Macro & Mercados
Sam's Club na China perde CMO após crise regulatória — fornecedores brasileiros de alimentos devem reavaliar contratos
· Clara Lin
Zhang Qing, Chief Merchandising Officer do Sam's Club China, renunciou após reunião com regulador chinês sobre segurança alimentar; a saída sinaliza possível revisão de fornecedores e padrões de qualidade que afetam exportadores brasileiros de carnes, laticínios e snacks.
O Sam's Club China, operação de atacado da Walmart que mais cresce no país, perdeu sua principal executiva de compras em meio a uma ofensiva regulatória. Zhang Qing, CMO responsável pela curadoria de produtos que impulsionou a rede a um faturamento bilionário, pediu demissão dias após a Administração Estatal de Regulação do Mercado convocar a Walmart para uma reunião de supervisão sobre falhas recorrentes de segurança alimentar. Para exportadores brasileiros de alimentos processados e proteínas, a mudança sinaliza que o rigor na seleção de SKUs pode se intensificar — ou que o canal premium chinês está perdendo sua capacidade de diferenciação.
Zhang Qing, que comandava a estratégia de produtos do Sam's Club China desde 2018, deixou o cargo após uma reunião regulatória na qual o governo chinês cobrou a Walmart por problemas de segurança alimentar identificados em lojas físicas e online. A saída foi confirmada pela Walmart China, que anunciou Neil Maffey como CMO interino — executivo que já ocupou o posto entre 2013 e 2017. A transição ocorre em meio a uma reestruturação mais ampla: Tony Paladinetti, VP de Estratégia da Walmart International, assumirá como VP de Estratégia da Walmart China a partir de agosto de 2026, reportando-se a Zhu Xiaojing. Zhu Jun, presidente do formato Walmart, ganhou supervisão sobre o departamento imobiliário da operação chinesa.
O impacto chega ao Brasil por dois canais. Primeiro, o Sam's Club é um dos maiores compradores de carne bovina brasileira no canal premium chinês — cortes como picanha e filé mignon são itens âncora nas lojas. Segundo, a rede é cliente relevante de laticínios e snacks processados de empresas como BRF e Marfrig, que fornecem produtos com selo de qualidade para o formato de assinatura. Se a nova gestão endurecer os critérios de segurança alimentar — como a reunião regulatória sugere —, fornecedores brasileiros podem enfrentar auditorias mais frequentes e exigências de rastreabilidade adicionais. Por outro lado, se o Sam's Club perder sua capacidade de diferenciação e começar a comprar produtos mais commoditizados, a margem premium que o canal oferece pode encolher.
Na leitura do CBI, a saída de Zhang Qing é mais do que uma mudança de pessoal: é um sintoma de que o modelo de curadoria restrita — com poucos SKUs, mas de altíssima qualidade e recompra — está sob pressão. Zhang defendia que o Sam's Club deveria focar em 'produtos heróis' e evitar diluir o sortimento. Nos últimos dois anos, porém, a rede enfrentou críticas de membros por substituir itens exclusivos por produtos comuns de supermercado, como bolinhos Orion e ameixas Liuliu. Em julho de 2025, a remoção de itens como sun (torta solar) e pudim de arroz gerou onda de reclamações nas redes sociais chinesas. Os dados mostram que a insatisfação dos membros cresceu paralelamente ao aumento de lojas — o Sam's Club passou de 36 unidades em 2022 para mais de 50 em 2025. Para o Brasil, o risco é duplo: ou o novo CMO eleva o padrão de qualidade (exigindo mais certificações e rastreabilidade), ou reduz a aposta em produtos premium importados, priorizando fornecedores locais chineses de menor custo.
O que acompanhar: (1) a definição do sucessor permanente de Zhang Qing, prevista para ser anunciada até o final do primeiro semestre de 2026; (2) a publicação de novas diretrizes de segurança alimentar para importados pelo Sam's Club, que podem sair nos próximos 90 dias; (3) a evolução do câmbio yuan-real, que impacta diretamente a competitividade dos produtos brasileiros frente a concorrentes argentinos e australianos no canal premium chinês.
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