Macro & Mercados
NIO prevê queda de 20% nas vendas de carros na China em 2026 — montadoras brasileiras sob pressão de excesso de oferta global
· Clara Lin
Li Bin, fundador da NIO, alertou que o mercado automotivo chinês pode encolher 15% a 20% em 2026, com vendas acumuladas caindo 19,5% nos primeiros cinco meses. Para o Brasil, isso significa mais veículos elétricos chineses buscando mercados externos, intensificando a concorrência com montadoras l...
O mercado automotivo chinês entrou na "fase final mais cruel", segundo Li Bin, fundador da NIO (NYSE: NIO/09866.HK). Em discurso no Fórum Automotivo de Chongqing em 13 de junho, ele projetou uma queda de 15% a 20% nas vendas internas no varejo em 2026. Dados do Subcomitê de Veículos de Passeio da China mostram que, nos primeiros cinco meses do ano, as vendas acumuladas caíram 19,5% em relação ao ano anterior, para 7,099 milhões de unidades. Para o Brasil, o encolhimento do maior mercado automotivo do mundo sinaliza um excedente de produção que será desovado em outros países — incluindo o mercado brasileiro, já inundado por veículos elétricos chineses.
Li Bin afirmou que a indústria automotiva chinesa passou da competição pontual para a competição sistêmica, e que a abordagem de "um truque só" não funciona mais. A NIO, que enfrenta dificuldades financeiras e redução de quadro, é um dos sintomas de um setor que viu as vendas de maio caírem mais de 20% em relação ao mesmo mês de 2025. A queda é atribuída a preços elevados do petróleo, que derrubaram as vendas de veículos a combustão, e à saturação do segmento de elétricos, onde a guerra de preços já consumiu margens.
O impacto chega ao Brasil por dois canais principais. Primeiro, montadoras chinesas como BYD, Great Wall Motors e Chery, que já têm operações ou parcerias no Brasil, tenderão a redirecionar estoques excedentes para o mercado brasileiro, intensificando a concorrência com montadoras locais como Volkswagen, Fiat e GM. Segundo, a queda na demanda interna chinesa reduz a necessidade de insumos como minério de ferro e níquel, commodities que o Brasil exporta para a China — embora o efeito sobre a mineração seja indireto e de médio prazo.
Os dados mostram que a produção chinesa de veículos em 2025 foi de cerca de 30 milhões de unidades, enquanto as vendas internas devem ficar abaixo de 25 milhões em 2026, gerando um excedente de ao menos 5 milhões de veículos. Na leitura do CBI, isso indica que a pressão exportadora chinesa sobre mercados emergentes como o Brasil deve se intensificar nos próximos 12 meses. Diferentemente de 2023, quando a China exportou principalmente elétricos de baixo custo, agora há um movimento de dumping também em veículos a combustão e híbridos.
O que acompanhar: (1) a reunião da CAMEX prevista para julho, que pode elevar tarifas de importação de veículos chineses; (2) o anúncio de novos investimentos da BYD em Camaçari (BA) e da Great Wall em Iracemápolis (SP); (3) a variação do preço do minério de ferro no porto de Qingdao, que reflete a demanda industrial chinesa.
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