Macro & Mercados
Colapso das vendas internas na China acelera — montadoras chinesas miram exportações e Brasil pode ser destino
· Clara Lin
Vendas domésticas de automóveis na China caíram 20% em maio, enquanto exportações dispararam 60%, com veículos elétricos dobrando. O Brasil, como um dos principais destinos das exportações chinesas de veículos, pode enfrentar aumento de oferta e pressão sobre montadoras locais e importadores.
O mercado automotivo chinês vive um fenômeno cada vez mais polarizado: enquanto as vendas no varejo doméstico despencaram 20% em maio ante o mesmo mês de 2025, as exportações cresceram 60%, com os veículos de novas energia (NEVs) dobrando de volume. A proporção atual entre vendas internas e externas das montadoras chinesas já é de 2:1. Para o Brasil, que recebeu mais de 40 mil veículos chineses em 2025, o sinal é claro: a pressão exportadora chinesa deve se intensificar, afetando desde importadores brasileiros até a competitividade da indústria local.
A Federação de Passageiros do setor automotivo chinês (CPCA) divulgou dados de maio que escancaram a crise do mercado interno: vendas no varejo de automóveis de passageiros caíram para 1,51 milhão de unidades, uma retração de mais de 20% em relação ao ano anterior. Os veículos a combustão foram os mais afetados, com queda de quase 40% nas vendas. No acumulado de janeiro a maio, o recuo foi de 19,3%. Em contraste, as exportações mantiveram trajetória de alta expressiva, com crescimento de 60% em maio, puxadas pelos NEVs, que dobraram seus embarques.
Esse movimento tem impacto direto no Brasil. O país é um dos principais destinos das exportações chinesas de veículos, especialmente elétricos e híbridos. Com o mercado doméstico chinês encolhendo, montadoras como BYD, Great Wall e Chery devem redobrar seus esforços para colocar seus carros no mercado brasileiro. Isso pode significar maior oferta de veículos a preços competitivos, pressionando as montadoras instaladas no Brasil — como Volkswagen, Fiat e GM — a reverem suas estratégias de preço e produção.
A BYD, maior fabricante chinesa de veículos elétricos, foi a que mais sentiu a retração doméstica: suas vendas nos primeiros cinco meses caíram 39,1%. A empresa, que já anunciou investimentos em Camaçari (BA), pode acelerar a produção local para escapar de tarifas de importação e ganhar competitividade. Já a taxa de lucro geral do setor automotivo chinês caiu para 3,2%, metade da média industrial, o que indica que as montadoras estão operando com margens apertadas e precisam de escala externa para se sustentar.
O vice-presidente do Instituto de Pesquisa da Autohome, Xian Bijuan, atribuiu o "mercado interno frio" a mudanças políticas: a redução do imposto de compra para NEVs e a diminuição dos subsídios para modelos de baixo preço geraram um efeito de "consumo antecipado seguido de queda". Um exemplo: o BYD Seagull, que custa 70 mil yuans (cerca de R$ 55 mil), teve seu custo real de aquisição elevado em quase 15 mil yuans (R$ 11,8 mil) com a redução de subsídios e a volta do imposto de compra. Isso equivale a 20% do preço do carro.
Na leitura do CBI, os dados mostram que a crise doméstica chinesa não é apenas cíclica, mas estrutural. A participação de mercado de veículos abaixo de 100 mil yuans (R$ 78,5 mil) está crescendo, contrariando as expectativas de que a redução de subsídios encolheria esse segmento. Isso sugere que os consumidores chineses estão migrando para carros mais baratos, o que pode levar as montadoras a focar em modelos de entrada para exportação — exatamente o que o Brasil mais importa.
O colapso dos veículos a combustão é ainda mais dramático: em maio, nenhum dos dez modelos mais vendidos no varejo chinês era a combustão, algo inédito. As marcas de joint ventures, que dependem desses veículos, estão vendo sua participação de mercado cair abaixo de 3%, o que inviabiliza suas redes de concessionárias. Para o Brasil, isso significa que a transição para elétricos pode se acelerar, mas também que os chineses podem inundar o mercado com modelos a combustão baratos, já que precisam desovar estoques.
O que acompanhar: (1) a decisão do governo brasileiro sobre a manutenção ou aumento da tarifa de importação de veículos elétricos, que atualmente é de 35% e pode ser revista; (2) os próximos passos da BYD em Camaçari, com previsão de início de produção ainda em 2026; (3) a evolução das exportações chinesas de veículos para o Brasil nos próximos meses, que devem bater recordes.
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