Macro & Mercados

Investimento chinês no exterior bate recorde de US$ 213 bi — o que muda para quem exporta ao gigante asiático

· Clara Lin
Minério de ferroVeículos elétricos e bateriasInfraestrutura e construção

A China registrou em 2025 o maior fluxo de investimento externo direto de sua história, US$ 213,58 bilhões, com forte redirecionamento para Ásia e tecnologia, queda em manufatura e recuo nos EUA e na ASEAN. Para exportadores brasileiros, a leitura é de cadeia produtiva chinesa se deslocando — e d...

A China registrou em 2025 um fluxo líquido de investimento externo direto (ODI) de US$ 213,58 bilhões, superando o recorde histórico de 2016 e crescendo 11,1% em relação ao ano anterior, segundo o Boletim Estatístico do Investimento Externo Direto divulgado em 23 de setembro de 2026 pelo Ministério do Comércio, Departamento Nacional de Estatísticas e Administração Estatal de Câmbio. O estoque acumulado chegou a US$ 3,38 trilhões, 30% dos ativos externos totais chineses. Para o Brasil, o dado importa porque sinaliza para onde vai o capital chinês que, nos últimos anos, financiou desde linhas de transmissão até fábricas de veículos elétricos — e onde ele deixa de ir. O número central é claro: US$ 213,58 bilhões de fluxo líquido de ODI em 2025, alta anual de 11,1%, aceleração de 2,7 pontos percentuais frente a 2024. É o primeiro ano em que a China ultrapassa a marca de US$ 200 bilhões, superando o pico anterior de 2016. Até o fim de 2025, 38 mil investidores domésticos chineses mantinham 58 mil empresas de investimento externo direto no exterior, com estoque acumulado de US$ 3,38 trilhões — equivalente a 30% de todos os ativos externos do país. A composição setorial, porém, mudou: a escala de ODI no setor manufatureiro caiu, enquanto os setores de transmissão de informações/software e serviços de tecnologia da informação quase dobraram. Mais de 80% do investimento fluiu para a Ásia, com queda na escala destinada aos Estados Unidos e aos nove países da ASEAN. Por que isso chega ao Brasil? O investimento chinês no país é parte desse mesmo fluxo e responde à mesma lógica de reconfiguração de cadeias. Quando a manufatura chinesa reduz ODI externo e prioriza software e serviços, setores brasileiros que dependem de capital chinês para projetos industriais — montadoras, química, siderurgia, energia — sentem o efeito indiretamente, via menor apetite por greenfield. Já a concentração de 80% na Ásia reduz a competição por projetos na América Latina, o que pode abrir espaço para o Brasil captar fatias maiores do capital chinês voltado a infraestrutura e transição energética. O regulador brasileiro que precisa acompanhar isso de perto é a Camex, na calibragem de acordos de investimento, e o BNDES, na estruturação de projetos que possam atrair sócios chineses. Para exportadores brasileiros de soja, minério, carne e celulose, o efeito é mais sutil: se a manufatura chinesa desacelera investimento externo, a demanda por insumos brasileiros pode arrefecer em setores específicos, mas o avanço em serviços de TI chineses não compensa esse canal. Os dados mostram que a China está redirecionando capital para Ásia e tecnologia, não para manufatura pesada no exterior. Na leitura do CBI, isso indica duas coisas. Primeiro, o ciclo de fábricas chinesas no Brasil — como as de BYD em Camaçari e de montadoras em Goiás e São Paulo — tende a desacelerar em novos anúncios, com foco em consolidar o que já foi prometido. Segundo, o capital chinês que sobra para a América Latina vai buscar ativos de energia renovável, data centers e logística, setores em que o Brasil tem pipeline, mas enfrenta concorrência de México e Chile. Comparado a 2016, quando o pico anterior foi puxado por compras de ativos em energia e mineração, o ciclo atual é mais seletivo e mais tecnológico — o que exige do lado brasileiro propostas mais sofisticadas que simples fornecimento de matéria-prima. O que acompanhar: primeiro, a próxima edição do boletim do MOFCOM, prevista para setembro de 2027, para ver se a queda em manufatura se confirma ou foi pontual. Segundo, anúncios de investimento chinês em data centers e renováveis no Brasil no primeiro semestre de 2027, que indicariam se o país capta o novo perfil de capital. Terceiro, a evolução do ODI chinês na ASEAN, que serve de termômetro para a competição por capital na América Latina.

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