Tecnologia

Moore Threads libera ações e testa apetite de longo prazo — investidores brasileiros em IA observam

· Clara Lin
Eletrônicos e máquinasVeículos elétricos e bateriasInfraestrutura e construção

A fabricante chinesa de GPUs Moore Threads liberou 25,77 milhões de ações restritas de IPO, gerando volatilidade no mercado. Para investidores brasileiros no setor de IA e semicondutores, o movimento sinaliza a maturidade do ecossistema chinês de chips e abre janela para avaliar riscos e oportuni...

Em 7 de setembro, a Moore Threads, uma das principais fabricantes chinesas de GPUs, liberou 25,77 milhões de ações restritas de sua oferta pública inicial (IPO), representando 5,48% do capital total. O evento, o maior desde a listagem em dezembro de 2025, gerou divergências entre investidores: enquanto alguns preveem abandono pelo capital, outros veem oportunidade. Para o mercado brasileiro, que acompanha o avanço da IA e a dependência de chips, o caso ilustra como a China está consolidando seu ecossistema de semicondutores — um fator que pode influenciar cadeias globais de suprimento e decisões de investimento em tecnologia no Brasil. A liberação das ações restritas da Moore Threads, com preço de emissão de 114,28 yuans, representa um lucro não realizado de várias vezes para os investidores institucionais que participaram do IPO. Esses investidores, com pressão de avaliação de desempenho e restrições de duration, veem o momento como uma oportunidade típica de 'arbitragem de IPO' — realizar ganhos após o período de lock-up de 9 meses. No segundo trimestre de 2026, mais de 30 instituições já haviam divulgado redução de suas participações, um movimento que não reflete necessariamente uma visão negativa sobre a empresa, mas sim o ciclo natural de investimento institucional. Para elas, a Moore Threads é uma fase de investimento, não uma participação vitalícia. O impacto para o Brasil é indireto, mas relevante. O país, que importa a quase totalidade de seus semicondutores e depende de infraestrutura de nuvem e IA para setores como agronegócio, finanças e indústria, observa com atenção a consolidação do setor de chips na China. A Moore Threads, junto com a Huawei, é uma das únicas duas fabricantes de GPU no país que implementaram clusters de treinamento de modelos de grande escala com 10.000 GPUs, um marco técnico que posiciona a China como um player capaz de competir em IA de ponta. Para empresas brasileiras que dependem de importação de tecnologia, a evolução desse ecossistema pode significar, no médio prazo, novas opções de fornecedores e uma reconfiguração das cadeias globais de suprimento. Os dados mostram que a Moore Threads teve receita de 1,736 bilhão de yuans no primeiro semestre, um aumento de 147% em relação ao ano anterior, com prejuízo reduzido em 95,73%. No primeiro trimestre, a empresa alcançou lucro trimestral, sendo a primeira GPU doméstica listada a obter esse resultado. Na leitura do CBI, isso indica que a empresa está próxima de atingir lucro total, um marco que poderia atrair um novo perfil de investidor. A Soochow Securities aponta que a substituição doméstica de chips já passou do envio de amostras para a produção em escala, com participação de mercado superior a 40% em 2025. A narrativa macro é respaldada pela política nacional chinesa, que listou a rede de poder computacional como uma das 'seis redes' do país, com investimento direto de cerca de 4 trilhões de yuans durante o período do 15º Plano Quinquenal. Para o investidor brasileiro, o caso Moore Threads oferece lições sobre a dinâmica de mercado de tecnologia na China. Enquanto instituições realizam lucros e saem, investidores individuais com horizonte de longo prazo podem enxergar a volatilidade como uma oportunidade de entrada. O que acompanhar: (1) a evolução trimestral dos resultados da Moore Threads, especialmente a confirmação do lucro total; (2) o comportamento do preço das ações nas próximas semanas, que indicará se a pressão de venda institucional foi absorvida; e (3) os desdobramentos da política industrial chinesa para semicondutores, que podem afetar a competitividade global do setor e, por consequência, as cadeias de suprimento que chegam ao Brasil.

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