Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial, e os impactos do envelhecimento populacional sobre o mercado funerário
O Brasil está envelhecendo em ritmo mais rápido do que sua infraestrutura de serviços historicamente conseguiu absorver. Em 2025, o país já contava com aproximadamente 31,8 milhões de pessoas idosas, e a expectativa de vida nacional superou os 76 anos. Esse deslocamento demográfico, discutido há décadas em estudos populacionais, começou a produzir efeitos concretos sobre setores que antes operavam à margem do debate econômico, entre eles, o funerário.
O segmento, que reúne mais de 11 mil empresas entre funerárias, cemitérios, crematórios e administradoras de planos, movimenta hoje cerca de R$ 13 bilhões por ano no Brasil, segundo levantamento da Zurik Advisors para o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep). Esse volume reflete não apenas o aumento do número de óbitos, hoje próximo de 1,3 milhão por ano, segundo o IBGE, mas também uma mudança na forma como esse mercado se organiza e se planeja.
Da informalidade à gestão estruturada
Por muito tempo, o setor funerário brasileiro foi tratado como um negócio de operação reativa: a demanda surgia, e a resposta era dada sob pressão de tempo e emoção. Esse modelo começa a ceder espaço a uma lógica de planejamento de longo prazo, mais próxima da gestão observada em setores como saúde suplementar e seguros.
A mudança da pirâmide etária brasileira também começou a alterar a lógica de operação das empresas do segmento. Inserido nesse contexto, Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, atua em uma área que passou a exigir planejamento de longo prazo e maior previsibilidade operacional.
Com uma base de clientes cada vez mais idosa e mais consciente de sua própria mortalidade como variável de planejamento financeiro, as empresas do setor precisam antecipar demanda, dimensionar capacidade operacional e estruturar modelos de atendimento recorrentes, não apenas emergencial.
Capacidade operacional sob pressão
O crescimento do número de óbitos anuais impõe um desafio direto de infraestrutura: cemitérios com capacidade limitada, crematórios concentrados em poucas regiões metropolitanas e funerárias que ainda operam com processos manuais de agendamento e documentação. A equação é conhecida em outros setores de serviços essenciais, demanda crescente, oferta fixa no curto prazo, mas no segmento funerário ela ganhou urgência apenas recentemente.
Essa pressão tem levado empresas a revisar processos internos, investir em sistemas de gestão e repensar a alocação de recursos físicos, como número de jazigos disponíveis e capacidade de cremação. Segundo o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti, o dimensionamento desses recursos deixou de ser uma decisão isolada e passou a integrar o planejamento estratégico de médio e longo prazo das empresas do setor, à medida que a curva demográfica brasileira se consolida.
Novos modelos de receita recorrente
Um dos efeitos mais relevantes dessa transformação é a migração de um modelo de receita pontual, pago no momento do óbito, para modelos de receita recorrente, baseados em planos de assistência familiar e produtos de pré-pagamento. Tal como alude Tiago Oliva Schietti, essa mudança altera a lógica financeira das empresas, que passam a operar com fluxo de caixa mais previsível e horizonte de planejamento mais longo.
Pesquisa da Amar Assist Insurtech indica que cerca de 73% dos brasileiros demonstram interesse em planos funerários, principalmente para evitar burocracia e gastos imprevistos no momento da perda. Esse interesse crescente abre espaço para produtos financeiros mais sofisticados, com diferentes faixas de cobertura e prazos, em uma lógica que se aproxima cada vez mais da estrutura de seguros tradicionais.
Profissionalização como resposta estrutural
A combinação entre crescimento de demanda e necessidade de previsibilidade financeira está acelerando a profissionalização da gestão no setor. Empresas familiares, historicamente predominantes no segmento, passam a adotar práticas de governança, indicadores de desempenho e processos de sucessão mais formais, movimento comum em setores que atravessam fases de consolidação.
Mais do que uma resposta às pressões regulatórias e financeiras, a profissionalização passou a ser vista como condição necessária para que o setor consiga atender a uma demanda crescente com maior previsibilidade e qualidade operacional. Nesse ambiente de transformação, profissionais ligados à gestão funerária, como Tiago Oliva Schietti, acompanham um movimento que tende a se intensificar nas próximas décadas.
Um setor que se redesenha silenciosamente
Diferente de outros movimentos econômicos mais visíveis, a transformação do setor funerário brasileiro ocorre de forma discreta, distante dos grandes holofotes do noticiário de negócios. Ainda assim, os números indicam um mercado em expansão real, sustentado por uma tendência demográfica irreversível no curto e médio prazo.
O desafio, segundo especialistas do setor, não é apenas atender ao volume crescente de demanda, mas fazê-lo com qualidade de serviço, eficiência operacional e modelos financeiros sustentáveis, uma equação que exigirá, nos próximos anos, investimento contínuo em gestão, tecnologia e capacitação profissional em toda a cadeia funerária brasileira.