Macro & Mercados

China identifica gargalo na inovação — startups brasileiras de deep tech podem aprender com o 'Vale da Morte' chinês

· Clara Lin

Fang Fenglei, da Hopu Investment, aponta que o maior desafio da inovação chinesa está na fase de escala industrial (1 a 10), e defende mais capital de mercado para startups — sinal relevante para fundos brasileiros de venture capital e empresas de tecnologia que buscam parcerias com a China.

No 9º Fórum de Verão da Caixin, realizado em Hangzhou no dia 17 de junho, Fang Fenglei, fundador e presidente da Hopu Investment, afirmou que o principal gargalo do sistema de inovação chinês não está na pesquisa básica, mas na transição da tecnologia verificada para a produção em escala — a fase conhecida como 'Vale da Morte'. Para o empresário brasileiro que acompanha o ecossistema de inovação da China, o diagnóstico de um dos investidores mais influentes do país sinaliza onde Pequim deve concentrar recursos nos próximos anos, e onde oportunidades de cooperação bilateral podem surgir. Fang Fenglei destacou que a China já formou vantagens claras nas etapas de engenharia e produção em massa, mas a fase de '1 a 10' — da validação tecnológica à implementação industrial — continua sendo o ponto fraco. Segundo ele, essa etapa exige alto investimento e envolve risco elevado, o que a torna pouco atraente para o capital tradicional. 'Do ponto de vista estatístico, é mais difícil ir de 1 a 10 do que de 0 a 1', disse Fang, defendendo que o caminho para superar esse desafio passa por três frentes: formação de talentos compostos (com conhecimento técnico e de negócios), construção de um mercado de capitais de múltiplas camadas e estabelecimento de um sistema de investimento mais orientado ao mercado. Para o Brasil, o diagnóstico ressoa diretamente com o dilema de startups brasileiras de deep tech, especialmente nos setores de agritech, healthtech e energia. Empresas como a Embrapii e fundos como o Criatec enfrentam o mesmo problema: falta de capital paciente para escalar inovações. A China, ao reconhecer publicamente essa fragilidade, abre espaço para parcerias em que o capital chinês — via fundos como a Hopu — pode buscar ativos brasileiros em estágio de escala, especialmente em áreas onde o Brasil tem vantagens comparativas, como bioenergia e agricultura tropical. Na leitura do CBI, o discurso de Fang não é apenas uma análise acadêmica. Ele reflete uma pressão crescente dentro do sistema chinês para que o capital de risco se torne mais eficiente na ponte entre laboratório e fábrica. Os dados mostram que a China já investe mais de 2% do PIB em P&D, mas a taxa de conversão em produtos comerciais ainda é baixa. A avaliação do CBI é que isso pode levar Pequim a incentivar fundos de venture capital a olhar para fora — inclusive para o Brasil — em busca de tecnologias já validadas que precisam de capital e capacidade industrial chinesa para escalar. O que acompanhar: (1) a evolução das regras para fundos de venture capital na China, especialmente após a reforma do mercado de capitais em 2024; (2) possíveis missões comerciais de fundos chineses ao Brasil focadas em deep tech; (3) o comportamento da Hopu Investment, que historicamente investe em empresas de tecnologia em estágio avançado, e pode sinalizar novos movimentos no exterior.

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