Entre estratégia e transparência: o novo papel dos CFOs na agenda ESG
Com a criação das normas internacionais IFRS S1 e S2, em 2023, o papel do CFO nas organizações ganhou ainda mais relevância e protagonismo. As novas diretrizes buscam incorporar às demonstrações financeiras das companhias abertas, informações capazes de responder às crescentes demandas dos investidores sobre como as empresas identificam, mensuram e monitoram riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e seus possíveis impactos no desempenho financeiro futuro e, consequentemente, na geração de valor.
O IFRS S1 estabelece como as empresas devem identificar e divulgar informações relacionadas à sustentabilidade de forma ampla, considerando aspectos que podem afetar o fluxo de caixa, o custo de capital, a geração de valor e até mesmo a continuidade do negócio. Dentro dessas diretrizes, a análise contempla diferentes dimensões, como: capital e direito humano, cadeias de suprimentos, segurança cibernética, dependência de recursos naturais, impactos sobre a biodiversidade e mudanças do clima.
Já o IFRS S2 é direcionado especificamente às questões climáticas e apresenta uma abordagem mais detalhada, com indicadores preestabelecidos de mensuração, como emissões de carbono associadas às atividades empresariais, metas climáticas de longo prazo, investimentos necessários, riscos físicos (como secas, inundações, incêndios e furacões), riscos de transição, etc.
O papel do CFO nessa jornada
O Brasil foi um dos pioneiros na adoção das normas IFRS S1 e S2. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), inclusive, publicou a Resolução 193/2023, estabelecendo diretrizes para a implementação das novas regras pelas companhias.
Os CFOs assumiram a liderança desse processo, afinal, o tema passou a estar diretamente relacionado à área financeira, não apenas pelas implicações contábeis, mas também pela necessidade de adequação orçamentária para desenvolver processos, sistemas e estruturas internas. A estimativa é de que uma implementação consistente demande entre um e dois anos de preparação.
Em maio de 2026, muitas empresas já haviam aprovado os orçamentos necessários e estruturado seus processos para a publicação das demonstrações financeiras em conformidade com as novas regras. Entretanto, o mercado foi surpreendido por uma nova decisão da CVM: a Resolução 244, que alterou o cronograma de implementação e substituiu a obrigatoriedade anterior pelo modelo “pratique ou explique”.
Com a mudança, a adoção deixou de ser compulsória, passando a estimular a implementação das boas práticas, mas permitindo que as companhias justifiquem ao mercado eventuais decisões de não adoção.
Como responder aos investidores?
Na minha visão, esta Resolução reflete um movimento de flexibilização observado globalmente, especialmente nos EUA e em outros mercados, em um momento em que o debate sobre sustentabilidade corporativa enfrenta desafios. Esse movimento ocorre justamente quando observamos, nos últimos anos, o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, com impactos econômicos e sociais cada vez mais evidentes. A questão que se coloca é: como responder aos investidores?
Sabemos que existem desafios relevantes para as empresas na elaboração desses relatórios, como a obtenção de dados confiáveis, a integração de informações e sistemas, o desenvolvimento de competências técnicas em sustentabilidade e finanças e a própria mensuração quantitativa dos impactos. A dúvida é se investidores, especialmente aqueles altamente qualificados, como fundos de pensão, seguradoras, fundos patrimoniais (endowments) e grandes nomes institucionais, irão se satisfazer com respostas baseadas apenas no modelo “pratique ou explique”.
Sob a ótica desses investidores, ao avaliar uma empresa, não é apenas o resultado imediato que importa, mas também sua capacidade de geração de valor no longo prazo, sua estratégia para capturar oportunidades e seus planos para identificar, mensurar e mitigar riscos. Em um ambiente cada vez mais desafiador, esses fatores demonstram a capacidade de uma organização de permanecer competitiva, atualizada e sustentável financeiramente.
Sem informações estruturadas, o investidor pode não ter visibilidade sobre a estratégia da companhia, suas preocupações e as medidas adotadas. Mesmo quando há conhecimento qualitativo sobre esses aspectos, a ausência de dados quantitativos limita a compreensão sobre o impacto financeiro dessas decisões. Justamente o objetivo central dos IFRS S1 e S2.
Mais uma vez, o CFO volta ao centro dessa discussão. Caberá a ele tomar uma decisão estratégica: seguir com a implementação completa dos IFRS S1 e S2, mesmo diante da flexibilização regulatória e dos impactos no orçamento de curto prazo, ou optar por uma adoção parcial das práticas.
Acredito que este seja um momento decisivo para os líderes financeiros. As consequências dessa escolha, porém, serão percebidas ao longo dos próximos cinco, dez anos ou mais, refletindo-se na capacidade das organizações de gerar ou destruir valor.
Os temas relacionados à sustentabilidade, especialmente as mudanças climáticas e seus impactos econômicos, continuarão fazendo parte da agenda estratégica das empresas. A capacidade de antecipar riscos, identificar oportunidades e demonstrar transparência ao mercado será cada vez mais um diferencial competitivo.
Sobre a autora
Rosana Passos de Pádua é Conselheira de Administração do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP). A executiva também faz parte da Governança de instituições como: Itaúsa, Mapfre, Brasilseg, Hmobi, Faber-Castell, CIEE, Engeform e André Guimarães.
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