. A empresa é parceira de 32 instituições de ensino do Brasil.
Também há casos de universidades que fazem exames preparatórios e cursinhos para estudantes às vésperas da prova. Contudo, há críticas sobre o método utilizado. “ Os movimentos mais frágeis são movimentos de reposicionamento de mercado, de tentativa de responder exclusivamente a uma melhor capacidade dos estudantes para responderem provas. Eles se tornam bons respondedores de questões para que o seu desempenho, ficticiamente ou não, seja melhor avaliado no momento da prova”, explica Estevão Toffoli Rodrigues , diretor-presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem).
A Associação também tem desenvolvido o projeto “Rever – Formação Médica para o Brasil: onde estamos e para onde vamos?”. De acordo com Rodrigues, a ideia é reaquecer o debate sobre a educação médica e discutir o que é fundamental ou não, fazendo as instituições associadas olharem para dentro de casa e reorganizarem o ensino, com base no que é importante para a saúde da população.
“O Enamed traz uma orientação dando ênfase na atenção primária, nas condições mais prevalentes, em urgência e emergência, que são muito fundamentais. Temos movimentos muito meritórios que as escolas devem ter feito e outros que são mais questionáveis”, avalia.
Defasagens e críticas
Apesar da atualização, ainda há críticas das instituições sobre o Enamed. Uma delas recai sobre a previsibilidade e as sanções relacionadas ao primeiro exame. Isso porque, sendo uma novidade para alunos e universidades, especialistas defendem que a edição de 2025 deveria ter sido utilizada como um teste, para inclusive medir a progressão antes de aplicar punições.
“Essa fase experimental ensinou muita coisa para o MEC, inclusive, como por exemplo que as regras têm que ser publicadas todas antes, não só as regras gerais, mas a metodologia. Faz diferença quando isso ocorre só depois, com o procedimento em andamento”, afirma o advogado Edgar Jacobs.
Juliano Griebeler, da Anup, reforça a questão da previsibilidade. Temos que ter a nota técnica para entender o que tem que ser feito, como o aluno será cobrado e como a instituição será avaliada. O principal ponto do setor hoje em dia conseguir ter isso com antecedência suficiente, assim como essas provas serão aplicadas, como que a instituição tem que levar para os alunos, como se portar e o que fica no histórico”, afirma.
De acordo com Estevão Toffoli Rodrigues, da Abem, existem quatro grandes eixos no ensino da Medicina no Brasil que precisam avançar. O Enamed e a mudança curricular podem colaborar, mas ainda é preciso que governo e instituições trabalhem para melhorar ainda mais a qualidade dos médicos brasileiros.
Segundo o diretor-presidente, elas são a qualificação de professores, o debate sobre avaliações, a integração entre serviço e ensino e a profissionalização gestão das escolas médicas. “Temos que ter capacidade de que escolas médicas e serviços de saúde tenham uma troca contínua. Ou seja: todo o sistema de saúde é um sistema de saúde-escola. Todo lugar onde há médicos no sistema de saúde é um lugar de formação médica”, observa, reforçando que os campo de estágio e a residência permanecem como desafios.