Novas diretrizes para a obesidade reforçam tratamento mais individualizado e assertivo
Reconhecida como uma doença crônica há pouco mais de uma década pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade passou a ter novas perspectivas de tratamento nos últimos anos com a chegada – em larga escala – ao mercado de uma nova classe de medicamentos: os análogos de GLP-1, que vêm transformando a abordagem da condição e as perspectivas de como lidar com a doença.
Para Paulo Rosenbaum, médico endocrinologista do centro de prevenção e tratamento da obesidade do Einstein, a chegada desses fármacos é um reflexo do avanço da compreensão do problema nas últimas décadas. “Nos últimos 10 anos, a obesidade tem sido classificada como uma doença crônica, recorrente, complexa e que tem relação com uma série de fatores. O conhecimento sobre a fisiopatologia da doença aumentou muito.”, diz.
Assim, o arsenal de terapias passou a contar com opções com impactos que, até então, não eram alcançados. “Os análogos de GLP1, e mais recentemente GIP, mudaram radicalmente o tratamento da obesidade. Conseguimos aliados que podem favorecer a perda e a manutenção dessa perda de peso”, adiciona.
No Brasil, estima-se que, em 2021, a obesidade tenha sido responsável por mais de 60 mil mortes prematuras decorrentes de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Nesse mesmo período, 1,7 milhão de pessoas apresentaram alguma DCNT relacionada ao excesso de peso. O impacto para o sistema de saúde brasileiro também é expressivo: os gastos hospitalares e ambulatoriais associados à condição chegaram a aproximadamente US$ 377 milhões em 2019.
O dado consta na nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade , publicado pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) em 2026. Com o documento, a entidade busca se posicionar sobre a indicação de medicações levando-se em conta a composição e distribuição de gordura corporal, bem como a prescrição off label. As diretrizes dialogam com os novos entendimentos científicos sobre o próprio diagnóstico da obesidade.
Novos critérios diagnósticos
Na esteira do avanço do conhecimento sobre a fisiopatologia da doença, a própria forma de diagnosticar e classificar a obesidade também mudou. Desde 1990, o índice de massa corporal (IMC) era o principal critério de diagnóstico para a condição, classificada em graus 1, 2 e 3. De lá para cá, no entanto, estudos e dados de vida real começaram a demonstrar que o cálculo baseado em altura, peso e massa corporal, embora útil, apresenta limitações. Especialistas passaram a propor, então, um foco maior na distribuição e na composição da gordura corporal. Assim, indicadores como a relação cintura-altura e a medida da circunferência abdominal passaram a ser considerados na prática clínica.
“Podemos olhar além do IMC para avaliar aquele indivíduo com um risco para a obesidade, sobrepeso e as complicações relacionadas a isso”, explica Rosenbaum. “O IMC só vai mostrar o peso, mas não diferencia o que é gordura do que é músculo, e não vai mostrar como está essa distribuição de gordura. E sabemos que o acúmulo de gordura que ocorre principalmente na região abdominal, a chamada gordura visceral, é a que provoca todas essas complicações conhecidas.”
Esse maior entendimento da doença também mostrou a relação próxima de comorbidades associadas ao excesso de peso, como diabetes, doenças hepáticas, cardiovasculares, renais e osteoarticulares e apneia do sono, entre outras. Nesse sentido, os novos fármacos baseados em análogos do GLP-1 se destacam justamente por, além de promover uma perda de peso substancial, terem efeito protetor sobre esses efeitos secundários da obesidade.
Atualmente, estima-se que existam mais de 170 medicamentos dessa classe terapêutica em desenvolvimento e que devem chegar ao mercado nos próximos anos. O potencial de impacto é enorme, aponta Rodrigo Lamounier, diretor da ABESO. “Por exemplo, existe um estudo da semaglutida em pacientes com obesidade sem diabetes e com doença cardiovascular estabelecida, ou seja, com história prévia de infarto e AVC, em que o uso do medicamento diminuiu em 20% o risco de incidência de um novo evento cardiovascular. Ou seja, não é só a perda de peso, esses remédios podem ter outros efeitos potencialmente benéficos para a saúde.”
A descoberta e disseminação de novas classes tem provocado também discussões sobre a própria classificação da obesidade. Nesta linha, em 2022, a ABESO e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) propuseram a adoção de termos como obesidade controlada e obesidade reduzida, a partir da perda de peso alcançada no tratamento.
“Para quem tem um IMC entre 30 e 39,9 kg/m2, por exemplo, as perdas que representem de 5% a 10% do valor mais alto alcançado na vida indicam uma obesidade reduzida. Já perdas acima de 10% apontam para uma obesidade controlada, com uma redução de risco importante para a saúde”, sugere artigo assinado por especialistas de ambas as sociedades, publicado no periódico científico da SBEM.
Foco no tratamento integrado
Ainda que os novos medicamentos representem uma revolução, o olhar integrado para o indivíduo, com foco na mudança de hábitos, também entra em pauta em prol da manutenção dos ganhos alcançados. Por ser uma doença multifatorial e complexa, uma das características da obesidade é justamente a dificuldade para manter a perda de peso atingida. Enquanto estudos de longo prazo com os novos fármacos ainda estão em andamento, o que já se observa na clínica é a necessidade de aliar o período de uso do medicamento a intervenções no estilo de vida.
“O tratamento da obesidade deve partir de uma perspectiva de longo prazo, e o uso medicamentoso deve funcionar como uma espécie de janela de oportunidade”, defende Lamounier, da ABESO. “O objetivo deve ser a construção dessa rotina com mudanças alimentares, inclusão de atividades físicas, sempre de forma personalizada, porque cada paciente tem o seu limite e um contexto de vida. Por esse mesmo motivo, sabemos que não existe um peso ideal para todos.”
E as inovações farmacológicas já começam a buscar soluções para esse desafio da manutenção do peso perdido. Segundo Rosenbaum, há indústrias conduzindo estudos clínicos com moléculas com esse foco específico. Em sua visão, a chegada de medicamentos nessa linha pode contribuir para tornar o tratamento mais acessível, mas é preciso continuar investindo em outras frentes. “Temos que pensar em políticas públicas, como incentivar e tornar mais acessível o consumo de alimentos frescos, investir em campanhas de educação que promovam a prática de atividades físicas e desconstruir o ambiente obesogênico no qual vivemos hoje. Sabemos que isso é tão importante quanto o desenvolvimento de medicações.”
Ao mesmo tempo em que destacam os benefícios dos novos medicamentos, os especialistas também chamam a atenção para outro aspecto: o uso para fins estéticos, indicação não contemplada em bula e fortemente desencorajada pelas sociedades médicas. Isso porque, assim como todo medicamento, os análogos de GLP-1 também apresentam riscos e efeitos colaterais.
Segundo Rosenbaum, a própria forma como a classe medicamentosa passou a ser popularmente chamada de “canetas emagrecedoras” acende um alerta dos médicos e tem impacto real na percepção das pessoas. Nesse sentido, a defesa é de que as drogas sejam rotuladas de medicamentos anti-obesidade, uma vez que o objetivo do tratamento não é apenas a perda de peso, mas também a manutenção do peso perdido e o tratamento de comorbidades da doença em pacientes que tenham a indicação médica de uso delas.
“Esses medicamentos foram estudados e aprovados para tratamento de uma doença. O que conhecemos sobre o medicamento, seu perfil de segurança e os benefícios se refere a um determinado perfil de paciente, de indivíduos que têm IMC acima de 30 ou IMC maior que 27 com comorbidades e indivíduos com diabetes. Não são medicamentos recomendados para perder alguns quilos para fins estéticos”, finaliza o especialista.