Liquidações secretas de luxo na China pressionam marcas — varejistas brasileiros perdem exclusividade
· Clara Lin
Veículos elétricos e baterias
Plataformas como On The List vendem estoques de grifes com até 90% de desconto em cidades chinesas, em modelo fechado por convite. Para marcas de luxo que operam no Brasil, o canal alternativo acirra a concorrência com outlets e lojas oficiais, forçando revisão de estratégias de precificação e di...
Por que isso importa
A tendência de liquidações secretas de luxo na China pressiona marcas e pode afetar o mercado brasileiro de luxo, que movimentou R$ 50 bilhões em 2024. Varejistas como Daslu e Premium Outlet São Paulo podem perder exclusividade, enquanto a Gucci registrou queda de 8% nas vendas no último trimestre.
O que fazer
Monitore as importações de artigos de luxo no ComexStat para detectar desvios de demanda; Consulte a Receita Federal sobre possíveis alterações nas alíquotas de importação de produtos de luxo; Acompanhe a entrada de plataformas como On The List no mercado brasileiro via associações de varejo (ABF).
Janela de tempo
O próximo trimestre (Q2 2025) será determinante para confirmar se a pressão de estoques das marcas de luxo se intensifica, conforme indicado pelo desempenho da Gucci.
Uma nova geração de plataformas de liquidação de luxo está crescendo em Xangai, Pequim, Hong Kong e Singapura — e o modelo já começa a preocupar varejistas brasileiros que dependem da exclusividade de marcas como Gucci, Prada e Miu Miu. Diferente dos outlets tradicionais, esses canais operam por convite, com pop-ups temporários em bairros nobres, vendendo estoques com descontos de 70% a 90%. Para o mercado brasileiro, onde o consumo de luxo cresceu 12% em 2024, o risco é que a percepção de valor das marcas seja corroída por canais paralelos que escapam ao controle das operações locais.
A plataforma On The List, fundada em Hong Kong em 2016, é um dos exemplos mais emblemáticos. Ela não possui marcas nem lojas fixas: faz parcerias diretas com grifes para vender estoques excedentes em períodos determinados, sempre com acesso restrito a convidados. O slogan do site resume a proposta: "A compra mais inteligente não é pública". Para entrar, o consumidor precisa de um código de convite — e, se a aprovação demorar, é necessário convidar dois amigos para entrar na lista de espera. "É como um sorteio, como abrir uma caixa surpresa", disse uma usuária à 36Kr.
O contexto de surgimento dessas plataformas está diretamente ligado à pressão de estoques que a indústria de luxo enfrenta globalmente. A Kering, controladora da Gucci, reduziu seus estoques em 8% em 2025 e planeja cortar mais 1 bilhão de euros até o final de 2026, mantendo o nível abaixo de 20% das vendas. A Gucci, especificamente, viu suas vendas caírem 8% no último trimestre. Para as marcas, o custo do excesso de estoque vai além de armazenagem e logística: ele imobiliza capital e pressiona o sistema de preços futuros. Uma fonte da cadeia de suprimentos ouvida pela 36Kr afirmou que, hoje, as marcas preferem realizar o estoque rapidamente, desde que o canal seja discreto e não afete o preço cheio.
A alta margem bruta do setor permite esses descontos agressivos. Estima-se que o markup das marcas de luxo seja superior a 10 vezes o custo de produção — algumas grifes de topo chegam a dezenas de vezes. Mesmo com 70% a 80% de desconto sobre o preço original, ainda há margem para cobrir custos e recuperar fluxo de caixa. Por isso, o objetivo central dessas liquidações não é aumentar o lucro, mas melhorar a eficiência do giro de estoque.
Dois modelos de cooperação predominam: a compra direta (wholesale), em que a plataforma adquire o estoque, e a venda por consignação, em que a marca mantém o controle sobre os preços e a plataforma recebe comissão. As marcas de luxo preferem o segundo modelo, pois assim controlam o sistema de preços e o destino do estoque. "Quanto mais rigorosa a gestão, menor o risco de canibalização", disse o insider do grupo Kering.
Para o Brasil, o impacto é indireto, mas relevante. O mercado brasileiro de luxo movimentou cerca de R$ 50 bilhões em 2024, com crescimento puxado por marcas europeias e asiáticas. Se os canais de liquidação chineses se expandirem para plataformas digitais acessíveis globalmente — ou se marcas começarem a replicar o modelo no Brasil —, varejistas como Daslu, TK Maxx e outlets como o Premium Outlet de São Paulo podem perder exclusividade. Além disso, a percepção de valor das marcas pode ser afetada se consumidores brasileiros descobrirem que os mesmos produtos são vendidos com descontos muito maiores na China.
Na leitura do CBI, o movimento chinês sinaliza uma tendência estrutural: as marcas de luxo estão dispostas a sacrificar margem em canais controlados para evitar o acúmulo de estoques. Isso pode levar a uma segmentação ainda maior dos canais de venda — com preços diferentes para mercados diferentes. Para o Brasil, o risco é ficar de fora dos canais de desconto controlados, mantendo preços cheios enquanto consumidores migram para plataformas globais.
O que acompanhar: (1) a evolução das vendas da Gucci no próximo trimestre, que pode indicar se a pressão de estoques continua; (2) a eventual entrada de plataformas como On The List no mercado brasileiro ou latino-americano; (3) a reação de marcas como Prada e Kering em relação à política de preços para o Brasil.
Receba o briefing diário
3-5 destaques por dia, direto no e-mail. Gratuito.