Ascenty vê Redata como catalisador para nova geração de data centers no Brasil
A expansão dos projetos de data centers voltados à inteligência artificial está mudando os parâmetros de infraestrutura no Brasil. Para João Walter da Silva, diretor de Produtos, Soluções e Estratégias de Edge da Ascenty, a chegada de workloads de IA exige uma revisão profunda dos modelos tradicionais de planejamento, principalmente em energia, refrigeração e desenho dos data centers.
Durante o Atlantic Convergence 2026, o executivo destacou que a companhia vem se preparando há vários anos para esse movimento e que os projetos de expansão anunciados já incorporam requisitos para workloads de alta densidade.
Segundo Razori, a IA está alterando de forma significativa a maneira como os data centers são projetados. Se, no ambiente tradicional de cloud, era comum trabalhar com densidades de aproximadamente 4 a 6 kW por rack, os novos ambientes para IA já operam com 40, 100 e até 200 kW por rack, enquanto projetos futuros podem chegar a 400 kW.
A mudança está diretamente relacionada à substituição de arquiteturas baseadas predominantemente em CPUs por ambientes com grande concentração de GPUs. Quanto maior a quantidade de GPUs e o volume de processamento, maior é a demanda energética e térmica. “Isso muda a forma de você planejar energia, de você planejar refrigeração, o design de data center. Isso muda completamente”, afirmou.
A Ascenty anunciou investimentos de US$ 1,2 bilhão e uma expansão de 150 MW de capacidade. Um dos exemplos é o data center de Sumaré, concebido desde o início para atender cargas de trabalho de IA, com infraestrutura de liquid cooling. O empreendimento já possui contrato firmado com um cliente, segundo o executivo.
Estratégia combina cloud tradicional e IA
A companhia também vem adotando uma estratégia de expansão modular, permitindo que estruturas originalmente concebidas para cloud sejam adaptadas para workloads de IA.
Em Vinhedo, por exemplo, a Ascenty possui ambientes destinados à cloud e vem incorporando estruturas capazes de operar com refrigeração líquida. O modelo permite que clientes que já utilizam os data centers possam ampliar suas operações para aplicações de inteligência artificial sem necessariamente migrar para uma nova instalação. “Eu não vou fazer 100% do liquid”, explicou Razori, destacando a estratégia de combinar diferentes tecnologias de refrigeração dentro de uma mesma estrutura.
Para o executivo, o principal fator que determinará novos investimentos será a demanda efetiva dos clientes.
Redata exigirá articulação de todo o ecossistema
Na avaliação de Razori, projetos de grande escala como o Redata não podem ser conduzidos isoladamente por uma única empresa. Eles demandam a combinação de capital, terrenos, construção civil, energia, tecnologia, infraestrutura de telecomunicações e outros fornecedores especializados.
Nesse cenário, o executivo considera natural a formação de parcerias e consórcios capazes de reunir diferentes competências e acelerar a implantação dos empreendimentos.
A Ascenty participa ativamente de associações do setor e atua também em discussões regulatórias relacionadas à expansão da infraestrutura de data centers. A empresa afirma estar preparada para aproveitar oportunidades associadas ao Redata, especialmente em temas como energia renovável e autogeração.
A disponibilidade de energia é apontada como um dos principais desafios para a expansão da infraestrutura digital. A Ascenty vem trabalhando com modelos de autogeração e fontes renováveis, buscando produzir praticamente toda a energia que consome e manter uma margem adicional de capacidade. “Essa é a base de tudo. O Brasil é um país muito bom na matriz energética”, disse Razori.
O executivo ressalta, porém, que não basta existir disponibilidade de geração. Dependendo da região, pode ser necessário construir novas linhas de transmissão para levar a energia até o data center.
Por isso, o planejamento precisa começar anos antes da entrega da capacidade. “Uma empresa que está querendo pensar em um data center para amanhã tem que começar hoje”, afirmou. Segundo ele, dependendo da região, a disponibilização de capacidade energética pode levar cerca de três anos.
Expansão acompanha a demanda regional
A estratégia da Ascenty não está limitada ao Brasil. A empresa também possui projetos de expansão em outros mercados latino-americanos. No Chile, por exemplo, anunciou um projeto que começa com aproximadamente 30 MW e poderá alcançar 100 MW. No México, mantém dois grandes data centers e terreno destinado à implantação de uma terceira unidade.
Razori considera, entretanto, que o Brasil apresenta características particulares por seu tamanho e pela concentração de grandes consumidores de tecnologia. O mercado brasileiro reúne grandes bancos, varejistas e empresas com elevada demanda por processamento e infraestrutura digital.
Além de São Paulo, o executivo vê oportunidades crescentes em outras regiões, como Fortaleza, impulsionadas pela chegada de cabos submarinos e novos investimentos em data centers.
Conectividade amplia o alcance da infraestrutura
Outro foco apresentado pela Ascenty no Atlantic Convergence foi o ServiceFabric, plataforma global de conectividade desenvolvida pela Digital Realty, investidora da Ascenty, e adaptada pela companhia para o mercado brasileiro.
A plataforma permite conectar clientes a mais de 500 pontos de conexão e integrar ambientes distribuídos em diferentes data centers e provedores de nuvem no mundo.
Na prática, uma empresa pode conectar operações em São Paulo, Nova York e Atlanta, por exemplo, criando uma rede integrada. A solução também permite conexão com data centers de outros operadores, ampliando as alternativas para aplicações que exigem redundância, segurança ou requisitos específicos de compliance.
Segundo Razori, o ServiceFabric está em operação no Brasil há cerca de dois anos e passa atualmente por um processo de expansão diante da adesão dos clientes.
O modelo também busca reduzir barreiras para adoção, já que o cliente paga pelo uso e pode desativar a conexão quando não precisar mais dela, sem penalidade.
Planejamento antecipado como vantagem competitiva
Para Razori, a experiência acumulada pela Ascenty na expansão de infraestrutura coloca a companhia em uma posição favorável diante da nova onda de demanda provocada pela IA.
A combinação de capacidade energética, refrigeração líquida, expansão modular, autogeração e conectividade permite à empresa atender tanto workloads tradicionais quanto aplicações de inteligência artificial.
Nesse cenário, o Redata representa mais do que uma oportunidade de construção de novos data centers. Na visão da Ascenty, o projeto reforça a necessidade de estruturar, de forma coordenada, todo o ecossistema necessário para suportar a próxima geração de infraestrutura digital brasileira.