Macro & Mercados
China acelera produção de SAF com estatais — aviação brasileira observa oferta e preços
· Clara Lin
Veículos elétricos e baterias
A China atingiu capacidade de 1,7 milhão de toneladas/ano de combustível de aviação sustentável (SAF) e agora amplia o papel de estatais no setor, com dois relatórios oficiais publicados em agosto. Para o Brasil, isso sinaliza maior concorrência global no fornecimento de SAF e possível pressão so...
A indústria chinesa de combustível de aviação sustentável (SAF) entrou em nova fase, com capacidade instalada de cerca de 1,7 milhão de toneladas/ano e participação crescente de empresas estatais, segundo relatórios divulgados em agosto pela BloombergNEF (BNEF) e pela Administração Nacional de Energia da China. O país já ocupa posição de destaque global no fornecimento de SAF. Para o Brasil, que busca consolidar seu próprio hub de combustíveis verdes e atrair investimentos em produção de SAF a partir de etanol, o avanço chinês acirra a disputa por mercado e por rotas tecnológicas.
Dois documentos publicados na primeira semana de agosto confirmam a virada da China no setor de combustíveis verdes. O relatório da BNEF, intitulado "Perspectivas do Combustível de Aviação Sustentável da China 2026", e o "Relatório de Desenvolvimento de Combustíveis Verdes da China", primeiro documento anual do tipo produzido pela Administração Nacional de Energia, indicam que o país atingiu capacidade instalada de cerca de 8 milhões de toneladas/ano de equivalente de petróleo em combustíveis verdes, dos quais 1,7 milhão de toneladas/ano são de SAF. O dado coloca a China em posição de liderança global em capacidade de fornecimento, ainda que a produção efetiva dependa de demanda e de certificações internacionais.
O movimento chinês não é isolado. A entrada de estatais no setor — com participação significativamente maior em projetos de SAF — muda a escala e a velocidade de implantação. Enquanto o Brasil ainda discute o marco regulatório do Combustível do Futuro e a estruturação de plantas de SAF a partir de etanol, a China já opera com capacidade instalada e planeja expansão coordenada com o governo central. Para o empresário brasileiro, o impacto chega por dois canais: o primeiro é a concorrência direta no mercado internacional de SAF, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, onde compradores buscam segurança de oferta. O segundo é a disputa por tecnologia e por rotas de produção — a China aposta em hidroprocessamento de óleos vegetais (HEFA), mesma rota que o Brasil pretende usar com etanol e óleos residuais.
Os dados mostram que a China já tem capacidade instalada relevante e que o governo central trata o tema como prioridade estratégica. Na leitura do CBI, isso indica que o Brasil precisa acelerar a regulamentação do SAF e a aprovação de projetos para não perder a janela de investimento global. A vantagem brasileira — produção de etanol em larga escala e matriz energética limpa — segue válida, mas a janela competitiva se estreita. O relatório da Administração de Energia chinesa também sinaliza que Pequim pretende usar o SAF como instrumento de política industrial e de redução de emissões, o que pode pressionar a cadeia global de suprimentos de óleos vegetais e gorduras residuais, insumos que o Brasil também disputa.
O que acompanhar: primeiro, a publicação do marco regulatório brasileiro do Combustível do Futuro, que define regras para a produção de SAF no país. Segundo, os movimentos da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) e do MAPA (Ministério da Agricultura) em relação à certificação de rotas de produção. Terceiro, a evolução dos preços internacionais de SAF e a reação das companhias aéreas brasileiras, que precisarão cumprir metas de redução de emissões e podem buscar contratos de longo prazo com produtores locais ou importar da China.
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