Por que construir data centers no país pode ser muito bom para a balança comercial brasileira?
De um total de 12.199 data centers existentes no mundo, quase 40% estão — previsivelmente — situados nos Estados Unidos, de acordo com o site DataCenter Map, que lista tanto centros de dados em operação quanto projetos em desenvolvimento. Na página, o Brasil aparece com 218 centros de dados — mais do que a Rússia (188) e o México (66), mas ainda assim respondendo por apenas 1,78% do total global.
A principal dificuldade para expandir essa participação — argumentam as empresas de tecnologia da informação e comunicação — está no custo de construir um data center no país. Para tirar do papel um centro de dados de grande porte, com 100 megawatts (MW) de capacidade, o investimento necessário no Brasil é 34% maior do que nos Estados Unidos, estima a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom).
“Os Estados Unidos não têm uma tributação tão focada no consumo e, sim, na renda”, explica Ricardo Ferreira da Costa, gerente sênior de tributos indiretos na EY Brasil.
No caso específico da construção de um data center, a diferença é explicada principalmente pela carga tributária incidente sobre equipamentos, ressalta a Brasscom. “É aqui, nos equipamentos de computação, onde estamos perdendo o jogo para o resto do mundo”, afirma Affonso Nina, presidente da associação, citando uma carga tributária média de 35% sobre os equipamentos. “Em outros países esse percentual é de 5%, 10%”, compara.
Desdobrando os investimentos em ativos fixos necessários a um data center, 70% se referem a equipamentos de computação e 30%, à infraestrutura física, incluindo o processo de construção civil.
Além disso, devido à natureza eletrointensiva dos data centers, a energia é uma variável relevante dentro do bolo das despesas operacionais (“opex”). “E a tributação sobre a energia elétrica é alta no país: varia de 17% a 24%, dependendo do Estado”, lembra Costa, da EY Brasil.
No cômputo geral, no entanto, uma possível — ainda que improvável — queda na tributação da energia não seria capaz de contrabalançar o peso dos impostos incidentes sobre o equipamento de computação.
“É óbvio que se você mexesse, por exemplo, no ICMS da energia para os data centers, teria condição de o Brasil ser ainda mais competitivo nesse custo”, reconhece Nina. “Mas, de novo, é uma questão da escolha da prioridade, onde o calo dói mais. Ou seja, não adiantaria eu reduzir o ICMS, ou mesmo zerar o ICMS sobre a energia que um data center consome e manter a carga tributária sobre os equipamentos de computação. Isso não ia dar resultado.”
Uma empresa que utiliza serviços de computação em nuvem a partir de data centers construídos no país paga de 15% a 20% mais caro quando comparado ao uso de infraestrutura no exterior, estima a Brasscom.
A decisão de construir um data center localmente em vez de simplesmente contratar os serviços no exterior, no entanto, não passa apenas por aspectos financeiros, mas também por fatores técnicos e até geopolíticos. Quanto mais distante o centro de dados está do cliente final de um determinado serviço, maior o tempo de resposta (latência).
Há também uma discussão crescente sobre soberania digital (ou de autonomia tecnológica, como preferem alguns), pelo fato de dados de brasileiros (seja pessoas físicas ou jurídicas) estarem muitas vezes armazenados fora do país. Descontada a componente política desse debate, o foco retorna à economia.
A balança comercial do país no segmento de serviços de computação e informação está cada vez mais desfavorável ao Brasil. Se em 2016 a diferença entre exportações e importações era um déficit de R$ 5,3 bilhões, no ano passado este saldo negativo atingiu R$ 44,2 bilhões. Ou seja: independentemente de questões técnicas ou políticas, ter mais data centers no país pode ser vital para a balança comercial brasileira.
Bloomberg