Preparação para a reforma tributária como fator de competitividade
O início do período de testes da reforma tributária, com a cobrança simbólica da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), marca uma nova fase para as empresas brasileiras. Embora a implementação plena esteja prevista para 2033, especialistas avaliam que a adaptação precisa começar agora, diante da convivência entre o sistema atual e o novo modelo. “O impacto financeiro e o nível de complexidade serão elevados. A mudança vai muito além do recolhimento do tributo, e quem ainda não iniciou o processo está atrasado, podendo perder competitividade”, alerta Fábio Villa, diretor comercial do Itaú BBA, responsável por middle market, corporate banking, multinacionais e tech companies.
O desafio ainda está distante da realidade de parte do mercado. Um levantamento feito pela Serasa Experian mostrou que 42% das pequenas e médias empresas (PMEs) não sabem avaliar o impacto da reforma em seus negócios e 40% nem sequer conseguem identificar em que estágio de preparação se encontram para lidar com o novo arcabouço tributário.
Segundo Villa, o período de transição é justamente o momento para mapear impactos, revisar processos e preparar sistemas, evitando que a adaptação ocorra de forma apressada quando as novas regras entrarem em vigor.
Fábio Villa, diretor comercial do Itaú BBA, responsável pelo middle market & corporate e pelos nichos tech e multinacionais
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REVISÃO DE ESTRATÉGIAS
Embora tenha origem na agenda tributária, o novo regime deverá produzir efeitos em praticamente todas as áreas da companhia. “Ele influencia precificação, capital de giro, estruturas de contrato, cadeia de suprimento, tecnologia e processos internos”, lista o diretor comercial.
Entre as áreas mais afetadas está a comercial. A nova sistemática exigirá revisão de políticas de margens e ferramentas de gestão, por exemplo. “Produtos que hoje apresentam boa rentabilidade podem deixar de ser competitivos, ao passo que outros ganharão espaço em função da nova dinâmica dos créditos, da incidência dos impostos e do mecanismo de split payment”, diz.
A possibilidade de compensar os tributos pagos ao longo da cadeia passa a ter papel central na formação de preços. Como o fornecedor passará a entregar, junto com o produto ou serviço, o crédito correspondente, empresas precisarão rever fluxos operacionais e integrar processos que hoje são conduzidos de forma separada pelas áreas financeira e fiscal.
A qualidade dos créditos gerados pela cadeia de suprimentos deverá ser critério adicional na avaliação de parceiros comerciais. “As organizações passarão a olhar seus fornecedores também pela capacidade de gerar créditos fiscais consistentes. Qualquer falha pode comprometer a liquidez”, afirma Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco.
Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco
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DESAFIOS DA TRANSIÇÃO
O principal desafio operacional será administrar nos próximos sete anos a convivência entre os dois modelos tributários. Na prática, isso exigirá dupla apuração de tributos, adequação de sistemas de gestão, revisão de controles internos, acompanhamento permanente das alterações regulatórias e gestão simultânea dos créditos fiscais de ambos os regimes. “Esse período exigirá forte coordenação entre os setores fiscal, financeiro, comercial e jurídico. A empresa como um todo precisará ter o mesmo nível de conhecimento”, aponta Villa.
Os investimentos em tecnologia serão fundamentais, segundo Gonçalves, que destaca a importância de adaptar sistemas de emissão de documentos fiscais, compliance e controles de crédito para operar simultaneamente com sete impostos durante parte da transição. “Hoje trabalhamos com cinco tributos e caminhamos para um formato baseado em dois. Mas, por vários anos, será necessário administrar todos ao mesmo tempo.”
Davi Faleiros, diretor de corporate finance e meios de pagamento do Itaú BBA
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GESTÃO DO FLUXO DE CAIXA
A migração para o novo regime também deve mexer na tesouraria. Gonçalves chama a atenção para a volatilidade do capital de giro nos próximos anos, conforme a movimentação das alíquotas. “É muito importante acompanhar a exposição do negócio ao processo de transição e o impacto que isso tem no fluxo de caixa, retorno sobre o capital investido e os riscos regulatórios”, diz.
Para Villa, o novo cenário colocará diretores financeiros diante de uma escolha difícil. “O trade--off entre o lucro contábil e a perda de liquidez ficará muito evidente. O CFO terá de decidir se prioriza o Ebitda, o lucro contábil ou o caixa, porque na nova dinâmica eles não vão andar juntos”, explica.
Além da gestão financeira, será preciso revisar políticas de cobrança, mecanismos de conciliação e processos de validação da rastreabilidade fiscal, uma vez que o crédito tributário passa a integrar a própria entrega dos bens e serviços.
Davi Faleiros, diretor de corporate finance e meios de pagamento do Itaú BBA, enfatiza o papel estratégico da diretoria financeira. Ele destaca a importância do mapeamento dos impactos em todo o ecossistema da empresa, considerando as particularidades de cada setor e produto na hora de comprar e vender. “Embora a virada exija ajustes práticos imediatos em sistemas, tecnologia e logística, a área financeira assume a função vital de mensurar economicamente cada decisão”, aponta.
Gustavo Aoki, diretor de estratégia do Itaú BBA
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DIFERENCIAL COMPETITIVO
Especialistas avaliam que a reforma também cria possibilidades. “A transformação está posta para todos, e o lado positivo de um processo tão profundo é a oportunidade de buscar melhorias”, justifica Villa.
Para atender a essa demanda, o Itaú BBA vem ampliando seu papel consultivo, com especialistas em tributação, economia, crédito e cash management, para auxiliar na construção de cenários e na adaptação de modelos de negócio. “Nossa atuação como advisor estratégico é holística, combinando soluções que vão desde a análise dos impactos macroeconômicos até os efeitos práticos no dia a dia do cash management, nas operações de crédito e na gestão de pagamentos e recebimentos. Estamos ao lado da área financeira para analisar o plano de negócios e mensurar os impactos reais na operação”, explica Faleiros. O banco também oferece produtos by design, conforme o setor de atividade, porte da companhia e regionalidade.
Para Gustavo Aoki, diretor de estratégia do Itaú BBA, a reforma tributária deve representar um momento de reestruturação do ambiente concorrencial brasileiro. “A reforma tributária pode redefinir vantagens competitivas. Empresas que compreenderem seus impactos sobre preços, margens e capital de giro estarão em melhor posição para capturar as oportunidades na transição”, alerta.