México supera Brasil em aportes para startups em 2026
México | Foto: Canva
O México ultrapassou o Brasil em volume de investimentos de venture capital nos nove primeiros meses de 2026. As startups mexicanas captaram US$ 1,52 bilhão entre janeiro e setembro, cerca de 41% a mais que os US$ 1,08 bilhão destinados às empresas brasileiras no mesmo período. Os dados foram divulgados pelo Crunchbase nesta segunda-feira (19).
A mudança chama a atenção porque o Brasil historicamente lidera em volume de investimentos em startups na América Latina. No entanto, parte da explicação está no fato de que o México atraiu rodadas maiores.
No terceiro trimestre, só a fintech Kapital , por exemplo, captou US$ 125 milhões em Série C, que combinou equity e dívida. A operação avaliou a empresa em US$ 1,6 bilhão. Segundo Igor Piquet, da Endeavor Catalyst , enquanto os investimentos no México se concentram em algumas startups, o Brasil registra um número maior de negócios.
“Os investidores estão concentrando recursos em algumas vencedoras mexicanas, enquanto o Brasil mantém a amplitude”, afirmou Igor ao Crunchbase News . Segundo ele, o Brasil também lidera a região em saídas realizadas, como aquisições e outras operações que permitem aos investidores vender suas participações.
Entre as rodadas que se destacaram no Brasil estão a da fintech Kesh Bank , que levantou US$ 106,9 milhões em agosto, em uma rodada Seed que combinou equity e dívida. A operação avaliou a empresa em US$ 626 milhões.
Outro destaque brasileiro foi a Decade , empresa de assessoria patrimonial baseada em inteligência artificial, que captou US$ 85 milhões. Segundo o Crunchbase , foi a maior rodada Seed já registrada para uma startup latino-americana. A empresa foi fundada por Vitor Olivier, ex-CTO do Nubank , e Felipe Meneses, fundador da Hyperplane AI .
VC cresce 26% na América Latina
No terceiro trimestre, as startups latino-americanas captaram US$ 1,3 bilhão, alta de 26% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o segundo trimestre deste ano, porém, houve queda de 9%.
Os aportes em rodadas late-stage e growth somaram US$ 757 milhões entre julho e setembro, crescimento de 74% na comparação anual. O valor, contudo, ficou 21,3% abaixo dos US$ 962 milhões registrados no trimestre anterior.
As rodadas anjo e Seed também ganharam força. Juntas, movimentaram US$ 266 milhões no terceiro trimestre, alta de 62% em relação ao mesmo período do ano passado e de 128% ante o segundo trimestre de 2026. A categoria respondeu por cerca de 20,5% do total investido na região.
O movimento, entretanto, não foi uniforme entre os estágios de investimento. As rodadas de early-stage, que incluem séries A e B, somaram US$ 288 milhões, queda de 34% na comparação anual.
Energia também atrai grandes aportes
As duas maiores rodadas de investimento da América Latina no terceiro trimestre foram direcionadas a empresas do setor de energia, fora dos mercados brasileiro e mexicano. O movimento contrasta com o histórico da região, em que as fintechs costumam concentrar boa parte dos investimentos.
A chilena Black Giant , empresa ligada ao projeto de lítio de mesmo nome da EnergyX, captou US$ 225 milhões em julho, com valuation reportado de US$ 900 milhões. Já a colombiana Erco Energía , que desenvolve e opera sistemas de energia solar para residências e empresas, recebeu US$ 129 milhões em uma rodada Série C, em agosto. A empresa foi avaliada em US$ 600 milhões.
A volta dos VCs internacionais
Apesar das diferenças entre os mercados, investidores internacionais voltaram a demonstrar interesse pela América Latina. Allen Taylor, sócio-diretor da Endeavor Catalyst , afirmou ao Crunchbase News que os fundos internacionais estiveram mais ativos na região nos três primeiros trimestres de 2026 do que em todo o período de 2024 e 2025 somados, considerando novos investimentos e follow-ons.
No Brasil, esse movimento inclui fundos como Sequoia, Founders Fund, NEA, Battery e Tidemark. Segundo Allen, para alguns deles, os aportes representaram o primeiro investimento na América Latina ou o retorno à região após um longo intervalo.
O interesse, contudo, está mais seletivo. Ana Cristina Gadala-Maria, da QED Investors , observa que parte dos fundos que entraram no mercado durante o boom de 2020 e 2021 passou a priorizar as empresas já presentes em seus portfólios e oportunidades de inteligência artificial em outros mercados.
A executiva também aponta uma mudança nas teses de investimento. Em vez de olhar apenas para geografias específicas, os fundos estão cada vez mais interessados em temas como empresas nativas de IA e infraestrutura financeira, especialmente stablecoins e pagamentos internacionais.
Nesse cenário, cresce o número de empreendedores que constroem negócios com ambição global desde o início, em vez de adaptar modelos já existentes às necessidades de mercados locais. Para os investidores, isso significa que startups latino-americanas disputam capital diretamente com empresas de tecnologia de outras regiões.