Transição verde agrícola chinesa pressiona exportadores brasileiros de soja e carne — certificação ambiental será novo crivo de acesso ao mercado
A China lançou diretrizes do 15º Plano Quinquenal para agricultura verde, com metas de redução de fertilizantes e água, e promete estender critérios ambientais a importações. Para o Brasil, maior fornecedor de soja (70% das exportações) e carne bovina (40%), isso significa riscos de novas exigências de rastreabilidade e pegada ambiental. Empresas como JBS, Marfrig e tradings como Cargill e Bunge devem se preparar para certificações mais rígidas a partir de março de 2025. A recomendação do CBI é antecipar a adequação para não perder contratos.
A China publicou oficialmente o capítulo especial do 15º Plano Quinquenal dedicado à transição verde da agricultura, estabelecendo metas vinculantes para reduzir o uso de fertilizantes químicos, otimizar o consumo de água e promover culturas de alto valor agregado. O plano prevê incentivos fiscais e subsídios para produtores domésticos que adotarem práticas sustentáveis, além de investimentos em biotecnologia e agricultura de precisão. Durante a 4ª Chain Expo, a executiva da Corteva para a Grande China, Zheng Ruiwen, afirmou que o país não busca mais apenas garantir o abastecimento, mas equilibrar produtividade com preservação de solo, água e ecossistemas. Dados do Ministério da Agricultura chinês indicam que o país já reduziu em 15% o uso de fertilizantes químicos entre 2020 e 2024. A diferença agora é que o plano quinquenal explicita a intenção de estender esses critérios para a cadeia de suprimentos global, ou seja, para importações.
Esse movimento afeta diretamente o Brasil, maior fornecedor global de soja e carne para a China. Em 2023, o Brasil exportou aproximadamente US$ 50 bilhões em produtos agropecuários para o país asiático, dos quais a soja representa cerca de 70% das compras chinesas do grão brasileiro e a carne bovina responde por 40% das exportações brasileiras do setor. As empresas diretamente impactadas incluem as processadoras de carne JBS, Marfrig e BRF, além das tradings internacionais Cargill e Bunge, que operam na originação e exportação de soja. Os reguladores envolvidos serão a GACC (alfândega chinesa) e o MOFCOM (ministério do comércio), que devem estabelecer novos requisitos fitossanitários e de sustentabilidade. O setor de fertilizantes também pode ser afetado indiretamente, já que a China é grande produtora e exportadora de fertilizantes nitrogenados — uma eventual redução no uso doméstico pode alterar fluxos de comércio.
Na avaliação do CBI, esse não é um movimento retórico, mas sim uma política em execução com metas verificáveis. Os dados indicam que a redução de 15% no uso de fertilizantes entre 2020 e 2024 já foi alcançada, demonstrando capacidade de implementação. O que muda agora é que a China decide alinhar suas compras externas aos padrões domésticos, um passo que pode ser comparado à forma como o país endureceu as regras para reciclagem de resíduos sólidos (National Sword) ou para inspeção de grãos. O sinal é claro: a certificação ambiental e a rastreabilidade total da cadeia produtiva se tornarão condições de acesso ao mercado chinês. A longo prazo, isso pode pressionar os preços das commodities brasileiras, criando um prêmio para soja e carne certificadas, mas também elevando custos de conformidade. No curto prazo, o evento mais concreto é a publicação do decreto regulatório detalhado pela GACC, previsto para março de 2025, que deve listar os novos critérios. O CBI avalia que os exportadores brasileiros têm uma janela de menos de seis meses para se adequar.
Três grupos de profissionais e empresas devem prestar atenção imediata ao desenrolar dessa política. O primeiro são os diretores de sustentabilidade e compliance das grandes processadoras de carne brasileiras (JBS, Marfrig, BRF) e das tradings de grãos (Cargill, Bunge, Amaggi), que precisarão implementar sistemas de rastreabilidade desde a fazenda até o container. O segundo grupo são os executivos de comércio exterior de frigoríficos habilitados na GACC, que devem monitorar a atualização da lista de plantas autorizadas e os novos protocolos fitossanitários. O terceiro perfil são os gestores de risco de fundos de investimento e hedgers que operam com contratos futuros de soja na CBOT, pois o prêmio de sustentabilidade pode se refletir nas cotações. Além disso, consultores regulatórios e escritórios de advocacia especializados em comércio Brasil-China devem se preparar para assessorar clientes na adequação às novas regras.
Os próximos passos concretos para monitoramento são cinco. Primeiro, a publicação do decreto regulatório detalhado pela GACC, prevista para março de 2025, que deve especificar os novos requisitos de certificação para soja e carne — esse é o gatilho mais imediato. Segundo, a reunião bilateral Brasil-China do Comitê de Cooperação Agrícola, agendada para abril de 2025, onde o tema será pauta central e poderá gerar negociações sobre prazos e equivalência de certificações. Terceiro, a variação do prêmio de sustentabilidade nos contratos futuros de soja na CBOT, que pode indicar a disposição do mercado chinês em pagar mais por grãos certificados. Quarto, as declarações do MOFCOM sobre a criação de um selo verde para importações agrícolas, possivelmente alinhado ao sistema doméstico chinês. Quinto, o anúncio de novos investimentos chineses em biotecnologia e agricultura de precisão no Brasil, como parte da estratégia de integração da cadeia — a Corteva e outras empresas já sinalizam parcerias. A recomendação do CBI é que os exportadores brasileiros iniciem imediatamente um mapeamento de suas cadeias de suprimento para identificar lacunas de rastreabilidade e iniciar negociações com certificadoras internacionais reconhecidas pela China.
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