Chairman da Holley alerta: fim da globalização barata exige que empresas chinesas repensem expansão — e afeta fornecedores brasileiros
· Clara Lin
Veículos elétricos e bateriasEletrônicos e máquinas
Wang Licheng, presidente do conselho do Grupo Holley, afirmou que a era da cooperação global com tarifas baixas acabou e que a cadeia de suprimentos caminha para regionalização e distribuição. Para o Brasil, isso significa recalibrar contratos de fornecimento com a China e monitorar a reconfigura...
Por que isso importa
O alerta do chairman da Holley (Hangzhou) sobre o fim da globalização barata expõe risco direto para os mais de 20% de participação chinesa nas importações brasileiras de manufaturados, com foco em eletrônicos e máquinas. Setores como eletroeletrônicos da Zona Franca de Manaus e autopeças do ABC paulista podem enfrentar renegociação de contratos e prazos logísticos mais longos. O comércio bilateral Brasil-China superou US$ 150 bilhões em 2023.
O que fazer
Consulte o ComexStat semanalmente para monitorar volumes de importação de autopeças e eletrônicos chineses (NCM 85xx e 87xx) e detectar redirecionamento de rotas; Acompanhe a agenda da CAMEX para eventuais ajustes tarifários sobre bens intermediários chineses via antidumping; Revise com seu despachante aduaneiro na Receita Federal cláusulas contratuais indexadas a prazos logísticos atuais, que podem ficar defasados.
Janela de tempo
Tendência estrutural sem deadline imediato; a próxima reunião da CAMEX e os dados mensais do MDIC são os marcos para reavaliar contratos ao longo do trimestre.
Wang Licheng, presidente do conselho de administração do Grupo Holley, declarou em 21 de setembro, durante evento da Cheung Kong Graduate School of Business, que a globalização não vai acabar, mas está sendo reescrita: a cooperação com tarifas baixas ou zero foi encerrada, a grande divisão internacional do trabalho também, e a cadeia de suprimentos global migra para distribuição, regionalização e outsourcing próximo. Ele alertou que as empresas privadas chinesas precisam abandonar a mentalidade de expansão de escala e sair da competição predatória. Para o Brasil, o recado é direto: fornecedores e compradores que dependem do modelo antigo de comércio sino-global precisam revisar contratos e rotas nos próximos meses.
O Grupo Holley, sediado em Hangzhou e atuante em medição inteligente de energia, é um dos maiores fabricantes chineses de medidores elétricos e sistemas de gestão de redes. Seu chairman, Wang Licheng, usou o palco da Cheung Kong Graduate School of Business para defender uma tese que ecoa entre empresários privados chineses: a era da globalização com tarifas baixas ou zero acabou. Segundo ele, a grande divisão do trabalho entre países também foi encerrada, e a cadeia de suprimentos global está evoluindo para distribuição, regionalização e outsourcing próximo. Wang destacou que o aumento das exportações chinesas nos últimos anos, em vez de queda, deve-se ao sistema manufatureiro completo, abrangente e eficiente já formado na China, do qual os mercados desenvolvidos temporariamente não conseguem se desvincular. Mas essa tendência não mudou, e as empresas chinesas precisam se preparar com antecedência. Ele também observou que empresas ligadas às forças produtivas de nova qualidade, como as de alta tecnologia, embora em pleno desenvolvimento, apresentam um diferencial notável em relação às tradicionais, e o volume total de empresas privadas continuará a encolher no futuro.
Por que isso chega ao Brasil? O comércio bilateral Brasil-China ultrapassou US$ 150 bilhões em 2023, com o Brasil exportando principalmente soja, minério de ferro e petróleo, e importando eletrônicos, máquinas, autopeças e insumos industriais. Se a cadeia global se regionaliza, fornecedores brasileiros de commodities e manufaturados intermediários podem enfrentar prazos mais longos, custos logísticos maiores e renegociação de contratos de longo prazo com compradores chineses. Setores como o de autopeças no ABC paulista, o de eletroeletrônicos na Zona Franca de Manaus e o de máquinas agrícolas no Rio Grande do Sul são diretamente expostos. O regulador brasileiro que precisa acompanhar é a CAMEX (Câmara de Comércio Exterior), além do MDIC, que podem precisar ajustar políticas de importação e defesa comercial se a China redirecionar excedentes para mercados alternativos.
Os dados mostram que a participação chinesa nas importações brasileiras de manufaturados segue acima de 20%, e que os embarques chineses para o Brasil cresceram em setores como veículos elétricos e equipamentos de telecomunicações. Na leitura do CBI, isso indica que o discurso de Wang não é retórica isolada: reflete uma mudança estrutural na forma como empresas chinesas planejam expansão. A comparação com o ciclo 2018-2019, quando a guerra comercial EUA-China forçou a primeira onda de realocação, mostra que agora o movimento é mais profundo e envolve não só tarifas, mas regulação, subsídios e segurança de suprimentos. Para o empresário brasileiro, o risco é ficar preso a contratos indexados a um modelo de globalização que está sendo desmontado.
O que acompanhar: primeiro, a próxima reunião da CAMEX e eventuais ajustes em tarifas de importação de bens intermediários chineses; segundo, os dados mensais de comércio exterior do MDIC, especialmente a evolução das importações de autopeças e eletrônicos; terceiro, anúncios de investimento chinês no Brasil em setores como energia e mobilidade elétrica, que podem sinalizar se a regionalização está trazendo produção para o Mercosul ou apenas redirecionando rotas.
Nota sobre a fonte
Fonte é mídia institucional chinesa (Caixin), mas o tom é de autocrítica empresarial em vez de otimismo diplomático padrão — o discurso antecipa ajuste defensivo da China, o que tende a mascarar impactos negativos para fornecedores brasileiros.