K-beauty avança e desafia estratégia das farmácias
A beleza asiática ganha espaço no mercado brasileiro e para as farmácias, o avanço da categoria coloca em pauta decisões de curadoria, exposição, treinamento, abastecimento e integração entre lojas físicas e canais digitais.
Entre janeiro e novembro de 2025, as importações brasileiras de produtos de beleza e cuidados pessoais da Coreia do Sul cresceram 49,6%, passando de US$ 21,6 milhões para US$ 32,3 milhões.
Em volume, a alta chegou a 86,8%, segundo dados do ComexStat compilados pela ABIHPEC. A entidade também aponta que o Brasil registrou 7.359 lançamentos de produtos de beleza e cuidados pessoais em 2025.
O movimento reforça a projeção da K-beauty , impulsionada pela inovação e pela influência cultural sul-coreana, mas também abre espaço para uma categoria mais abrangente, que reúne produtos de diferentes origens asiáticas. O desafio comercial está em converter a curiosidade inicial em consumo frequente.
“Uma marca pode chegar ao Brasil, viralizar e ainda assim não construir mercado. Entre desembarcar o produto e gerar recorrência existe uma cadeia que envolve posicionamento, abastecimento, treinamento, exposição e educação do consumidor”, analisa Cláudia Martins , fundadora e diretora comercial da CM Impacta.
Farmácias podem conectar descoberta e recompra
Em um mercado de beleza e cuidados pessoais que movimentou aproximadamente R$ 200 bilhões em 2025, o canal farma reúne capilaridade, relacionamento com o consumidor e presença consolidada em dermocosméticos, higiene e autocuidado.
As 29 redes associadas à Abrafarma somavam 11.893 lojas e faturamento anual de quase R$ 128,9 bilhões até julho de 2026. No comércio eletrônico, as vendas digitais movimentaram R$ 21,58 bilhões entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, crescimento de 54,82%.
Essa estrutura permite conectar diferentes etapas da jornada de compra . A descoberta pode ocorrer nas redes sociais, enquanto a pesquisa, a orientação, a experimentação e a reposição se distribuem entre aplicativos, comércio eletrônico e lojas físicas.
Leonardo Diniz , CEO do Grupo DI, comenta que a K-Beauty já contribui para a diversificação do portfólio de beleza da rede. “É uma categoria que favorece a experimentação e abre espaço para que o consumidor descubra novas marcas e soluções”, reforça.
Segundo o executivo, o grupo vê potencial importante de crescimento. “A K-Beauty acompanha uma transformação mais ampla do varejo farma, em que a farmácia passa a ocupar um papel cada vez mais relevante na jornada de beleza e autocuidado, transformando-as em espaços cada vez mais completos de saúde, beleza e bem-estar”, destaca.
Outra rede que vem investindo na onda asiática é a Nissei . “A beleza coreana desperta cada vez mais interesse no Brasil, mas ainda existe uma percepção de que esses produtos são restritos a um público de maior poder aquisitivo. Queremos ampliar o acesso a essas novidades, aliando variedade, qualidade, segurança e informação para o consumidor fazer suas escolhas com confiança”, relata o CEO Alexandre Maeoka .
Curadoria precisa orientar o sortimento
A expansão da categoria exige distinguir as propostas dos mercados asiáticos . A Coreia do Sul ganhou projeção pela velocidade de inovação, pela força das redes sociais e pela combinação entre ingredientes, texturas e referências culturais. Em 2025, suas exportações de cosméticos alcançaram US$ 11,4 bilhões, alta de 11,8%.
O Japão , por sua vez, tem sua indústria associada à pesquisa, à qualidade e à constância. Dados da Euromonitor reunidos pela ABIHPEC apontam que o mercado japonês de beleza e cuidados pessoais movimentou US$ 29,5 bilhões em 2024.
Karina Diniz , Global Brand Curator do Grupo DI, ressalta que a rede acompanha de perto o mercado internacional e avalia cada marca considerando inovação, desempenho, segurança e aderência ao consumidor brasileiro. “Esse processo envolve um período mínimo de três meses de testes pela nossa equipe antes da incorporação dos produtos ao portfólio”, revela.
Embora uma área dedicada à Asian Beauty facilite a descoberta, agrupar produtos apenas pela origem pode dificultar a escolha. “Não basta colocar todos os produtos asiáticos no mesmo espaço. O consumidor precisa entender o que cada marca propõe, qual necessidade atende e como o produto entra em sua rotina. Sem essa tradução, a gôndola pode ser visualmente atraente, mas continuar confusa”, afirma a executiva.
Cinco frentes para transformar interesse em vendas
A entrada na categoria demanda decisões coordenadas entre compras, operações, marketing e equipes de loja.
Seleção de marcas
Procedência, regularização, diferenciação, posicionamento de preço e aderência ao público devem orientar a escolha, evitando sortimentos extensos sem identidade comercial.
Organização da exposição
A origem asiática pode funcionar como elemento de descoberta, enquanto a disposição por necessidades facilita a navegação e a combinação de produtos.
Capacitação das equipes
Farmacêuticos e consultores precisam conhecer características, ativos, texturas e formas de uso para orientar o consumidor com clareza e sem promessas exageradas.
Planejamento do abastecimento
A demanda impulsionada por tendências pode crescer rapidamente, enquanto importação e reposição seguem prazos mais longos. A capacidade de entrega dos fornecedores precisa acompanhar a expansão das vendas.
“Uma marca pode ser desejada e ainda não estar preparada para atender uma grande rede. A ruptura logo depois do lançamento compromete a experiência e abre espaço para concorrentes”, alerta Cláudia.
Indicadores de desempenho
Giro, margem, disponibilidade, recompra e venda combinada de produtos devem complementar métricas de alcance digital e resultados dos lançamentos. “A primeira venda pode ser impulsionada pela curiosidade. A segunda mostra se o produto encontrou um lugar na rotina. Para construir uma categoria, precisamos olhar menos para o barulho do lançamento e mais para a recorrência”, finaliza.