Legaltech apoiada pela Aleve quer prever decisões de juízes
Patrícia Carvalho dos Santos, fundadora da DeltaAI (Imagem: Divulgação)
A DeltaAI , legaltech brasileira que usa inteligência artificial para ajudar empresas a prever decisões judiciais, acaba de entrar no portfólio da Aleve LegalTech Ventures , venture builder especializada no setor jurídico . A startup desenvolveu uma ferramenta que analisa o histórico de decisões de magistrados em todo o país para identificar padrões e ajudar departamentos jurídicos a definir estratégias processuais com base em dados.
Batizado de Painel de Magistrados, o produto integra um portfólio de três soluções lançadas pela DeltaAI em março de 2026. A empresa já se aproxima de R$ 1 milhão em faturamento com as ferramentas e projeta triplicar a receita em 2027, chegando a R$ 3 milhões, segundo Patrícia Carvalho dos Santos, fundadora e CEO da startup, em entrevista ao Startups .
A proposta é transformar informações que tradicionalmente ficam dispersas em processos judiciais e planilhas em análises que ajudem as empresas a decidir como conduzir disputas, priorizar acordos e distribuir equipes. A tecnologia não determina o resultado de um processo, mas identifica tendências no histórico decisório dos juízes para apoiar a avaliação de riscos.
Em um projeto para um cliente do setor financeiro, a DeltaAI mapeou 780 magistrados. Segundo Patrícia, o trabalho ampliou a visibilidade sobre o histórico de decisões e indicou um potencial de redução de até 33% nos custos operacionais com processos, a partir de mudanças na distribuição das equipes e na priorização de audiências e acordos.
“O jurídico sempre soube, pela experiência acumulada, que alguns juízes decidem de forma diferente. O que muda agora é que esse conhecimento deixa de ser pontual e passa a ser um cenário estatístico, capaz de orientar decisões”, afirma a executiva.
Patrícia estima que um levantamento que antes levava cerca de três meses pode ser realizado em até um quarto desse tempo com a ferramenta. O trabalho envolve profissionais de Legal Operations, ou Legal Ops, responsáveis por organizar e analisar informações para melhorar a eficiência das operações jurídicas.
Parceria com a Aleve
Anunciada neste mês, a chegada da startup ao portfólio da Aleve tem como objetivo acelerar o crescimento da DeltaAI e ampliar sua capacidade de atender clientes corporativos. Hoje, a empresa atende clientes como Ford, Banco Bmg, MAPFRE e IQVIA Brasil .
“Estamos nos especializando nos segmentos automotivo, de seguros, bancário e farmacêutico. Escolhemos atuar de forma focada para desbravar cada indústria”, diz a fundadora.
A legaltech nasceu de uma mudança de rota. Antes, Patrícia comandava a Forum Hub, negócio que conectava consumidores interessados em processar empresas a advogados e automatizava etapas do atendimento jurídico. Em dezembro de 2025, a empreendedora decidiu mudar o modelo e direcionar a operação para o mercado corporativo.
Apesar do avanço comercial, a DeltaAI enfrenta o desafio de atender à demanda sem comprometer a operação. “Tenho uma lista de espera e não consigo atender quantos clientes eu gostaria, já que a minha operação está crescendo agora. É nisso que a Aleve entra, justamente para expandir”.
A holding trabalha com um modelo de venture builder, oferecendo suporte em áreas como estratégia, desenvolvimento de produtos, governança, assessoria jurídica e estrutura comercial. A proposta é permitir que os fundadores concentrem mais esforços no crescimento do negócio, sem precisar construir toda essa estrutura internamente.
Priscila Spadinger, CEO da Aleve LegalTech Ventures , afirma que a Aleve já tem cinco anos de atuação e mantém 11 startups em operação no portfólio, além de ter vendido duas empresas. A holding tem foco em negócios de inovação e tecnologia para o setor jurídico, área em que identifica oportunidades de ganho de eficiência com o uso de dados e inteligência artificial. “Queremos entregar para as nossas empresas parceiras mais facilidade no dia a dia, trazendo eficiência estratégia”, ressalta.
A parceria com a DeltaAI não teve um valor de investimento financeiro ou participação societária divulgado na entrevista. O apoio envolve serviços e estrutura para acelerar o desenvolvimento da startup.
Da estratégia à expansão
A meta de R$ 3 milhões em faturamento deve ser sustentada pela ampliação da carteira de clientes e pela conversão de oportunidades comerciais que a empresa já acompanha. Patrícia estima que o tíquete médio anual fique entre R$ 120 mil e R$ 150 mil por cliente.
O modelo combina uma etapa inicial de configuração e organização dos dados de cada empresa com o monitoramento recorrente das informações. A estratégia comercial inclui networking, participação em eventos, canais de aquisição e mídia paga voltada ao mercado B2B.
“Com a IA, os times estão menores, são mais eficientes, mas o trabalho está se acumulando. A IA está fazendo a gente fazer mais, mas o trabalho não está diminuindo”, aponta Patrícia. A executiva ainda contou que precisava dividir sua atenção entre produto, planejamento estratégico, finanças e questões jurídicas, e que a parceria com a Aleve permite contar com apoio nessas frentes.
Priscila, por sua vez, destaca que o objetivo da Aleve é liberar os fundadores para que se concentrem no produto, na conquista de clientes e nas entregas. A holding também auxilia as empresas em temas como estratégia, desenvolvimento de negócios e captação de recursos. “Se o founder perde o foco, a empresa acaba perdendo também. Por isso, é importante oferecer suporte para que ele consiga se concentrar no que realmente importa para o negócio”.
Além do Painel de Magistrados, a startup lançou recentemente dois outros produtos. Um deles é o DeltaConsumer, que analisa informações dos canais de atendimento para identificar reclamações com maior chance de chegar à Justiça. O outro é um serviço de análise concorrencial, que compara dados de processos e decisões judiciais de empresas do mesmo setor, permitindo avaliar indicadores jurídicos em relação aos concorrentes.