Tecnologia

Ex-DeepMind levanta US$ 50 mi para IA científica — Brasil precisa mapear impacto em biotecnologia e agro

· Clara Lin
Veículos elétricos e baterias

A Inherent, fundada por ex-pesquisadores do Google DeepMind, captou US$ 50 milhões para desenvolver IAs com 'instinto científico' e autonomia para decidir o que pesquisar. Para o Brasil, a tecnologia pode acelerar descobertas em biotecnologia, fármacos e agroquímicos, setores onde o país é depend...

A Inherent, startup fundada por ex-integrantes da equipe de AI Scientist do Google DeepMind, anunciou a captação de US$ 50 milhões em rodada seed liderada pela Index Ventures e Radical Ventures. O objetivo da empresa é ambicioso: construir sistemas de IA capazes de ir além da execução de tarefas científicas e passar a decidir quais problemas de pesquisa merecem ser investigados. Para o ecossistema de inovação brasileiro, o movimento sinaliza uma nova fronteira competitiva: a aceleração de descobertas em áreas como biotecnologia e novos materiais, nas quais o Brasil ainda importa tecnologia de ponta. A Inherent foi cofundada por Tantum Collins (CEO), Edward Hughes (Chief Scientist), Louis Kirsch e Kaloyan Aleksiev (CTO), todos com passagem pelo Google DeepMind. A tese central da empresa é que os atuais sistemas de IA para ciência — como o AlphaFold, vencedor do Prêmio Nobel de Química em 2024 — são excelentes executores, mas não possuem capacidade de julgamento científico. Eles aceleram cálculos e previsões dentro de espaços de problema já definidos, mas não conseguem explorar o desconhecido nas fronteiras da ciência. A Inherent quer dar a esses sistemas um 'cérebro de pesquisa', capaz de formular hipóteses, desenhar experimentos e aprender em tempo real com os resultados, em um ciclo contínuo de autoaperfeiçoamento. O impacto para o Brasil não é imediato nem direto, mas chega via mecanismo de aceleração tecnológica. O país é um dos maiores produtores agrícolas do mundo e possui uma indústria farmacêutica relevante, mas historicamente depende de insumos e patentes desenvolvidos no exterior. Se a abordagem da Inherent se provar eficaz, o tempo de desenvolvimento de novos agroquímicos, defensivos biológicos, fármacos e materiais avançados pode cair drasticamente. Empresas brasileiras que atuam em parceria com universidades ou centros de pesquisa — como a Embrapa, no setor agro, ou o complexo industrial de saúde de São Paulo — precisarão monitorar como essa nova geração de IA científica pode ser incorporada ou, no pior cenário, se tornar mais uma barreira tecnológica importada. Na leitura do CBI, os dados mostram que o financiamento de US$ 50 milhões em rodada seed é expressivo e indica confiança do mercado na tese de que a IA para ciência está migrando da execução para a descoberta. O fato de a equipe fundadora vir do DeepMind — incluindo o líder da equipe de AI Scientist baseada em LLM — reforça a credibilidade técnica. No entanto, é preciso separar fato de avaliação. O fato é que a Inherent existe e tem capital para desenvolver sua tecnologia. A avaliação do CBI é que, embora o potencial seja enorme, o caminho até produtos comercialmente viáveis é longo e incerto. Para o Brasil, o ponto de atenção não é a Inherent em si, mas a tendência que ela representa: a consolidação de um novo paradigma onde a descoberta científica é acelerada por IA, e países que não participarem desse ecossistema podem perder competitividade em setores estratégicos. O que acompanhar nos próximos meses: primeiro, os primeiros resultados técnicos da Inherent — se a empresa conseguir demonstrar que sua IA propôs e validou uma hipótese científica relevante de forma autônoma, o marco será significativo. Segundo, o movimento de grandes players brasileiros: se a Embrapa, o SENAI ou fundos de venture capital locais começarem a buscar parcerias com startups de AI for Science, isso indicará que o ecossistema nacional está atento à mudança. Terceiro, o desdobramento regulatório: a ANVISA e o MAPA precisarão se preparar para avaliar produtos desenvolvidos com auxílio intensivo de IA, o que pode exigir novas metodologias de validação científica.

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