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BRICS constrói arquitetura financeira para transição verde — Brasil busca acesso a fundos climáticos

· Clara Lin
Veículos elétricos e bateriasInfraestrutura e construção

O BRICS está estruturando mecanismos financeiros — empréstimos em moeda local, financiamento para adaptação e mercados de carbono — para viabilizar a transição verde do Sul Global. Para o Brasil, isso abre caminho para destravar capital climático internacional, mas exige coordenação do Banco Cent...

Por que isso importa

O BRICS discute linhas-piloto em moedas locais via Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, capital autorizado de USD 100 bilhões), com potencial de reduzir o custo de capital para projetos de energia, infraestrutura e agronegócio no Brasil — hoje dependentes de funding internacional e de empresas como Petrobras, Eletrobras e Suzano. O impacto é indireto (via acesso a funding e custo de capital), não imediato, e depende de três gatilhos operacionais que ainda não estão fechados: reunião do NDB, resolução do Banco Central e operação do SBCE.

O que fazer

Acione o BNDES para mapear cofinanciamento com o NDB e estruturar garantias para projetos de bioeconomia e adaptação climática; Consulte o Banco Central sobre cronograma de liquidação em moedas locais do BRICS e sobre a regulamentação do SBCE (mercado de carbono); Monitore na B3 os spreads de captação e o mercado de carbono para calibrar o custo de capital de projetos de descarbonização.

Janela de tempo

Próxima reunião do NDB prevista para o 2º semestre deve anunciar linhas-piloto em moedas locais, e resolução do Banco Central sobre liquidação em moedas do BRICS pode sair ainda este ano.

O BRICS está avançando além das promessas climáticas para construir a infraestrutura financeira necessária para financiar a transição verde do Sul Global. O bloco articula empréstimos em moeda local, linhas de financiamento para adaptação climática, mercados de carbono e coordenação entre bancos centrais, com o objetivo de transformar compromissos ambientais em capital que efetivamente circule. Para o Brasil, que preside o BRICS em 2025 e tenta posicionar-se como hub de finanças verdes, a iniciativa pode destravar recursos para projetos de adaptação e descarbonização — desde que o Banco Central e o BNDES consigam alinhar instrumentos domésticos às novas estruturas do bloco. O BRICS está colocando capital por trás da ação climática. O grupo — que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros — está desenvolvendo uma arquitetura financeira que vai de empréstimos em moeda local a mecanismos de financiamento para adaptação climática, passando pela criação de mercados de carbono e pela coordenação entre bancos centrais. O objetivo declarado é transformar compromissos climáticos em fluxos de capital concretos para o Sul Global, região que historicamente enfrenta dificuldades para acessar financiamento internacional de baixo custo. Por que isso chega ao Brasil? O país é um dos principais demandantes de capital climático no mundo, com um portfólio de projetos que vai de reflorestamento na Amazônia a transição energética no Nordeste. Empresas brasileiras dos setores de energia, agronegócio e infraestrutura — como Petrobras, Eletrobras, Suzano e grandes tradings agrícolas — dependem de linhas internacionais para financiar descarbonização. O Banco Central e o BNDES são os atores domésticos que precisam reagir: o primeiro, para viabilizar liquidação em moedas locais e integrar o Brasil a sistemas de pagamento do bloco; o segundo, para estruturar garantias e cofinanciamento com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do BRICS. O impacto direto é indireto, via acesso a funding e custo de capital. Os dados mostram que o BRICS já opera o NDB, com capital autorizado de cerca de USD 100 bilhões, e discute a expansão de linhas em moedas locais — o que reduziria a dependência do dólar e o risco cambial para tomadores brasileiros. Na leitura do CBI, isso indica que o bloco tenta criar um circuito paralelo de financiamento climático, menos exposto a condicionalidades políticas do Ocidente e mais alinhado às prioridades do Sul Global. A comparação com eventos anteriores é relevante: em 2023, a cúpula de Joanesburgo já sinalizava essa direção, mas faltavam instrumentos operacionais. Agora, a ênfase em mercados de carbono e coordenação entre bancos centrais sugere que o BRICS está migrando da retórica para a engenharia financeira. Para o leitor brasileiro que decide na segunda-feira, o ponto central é: quem capta primeiro, capta mais barato. Se o Brasil conseguir posicionar projetos de adaptação e bioeconomia dentro desses novos mecanismos, o custo de capital pode cair. Se ficar apenas na articulação diplomática, o fluxo vai para Índia, China ou África do Sul. O que acompanhar: (1) a próxima reunião do NDB, prevista para o segundo semestre, onde devem ser anunciadas linhas-piloto em moedas locais; (2) a publicação de decreto ou resolução do Banco Central sobre liquidação em moedas do BRICS, que pode sair ainda este ano; (3) a evolução do mercado de carbono brasileiro (SBCE), que precisa estar operacional para conectar-se a plataformas internacionais do bloco. Sem esses três elementos, o discurso de financiamento verde do BRICS não se traduz em caixa para o Brasil.

Nota sobre a fonte

A CGTN (mídia estatal chinesa) adota tom otimista e promocional ao apresentar o BRICS como 'circuito paralelo' ao Ocidente, omitindo que os instrumentos operacionais ainda não existem — o que exige desconto na leitura das promessas de fluxo concreto de capital.

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